São Paulo Longe de parentes, idosos de SP apostam na vida em comunidade

Longe de parentes, idosos de SP apostam na vida em comunidade

Capital paulista registra 1,6 milhão de pessoas a partir de 60 anos. Com 130 programas assistenciais, Prefeitura de SP atende apenas 14.752 idosos

Longe de parentes, idosos de São Paulo apostam na vida em comunidade

Dona Sônia mora há 30 anos em centros de acolhida de idosos da Prefeitura de SP

Dona Sônia mora há 30 anos em centros de acolhida de idosos da Prefeitura de SP

Edu Garcia / R7 / 04.09.2018

“O meu sonho é ter uma casa própria, morar com todos os meus amigos e estar bem comigo mesma. E quando eu tiver meu cantinho, a porta vai estar sempre aberta.” Esse é o desejo de Sônia Stefânia Niak, de 62 anos, que há três décadas mora em casas comunitárias da Prefeitura de São Paulo.

Assim como dona Sônia, outros 14.751 idosos compartilham quartos e centros de convivência em 130 espaços oferecidos pela prefeitura paulistana. Longe dos familiares, a população acima de 60 anos tem vivido cada vez mais junta para enfrentar os desafios da terceira idade.

Dona Sônia mora atualmente no Centro de Acolhida Especial Sítio das Alamedas, no Canindé, região central da capital paulista. Ela divide o quarto de aproximadamente 20 m² com mais duas senhoras — o cômodo conta com um banheiro e uma pequena lavanderia. “Eu tenho o meu cantinho. Isso já me deixa muito feliz”, diz.

A capital paulista tem 1,6 milhão de pessoas acima de 60 anos, segundo o estudo "Sabe" da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo). Esse número representa 12,8% de toda a população. Quase a metade dos idosos (49,4%) afirma ter a saúde muito boa, enquanto 44,1% avaliam a própria condição como regular e 6,5%, como ruim.

O dia-a-dia de Sônia é preenchido por atividades básicas, cumpridas sem grandes dificuldades. Felizmente, ela também está entre os 48,3% de idosos que conseguem fazer as atividades diárias sozinhos. Segundo o estudo, 16,2% não conseguem desempenhar uma ou mais atividades básicas, como tomar banho e alimentar-se sozinho, enquanto que 35,5% não conseguem realizar atividades instrumentais, como preparar alimentos ou utilizar transporte público. “Eu tomo ônibus, vou ao mercado, limpo o meu quarto, entre outras coisas. E faço sozinha”, conta.

Nascida em Monte Alegre, distrito de Telêmaco Borba, no Paraná, dona Sônia se mudou ainda adolescente com as duas irmãs para Porto Alegre (RS) após os pais morrerem. Uma delas continua na capital gaúcha, enquanto a outra se mudou para o Rio de Janeiro e ela veio para São Paulo. “Vim morar com uma tia aqui na cidade grande. Também não dei sorte”, diz, contando que a tia morreu "anos depois", deixando-a sozinha. Com 27 anos e no primeiro ano da graduação em direito, dona Sônia teve que deixar a universidade e ir atrás de emprego para tentar se virar na vida.

Trabalhou como revendedora de cosméticos, atendente, secretária, entre outros cargos, mas reconhece que não conseguia se sustentar sozinha. A solução, segundo ela, era procurar um abrigo da prefeitura. Desde então, reside em centros de acolhida, albergues e demais serviços públicos. “E por esse tempo eu fiz vários amigos”, conta. “Já vi uma amiga dar à luz”, conta sorrindo. “Foi uma das coisas mais lindas que eu já vi”, diz ela, sem filhos. “O abrigo é como uma mãe para mim. Eu praticamente não tive apoio na vida. Sempre foi tudo muito difícil. E aqui eu sou acolhida, sou abraçada”, afirma.

David possui 62 anos e enfrenta problemas como a diabetes e hipertensão

David possui 62 anos e enfrenta problemas como a diabetes e hipertensão

Edu Garcia / R7 / 04.09.2018

Doenças

Nascido na pacata cidade de Paramirim, na Bahia, David Silva de Aguiar mudou-se aos 14 anos para o Paraná, com a intenção de ter melhores condições de vida. Por lá, trabalhou na lavoura, casou-se e teve dois filhos.

