Coronavírus

São Paulo Governo de SP é reativo ao adotar protocolos contra pandemia

Governo de SP é reativo ao adotar protocolos contra pandemia

Segundo especialista, quarentena inteligente poderia ser implantada no estado. No modelo matemático, grandes cidades não fecham juntas

Estudo defende quarentena inteligente em SP baseada em modelo matemático

Estudo defende quarentena inteligente em SP baseada em modelo matemático

Reprodução / Record TV

Para se pensar em flexibilizar a quarentena e numa retomada econômica, é preciso levar em consideração ao menos três indicadores: a taxa de isolamento social, a ocupação de UTIs (Unidade de Terapia Intensiva) e o número de casos confirmados de covid-19 e ainda o de óbitos. "Não dá para olhar um dos índices de forma isolada. Esta tríade é integrada. Lembrando que os casos estão atrasados em média quatro dias e as mortes são de 14 dias atrás", afirmou o professor em Saúde Pública da USP e ex-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Gonzalo Vecina Neto.   

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Ao adotar o isolamento, o que se pretende é o achatamento da curva, isto é, que as pessoas não adoeçam ao mesmo tempo e recorram ao sistema de saúde. Para que o governo tenha fôlego de criar novos leitos de UTI, o ideal é que a maior parte da população fique em casa.

Para o pesquisador que desenvolveu um estudo sobre quarentena inteligente e professor de matemática da USP São Carlos, Tiago Pereira, usar apenas a taxa de isolamento social como indicador para flexibilização não é a melhor escolha: "Isso seria jogar muito peso sobre o índice, o que pode gerar distorções".

Como exemplo, ele citou a cidade de São Carlos, no interior do estado, que estava com 48% de isolamento social, quando o ideal para controlar a propagação seria de 50%: "Será mesmo que correr atrás desses 2% mudaria algo? Eles seriam o diferencial para uma cidade fechar ou abrir?".

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Tiago também questiona a taxa de 70% de isolamento tão falada pelo governo no início da pandemia como sendo a melhor a ser atingida para barrar a transmissão do coronavírus: "Não há uma comprovação científica. Este percentual levaria a um Rt [transmissão do vírus para outras pessoas] menor do que 1". 

Já o sanitarista destacou que houve um crescimento expressivo no número de leitos no estado. No entanto, "não dá para se dizer que houve uma grande queda no número de casos de covid-19, ainda estamos subindo. A maior oferta de leitos pode mascarar o dado da taxa de ocupação de UTIs".

Segundo Gonzalo Vecina, não existe um índice de isolamento ideal, mas o estado poderia manter as atividades essenciais em funcionamento com apenas 30% da população nas ruas. A taxa de 70%, almejada pelo governo, nunca foi atingida no estado de São Paulo, nem mesmo em feriados prolongados. "Só conseguiríamos atingir esse índice com lockdown rigoroso, violento, com a polícia nas ruas", defendeu.

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O maior desafio é conseguir manter o isolamento nas periferias, que tem casas pequenas e muitos moradores por habitação. Em geral, eles não têm reservas financeiras e lutam para sobreviver em meio à crise gerada pela pandemia. O sanitarista lembra que a população sai às ruas "para conseguir comer e colocar o alimento em casa".

Gonzalo Vecina acredita que ainda não é o momento para uma retomada sem quarentena: "Tenho muito medo da flexibilização, principalmente se não houver uma queda significativa do número de casos da doença por 14 dias seguidos, o que ainda não tivemos". 

Alternativas

Para que os moradores de comunidades consigam fazer o isolamento adequado e barrar a propagação do novo coronavírus, uma alternativa seria a criação de abrigos. Em Paraisópolis, na zona sul da capital, duas escolas foram transformadas em centros temporários de acolhida para os infectados que tenham sintomas leves.

