São Paulo Julgamento de réus por morte de família no ABC continua em outubro

Julgamento de réus por morte de família no ABC continua em outubro

Na segunda audiência do processo serão ouvidas outras quatro testemunhas, além dos cinco acusados de terem assassinado e carbonizado a família

  • São Paulo | Gabriel Croquer*, do R7

O julgamento dos cinco réus acusados de matar e queimar os corpos de três pessoas de uma família, em janeiro deste ano no ABC, na Grande São Paulo, terá a próxima audiência no dia 16 de outubro, quando quatro testemunhas — de defesa e acusação — serão ouvidas no processo.

A primeira sessão foi realizada na última terça-feira (22), na Vara do Júri de Santo André, cidade onde ocorreu o crime. Foram ouvidas cinco testemunhas da acusação e da defesa das rés Anaflávia Martins Gonçalves (filha do casal assassinado), Carina Ramos de Abreu (namorada de Anaflávia), e do réu Guilherme Ramos da Silva.

Além dos três, Juliano Oliveira Ramos Júnior e Jonathan Fagundes Ramos também estão presos e são acusados de terem participado nos assassinatos de Romuyuki Gonçalves, de 43 anos, a esposa dele, Flaviana Gonçalves, de 40, e o filho, Juan Gonçalves, de 15 anos.

A defesa de Ana Flávia e Carina afirma que ambas são inocentes e tenta provar que a autoria do homicídio foi de responsabilidade dos três homens. Segundo as acusadas, o combinado entre os envolvidos era assaltar a família, mas não matar. Já a defesa de Jhonatan e Juliano concluiu um documento em que solicita um acordo de delação premiada. 

A defesa de Guilherme também nega a participação dele nos assassinatos. Segundo o advogado Leonardo José Gomes, "se o plano fosse assassinato, ele teria ido junto no [Estrada do] Montanhão para ter certeza de outros corpos seriam queimados, se seriam queimados, como seria feito", diz.

Na audiência marcada para o próximo dia 16, os réus serão ouvidos mais uma vez. Caso a Justiça entenda que existe indícios suficientes de que os suspeitos realizaram o crime, o caso será encaminhado para júri popular. 

Pai, mãe e filho foram assassinados brutalmente em janeiro deste ano

Pai, mãe e filho foram assassinados brutalmente em janeiro deste ano

Reprodução/Record TV

O caso

Três corpos carbonizados foram encontrados dentro de um Jeep Compass em uma área de mata na Estrada do Montanhão, área de mata em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, na madrugada de 28 de janeiro. Quando as equipes da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros chegaram ao local, o veículo ainda estava pegando fogo.

Os corpos eram de Flaviana Gonçalves, de Romuyuki Gonçalves e do filho mais novo do casal, Juan Gonçalves.

A filha mais velha do casal, Ana Flávia Gonçalves, de 24 anos, e a mulher dela, Carina Ramos, de 31, tiveram prisão temporária de 30 dias decretada na noite de 29 de janeiro. A polícia justificou o pedido de prisão alegando contradições no depoimento do casal.

De acordo com a polícia, no primeiro depoimento as suspeitas mencionaram que a família tinha uma dívida com um agiota e que Flaviana teria saído de casa de madrugada para realizar o pagamento e depois seguiria para Minas Gerais. A presença do adolescente no carro, porém, fez a polícia desconfiar da versão.

A Polícia Civil já tinha como uma das linhas de apuração uma possível briga familiar. Os pais, segundo os investigadores, não aceitavam o relacionamento da filha com Carina.

Investigação

Na primeira visita da polícia à casa onde a família morava, em um condomínio de Santo André, os agentes encontraram o imóvel revirado, além de marcas de sangue pelos cômodos. Os investigadores consideraram estranho a residência estar nestas condições, pois não havia sinais de arrombamento. Do local foram roubados eletrodomésticos, cerca de R$ 8 mil dólares, joias e uma arma.