Passados 18 anos, no entanto, a situação financeira não decolou. “Pegamos as coisas e nos mudamos para Jandira.”

No município da região metropolitana de São Paulo, David se estabeleceu com a família em uma casa simples, de dois quartos em uma região periférica. “Estava tudo dando certo, até que eu me separei da minha mulher por causa da bebida.”

A dificuldade de conseguir algum emprego era persistente, assim como um lugar fixo de moradia. “Não deu muito certo. Normal né?”, pergunta para a reportagem. “A vida dá dessas”, responde em seguida. “Mas aprendi. Tenho certeza.”

Vez ou outra, David arruma um bico como pedreiro em construções. E há pelo menos cinco anos depende dos centros de acolhida para a terceira idade. “Eu tenho um lugar para chamar de casa. Eu tenho um lugar para dormir. Parece simples, mas é tudo para mim”, afirma.

David divide o quarto de número 15 com outros dois idosos — o aposento foi nomeado pelo então prefeito da cidade Celso Pitta (1997-2001) como Manacá. O dia-a-dia é encarado de forma leve e saudável, mas, segundo ele, tem os seus momentos difíceis. “Eu tenho hipertensão, diabetes, artrose, bursite e outras coisas”, enumera. Infelizmente, ele entra na estatística do estudo da USP: 54,8% dos idodos relatam hipertensão e 24,6%, diabetes.

Sem ver os filhos há 25 anos, o velhinho relata que tem um projeto de vida. “Eu quero ver os dois um dia. Não quero pedir desculpa pelo que fiz porque isso já foi, é passado. Mas quero olhar agora e ver que estou bem. E quero ter a certeza de que estão bem também”, conta. “E, claro, sair daqui. Ir para o interior, ter uma casinha simples e viver bem.”

A gerente social do espaço, Teresa Cristina Evangelista, trabalha no local há 15 anos e conta que tem R$ 73 mil para garantir, mensalmente, o funcionamento do centro. Cerca de 60 idosos moram nos 20 quartos que o abrigo disponibiliza. 

Cerca de 60 idosos moram no Sítio das Alamedas, centro de acolhida em São Paulo

Cerca de 60 idosos moram no Sítio das Alamedas, centro de acolhida em São Paulo

Edu Garcia / R7 / 04.09.2018

Vila Conviver

Não é apenas nos serviços públicos da capital que a vida em comunidade vem se tornando tendência na terceira idade. Em Campinas, no interior paulista, professores estão se unindo para montar uma vila comunitária.

Docentes aposentados e prestes a deixar as salas de aula da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) se juntaram e, daqui a dois anos, irão inaugurar uma vila para morarem.

O projeto é baseado no co-living, conceito fundado nos anos 60 na Dinamarca, com a ideia de manter as moradias privadas e compartilhar espaços de convivência e atividades, como refeições e limpeza de ambientes, com o objetivo de estimular o relacionamento entre vizinhos.

A ideia de construir a Vila Conviver nasceu da vontade de não ir para uma casa de repouso ou mesmo morar com os filhos, segundo o coordenador do projeto e professor de engenharia de alimentos Bento da Costa Carvalho. “Queremos liberdade e autonomia.”

O projeto, ainda embrionário, foi apresentado para os demais docentes da universidade e já teve adesão de 44 professores. “São 40 casas de 100 m² e 4 de 50 m²”, exemplifica. Cada residente terá o próprio domicílio com o próprio banheiro. Para a convivência, uma residência de 600 m² equipada com cozinha, refeitório, sala de jantar, sala de TV e uma grande área para praticar exercício físico.

“A ideia é passar pelo menos oito horas nessa casa, tendo a convivência com o vizinho”, acrescenta. Ele conta que a residência tem o custo de R$ 400 mil mais uma taxa de condomínio, que irá cobrir portaria, segurança, manutenção do espaço, cozinheiro e afins.

O medo de ficar sozinho, quando velho, nunca passou pela cabeça de Bento. “Eu nunca parei para pensar sobre isso, mas sei que assola boa parte da população. No entanto, é natural. Um dia todos nós iremos morrer, mas enquanto esse dia não chega, vamos viver. E vamos viver em sociedade”, pondera.