Outra opção seria o aluguel de quartos de hotéis, que estão ociosos por causa da pandemia, desde que fossem adotados os devidos cuidados de higiene e proteção. A ideia foi até cogitada pela prefeitura de São Paulo, mas para abrigar a população de rua e não moradores de comunidade.

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Há ainda uma alternativa mais radical, já adotada no Mato Grosso do Sul: a colocação de tornozeleiras eletrônicas, como a dos presos em regime semi aberto, em quem furar o isolamento. A medida, no entanto, tem que ter o aval da Justiça.

É importante ampliar a realização de testes também em assintomáticos

É importante ampliar a realização de testes também em assintomáticos

Reprodução / Record TV

Testagem

O monitoramento do avanço da covid-19 é diário, mas a realização de testes ainda é insuficiente. "É preciso saber o curso da epidemia, com o teste RT-PCR [que detecta o vírus usando uma espécie de cotonete] e com o teste de anticorpos nos já infectados", cobrou Gonzalo Vecina.

Segundo o sanitarista, deveria se ampliar a testagem também de não sintomáticos: "Se der positivo, tem que ficar em isolamento por 14 dias e indicar cinco pessoas com quem teve contato e testá-las e assim vai. É o único jeito de se diminuir a transmissão e reduzir o número de casos de covid-19".

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O teste é importante também porque a maior parte da população ainda não teve contato com o novo coronavírus. Gonzalo citou um estudo feito em maio em seis distritos de São Paulo, que mostrou que apenas 5,19% dos moradores dessas localidades desenvolveram anticorpos ao novo coronavírus.

Quarentena inteligente

Um estudo do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria elaborado pelo professor de matemática da USP, Tiago Pereira, criou um sistema que indica quais seriam as melhores estratégias de quarentena no estado de São Paulo. Os protocolos não são únicos e levam em conta as especificidades de cada município, uma vez que as cidades estão em diferentes estágios na pandemia.

Segundo ele, se o protocolo for um só no estado, a quarentena tende a se estender, como ocorre desde 24 de março. É importante ressaltar as diferentes realidades no estado, porque há cidades com grandes áreas rurais e outras sem transporte de massa por trens e metrô, o que impacta na transmissão do vírus.  

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O pesquisador explica que a ideia é que nem todos os municípios fiquem em isolamento ao mesmo tempo. "O protocolo do governo é reativo, olha-se a situação e define-se a ação que será tomada. Há pouca margem de mudança porque o cenário analisado já aconteceu e não se pode mudar. Há um delay de até 17 dias nos dados", explicou Tiago Pereira.

O estudo defende um protocolo descentralizado em sua aplicação e inteligente nas escolhas com métricas matemáticas otimizadoras: "Estabelecemos um objetivo e não interferimos no método. É o computador que acha a melhor solução depois de explorar todos os cenários. No método, não somos nós que definimos o que abre e fecha".

O objetivo será sempre que o sistema de saúde não entre em colapso, pensando sempre na quantidade de leitos, casos confirmados e na progressão da covid-19 na cidade. O fluxo de pessoas (mobilidade) também é analisado assim como a população de cada município.

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A chamada contenção inteligente é feita com base em cores, assim como no Plano São Paulo do governo estadual com as fases de retomada e varia do vermelho (mais restritivo), laranja, amarelo, azul e verde (novo normal).

Baseados nas simulações, os municípios poderiam entrar em quarentena em períodos diferentes, mantendo assim as atividades econômicas. O método define também o quão forte seriam as restrições.

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Outro ponto importante é que o programa não fecharia todas as grandes cidades do estado de uma só vez. “O modelo permite alternar períodos de isolamento mais rigorosos e de vida normal nas cidades”, ressaltou o matemático.

Mas o estudo ainda não foi aplicado na prática. Segundo o pesquisador, não há parceria estabelecida com o governo, mas há diálogo com 60 cidades. "O ideal não é aplicar o método pontualmente e sim em todo o estado para funcionar porque há reflexos do fechamento de cidades na vida das pessoas", concluiu. 

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