De acordo com a perícia, litros de água sanitária e manchas de sangue foram encontrados no quarto do adolescente. Também foram localizadas manchas de sangue em peças de roupa de Ana Flávia, a filha.

Uma testemunha que está sendo preservada contou aos policiais que ouviu barulhos estranhos vindos da casa das vítimas. Um laudo preliminar apontou que, antes de terem seus corpos carbonizados, as três vítimas morreram com pauladas na cabeça. Como todos os golpes foram do lado direito, a suspeita é de que o autor seja canhoto.

Um homem de cerca de 1,90 m de altura foi visto por uma testemunha junto com as duas suspeitas, na noite do crime, carregando algo pesado para o carro. O suspeito é um primo de Carina, o terceiro suspeito preso, no dia 4 de fevereiro. Em depoimento, segundo a polícia, ele confessou o crime, disse que ele a ação foi premeditada e que Ana Flávia autorizou o assassinato da família.

Segundo o depoimento do suspeito, a ideia do trio era roubar joias e dinheiro do cofre da casa. O pai e o adolescente estavam na residência, no condomínio de Santo André, com Ana Flávia e Carina quando três suspeitos chegaram e anunciaram o assalto.

Carina teria sido a primeira a ser rendida. Os homens exigiam valores. Como o cofre estava vazio e o dinheiro recebido por Romuyuki não estava na residência, houve uma conversa entre os suspeitos. Naquele momento, segundo a versão do suspeito, as duas autorizaram a morte de toda a família. 

Pai e filho foram levados para o quarto do adolescente. O suspeito revelou à polícia que os dois foram mortos asfixiados depois de apanhar e que Carina participou do sufocamento de Romuyuki com um saco plástico. Já a mãe, Flaviana, chegou à casa mais tarde e foi vendada.

Outros dois suspeitos pelo crime foram presos na tare de 4 de fevereiro. A polícia chegou a eles a partir do depoimento de Carina na segunda-feira (3). Um deles, no entanto, teve a prisão revogada pela polícia e foi libertado. Agora a polícia procura um novo suspeito, também primo de Carina e irmão do terceiro detido.

Câmeras

As suspeitas sobre a filha ganharam força depois de as imagens da câmera de segurança mostrarem que ela e a mulher estavam na casa na noite do crime. Por diversas vezes, as duas foram flagradas manobrando os carros da família. O carro de Ana Flávia e Carina também é visto entrando e saindo do local várias vezes. Em depoimento à polícia, Carina, que chegou às 20h ao local, alegou ter entrado por volta das 22h. Câmeras mostram que ela usava um casaco com capuz, mesmo fazendo calor, o que também gerou desconfiança da polícia.

Quando o veículo da família deixa o condomínio, por volta de 1h, o carro de Carina e Ana Flávia sai na frente. Duas horas depois, os corpos de Flaviana, Romuyuki e Juan são encontrados.

Segundo a polícia, ao serem questionadas para onde seguiram após deixarem o condomínio, cada uma das suspeitas disse que se dirigiram a lugar diferente. A polícia pediu a quebra do sigilo telefônico das duas mulheres para analisar sua troca de mensagens. Lucas Domingos, então advogado do casal, negou qualquer tipo de participação das duas com o crime e disse não ter certeza se havia contradições em seus depoimentos.

A polícia investiga as circunstâncias da morte de Flaviana, a mãe. De acordo o primo de Carina, ela não foi morta em casa. A polícia apura se Carina vestiu um uniforme da vítima, para se passar por ela, entrou no carro com Flaviana ainda viva e assumiu o volante. Tiros foram ouvidos antes de o carro ser abandonado em uma estrada de terra de São Bernardo do Campo. Na sequência, o veículo foi incendiado.

Imagens de câmeras de segurança do condomínio mostram o momento da saída do Jeep que, mais tarde, seria encontrado com os três mortos.

Família carbonizada: filha e namorada confessam participação no roubo

*Estagiário do R7, sob supervisão

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