São Paulo Inteligência e articulação policial inibiriam ataques, dizem analistas

Inteligência e articulação policial inibiriam ataques, dizem analistas

Ex-integrantes da cúpula das polícias cobram competência do estado contra ações do crime organizado, como em Araçatuba (SP) 

Ação de grupo criminoso causou noite de terror a moradores de Araçatuba (SP)

Ação de grupo criminoso causou noite de terror a moradores de Araçatuba (SP)

Divulgação

Os esforços em inteligência e articulação do trabalho entre todas as esferas das polícias são ações apontadas por ex-integrantes da cúpula da segurança pública de São Paulo como medidas fundamentais para minimizar ataques a agências bancárias, como o ocorrido na madrugada da segunda-feira (30) em Araçatuba, no interior de São Paulo, que terminou com três mortos e cinco feridos.

Segundo avaliações preliminares das autoridades, o crime teve a participação de aproximadamente 50 homens. O grupo utilizou carros de luxo e blindados no assalto, além de uma caminhonete carregada com explosivos.

Os assaltantes espalharam granadas em ruas da cidade para impedir a aproximação da polícia e de moradores. Uma das vítimas do ataque, um ciclista de 25 anos, passou pelo local, foi atingido por um artefato explosivo e teve os dois pés amputados. Homens fortemente armados fizeram um escudo humano com reféns.

O coronel da reserva, ex-comandante da PM paulista e especialista em segurança pública José Vicente da Silva lembrou que, somente neste ano, o roubo praticado em Araçatuba foi a quinta ação nesse formato — os demais ocorreram em Mococa, São Carlos e dois na cidade de São Paulo. Em todos os casos, há semelhanças na organização e atuação dos bandidos.

"Todas são quadrilhas formadas com número grande [de assaltantes], armamento pesado, uso de explosivos e aparentemente usando informações privilegiadas a respeito de numerários de cofres dos bancos. As quadrilhas não estão mais atacando os caixas eletrônicos, porque têm pouco dinheiro e estão quase que totalmente com dispositivos de tinta, que inutilizam as notas. Os ataques vão onde tem mais dinheiro e não tem a tinta", explicou o coronel reformado.

O que está faltando é mais competência e articulação

José Vicente da Silva

José Vicente da Silva avaliou que o enfrentamento deste tipo de crime começa pela atuação das agências de inteligência das polícias militar e civil. "A PM tem uma agência de inteligência em cada um dos batalhões. Existem as inteligências regionais. Araçatuba, por exemplo, tem uma. Em São Paulo, tem o Centro de Inteligência da PM. A Polícia Civil também tem as suas coletas [de informações]. Depois, essa coleta toda vai para o Centro de Operações Integradas para a consolidação [do material]. Alguma coisa pode estar falhando."

O ex-comandante da PM ressaltou ainda que, entre outros fatores de inteligência, as forças de segurança locais, estaduais e federais precisam trabalhar unidas para combater ataques brutais a agências bancárias em todo o Brasil. Nesse sentido, o especialista entende e a interlocução com a Polícia Federal é essencial.

"A PF tem que identificar as quadrilhas para ver se fazem parte dos bandos que atacaram em outros locais, como Santa Catarina. Tem armas, deslocamento de estados, armas estrangeiras, atacaram agência do Banco do Brasil, que é de competência da PF. O compartilhamento de informações é importante para cercar esses grupos", afirmou José Vicente da Silva.

Segundo o coronel reformado, tão importante quanto interceptar os planos das quadrilhas é agir rápido após a execução dos ataques para que novas ações sejam concretizadas pelo crime organizado. "O que está faltando é mais competência e articulação das agências de inteligência. Cada vez que acontece um fato como esse, temos criminosos [detidos] para falar. É preciso interrogá-los rapidamente", complementou o coronel da PM.

Já o também coronel reformado Glauco Silva de Carvalho, ex-comandante do policiamento da capital paulista, também pregou o fortalecimento dos órgãos de inteligência das polícias para que as instituições "possam agir na identificação e prisão dos responsáveis" por ações criminosas semelhantes, assim como das Forças Táticas do interior paulista para que "defrontar tais quadrilhas".

Outro ponto em consonância na opinião do coronel da reserva Glauco da Silva Carvalho foi o estreitamento com os órgãos de inteligência em âmbito federal e de outros estados, além do estabelecimento de planos de contingência "para que os efetivos de cidades próximas possam se apoiar mutuamente", completou.

Monitoramento das quadrilhas especializadas

O ex-delegado geral da Polícia Civil de São Paulo e consultor em segurança pública Marcos Carneiro de Lima acrescentou que uma estratégia necessária, após a falha o trabalho preventivo, é atuar na investigação criminal para impedir que as quadrilhas se reorganizem.

"Depois da investigação, [é necessário] o trabalho de inteligência de monitorar esses criminosos. A polícia tinha que ter um grupo só pra acompanhá-los. O monitoramento do bandido perigoso tem que ser implantado no país e nunca foi feito", enfatizou Marcos Carneiro de Lima.

O delegado destacou também a necessidade de capacitar os agentes públicos para operar recursos tecnológicos no trabalho de investigação e acompanhar o avanço do crime organizado — que não se limita às ações em grandes centros, mas têm aterrorizado pessoas em municípios pequenos e médios do país.

Tem que ser encarado como ato de terrorismo

Marcos Carneiro de Lima

"Os caras usaram drones [no assalto em Araçatuba]. Quantos policiais civis sabem manusear um drone? O crime é muito dinâmico. A tecnologia ajuda a polícia e o criminoso também. A criminalidade avança em termos de ter acesso às novas tecnologias, novas informações. Um criminoso desse nível não é alguém paupérrimo que não teria força nem para segurar um fuzil. É alguém que tem formação e optou pela vida criminosa", ponderou.

Terrorismo e sensação de impunidade

Marcos Carneiro de Lima avaliou que as quadrilhas especializadas em ataques a agências bancárias avançaram de um crime patrimonial para um ato terrorismo. Por isso, diz o delegado, o estado precisar tipificar essas ações violentas de forma mais severa e mostrar à sociedade que tem condições de responder adequadamente, além de impedir a sensação de impunidade.

"Catalogar não somente como crime de roubo. Quando deixam explosivos para trás, afeta toda a sociedade. Quando algo ultrapassa os limites como simples crime patrimonial, tem que ser encarado como ato de terrorismo. Mesmo que [planejado] só pra enriquecer. Não importa. O estado tem que dizer que o crime ultrapassa os limites do crime patrimonial para terrorismo. porque implanta o medo generalizado e descontrolado", acrescentou.

Sucateamento das polícias

O ex-delegado-geral da polícia paulista Marcos Carneiro de Lima também cobrou investimentos em funcionários e equipamentos das forças de segurança pública do estado que, segundo ele, estão sucateadas há décadas. 

"Quadros defasados. O número de policiais civis foi calculado na década de 90 e nunca foi preenchido. O estado de São Paulo tem que ser encarado com um país, porque são [aproximadamente] 46 milhões de pessoas", finalizou.

Segurança pública não é marketing

Adpesp

Entidades de classe que representam policiais civis criticaram a atuação da atual gestão estadual na área, especialmente em relação à falta de recursos para a contratação de novos quadros, renovação de equipamentos, estrutura e questões salariais. 

A Adpesp (Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo) destacou, em nota, que o ataque vivenciado pela população Araçatuba revela o real cenário da segurança pública no estado de São Paulo e alerta "iniciativas marqueteiras" que criam uma falsa sensação de segurança. "Segurança pública não é marketing,"

A associação, presidida pelo delegado Gustavo Mesquita Galvão Bueno, lembrou que Polícia Civil paulista acumula um déficit de 1/3 do efetivo, além de enfrentar problemas estruturais — como delegacias sucateadas e equipamentos velhos — e receber os piores salários do país.

"Esse ataque é uma demonstração clara de que o crime organizado continua operando de maneira muito forte em todo o estado de São Paulo. E isso acontece diante da falta de estrutura da Polícia Civil, instituição fundamental para investigar e combater as facções, identificando e prendendo seus líderes, bem como realizando o estrangulamento financeiro e econômico dessas organizações", finalizou o comunicado da Adpesp.

Já a delegada Raquel Kobashi Gallinati Lombardi, presidente do Sindpesp (Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo) afirmou que o ataque à agências bancárias em Araçatuba mostra que a política de segurança do governo paulista privilegia o marketing em detrimento a investimentos nas polícias e no combate efetivo ao crime.

"São Paulo está vulnerável aos cangaceiros, que invadem cidades e usam escudos humanos colocando o medo no coração de todos os paulistas", declarou a delegada de polícia nas redes sociais.

O que diz o governo de SP

O governador João Doria (PSDB) afirmou, nesta segunda-feira, que a polícia vai reagir após os ataques a agências bancárias em Araçatuba.

"As cenas de terror vivenciadas pela população de Araçatuba não ficarão impunes. Dois criminosos foram presos e um terceiro foi morto em confronto com a polícia. Há uma grande força-tarefa envolvendo 380 policiais e dois helicópteros Águia para prender e punir os responsáveis", escreveu nas redes sociais.

Polícia Federal se manifesta

Em nota, a Polícia Federal comunicou que, juntamente com as demais forças de segurança pública do estado de São Paulo, "está atuando ativamente na investigação do roubo ocorrido nas agências bancárias da cidade de Araçatuba e na busca dos criminosos, aguardando a conclusão dos trabalhos do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) na localização e desativação dos artefatos explosivos, a fim de que a normalidade seja restabelecida o mais breve possível à população local."

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