São Paulo Marcado por maior repressão e violência, quarto dia de protesto tem mais de 240 detidos

Marcado por maior repressão e violência, quarto dia de protesto tem mais de 240 detidos

Os confrontos começaram ainda na concentração, na região do Teatro Municipal

Marcado por maior repressão e violência, quarto dia de protesto tem mais de 240 detidos 

Com maior registro de violência e repressão policial, o quarto protesto contra o aumento da tarifa do transporte coletivo em São Paulo acabou com pelo menos 241 detidos e diversos registros de jornalistas e manifestantes feridos nesta quinta-feira (13). Os confrontos começaram ainda na concentração, na região do Teatro Municipal, por volta das 17h.

Antes da caminhada, policiais isolaram os manifestantes e revistaram as mochilas — ocasião em que começaram as detenções. Jovens foram levados ao 78º DP (Jardins) por estarem carregando itens considerados suspeitos. Além disso, a PM impediu que o grupo começasse o protesto até que eles definissem e comunicassem qual seria o trajeto realizado. Teria sido, então, combinado — com três representantes do movimento — que os jovens sairiam do Teatro Municipal, passariam pela rua Barão de Itapetininga, avenida Ipiranga e chegariam até a praça Roosevelt.

Segundo a Polícia Civil, 202 detidos foram levados para o 78º DP. A Polícia Militar levou outros 36 manifestantes para o 1º Distrito Policial (Sé). Outras três pessoas detidas foram ouvidas no 4º DP (Consolação) e já foram liberadas.

Os confrontos mais violentos começaram por volta das 19h, na região da rua da Consolação, quando supostamente os manifestantes tentaram subir a via em direção à avenida Paulista. O major Lídio da Polícia Militar declarou que o descumprimento do acordo feito com o Movimento Passe Livre gerou o confronto.

— O movimento não cumpre palavra. Então, o que foi acertado é que eles viriam até a praça Roosevelt para fazer a manifestação aqui. Como eles não cumpriram o acordo, nós estamos recuando nossa linha [de bloqueio] para que depois a própria imprensa registre que eles não estão cumprindo o acordo.

Policiais militares jogaram bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo nos manifestantes, que revidaram tacando objetos. Além disso, os jovens colocaram fogo em lixo e picharam e depredaram ônibus.

Após os confrontos, os manifestantes começaram a se dispersar e alguns grupos conseguiram fechar ruas da região e, depois, chegaram à avenida Paulista.

Trânsito

Quando os manifestantes tomaram a rua da Consolação, muitos motoristas que estavam na pista sentido bairro foram obrigados a parar. Enquanto a negociação com a PM não evoluía, o grupo ficou ocupando as pistas. Preso no meio da multidão, o motorista Marcelo Izumi tentava chegar ao Hospital Sírio-Libanês, na região da avenida Paulista. Ele já estava aguardando havia meia hora e tentava cruzar para a pista sentido contrário, em busca de uma alternativa.

— Eu pego ônibus também, eu entendo [o protesto]. A gente tem que ter paciência. Só não concordo com a violência.

Detidos

O estudante de direito Arthur Cuzziol afirmou ter sido agredido por uma policial militar durante uma abordagem, na avenida Paulista. Ele foi levado à delegacia em seguida.

— A policial perguntou: “por que você está de cabeça erguida?” Aí eu falei: “estou de cabeça erguida porque não tenho motivo para baixar a cabeça”. No que passamos na calçada, no escuro, levei uma borrachada [golpe de cassetete] na barriga. Aí ela falou, “agora você baixou a cabeça”. E aí me trouxeram para cá [78º DP].

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Ele também garantiu que não estava carregando nada ilegal ou que fosse motivo para ser detido.

— A alegação era que tinha coisa na minha mala. Tinha um spray na mala, que não é meu, é de um rapaz que tinha sido enquadrado na minha frente.

Um estudante de 16 anos disse que policiais o detiveram, na região da avenida Paulista, e teriam colocado duas pedras na mochila dele para poder levá-lo à delegacia.

— Eles jogaram bombas de gás em três locais, impedindo que eu pudesse sair por qualquer um deles e pegaram um monte de gente que estava lá. Quando foram ver a minha mochila, não me deixavam ver o que eles estavam fazendo, só senti que estava mais pesada depois, quando peguei aqui na delegacia. Tinham duas pedras dentro, mas não fui eu que coloquei.


Abuso

O vereador Ricardo Young (PPS) esteve no 78º DP acompanhando o registro dos boletins de ocorrência. Ao sair do local, o vereador criticou a ação da PM durante o protesto.

— O processo de detenção foi um pouco violento. Houve um certo abuso do uso do gás lacrimogêneo. Cercaram um grupo de meninas que foram muito pressionadas, passaram mal com o gás e mesmo assim a polícia não cedeu.

Ainda segundo Young, não havia relato de violência física até o momento.  

— Houve uma pressão forte, uma dissuasão psicológica e moral muito forte. Eu acho absolutamente desigual o aparato [usado pela PM] para a natureza da manifestação. Isso não significa que o vandalismo não deva ser reprimido. Deve ser, mas a polícia tem condições de identificar [os vândalos] aqui no DP.


Jornalistas detidos e feridos

Profissionais de imprensa ficaram feridos e alguns foram detidos durante a cobertura do protesto. A repórter da TV Folha Giuliana Vallone foi atingida no olho por uma bala de borracha. Ela estava na rua Augusta quando foi ferida. De acordo com a Folha de São Paulo, o repórter fotográfico Fábio Braga também foi atingido por dois disparos, sendo um no rosto e outro na virilha.

O repórter Piero Locatelli, da revista CartaCapital, e o fotógrafo do Terra Fernando Borges foram detidos nesta quinta-feira. Locatelli foi liberado após algumas horas e Borges passou 40 minutos detido junto com manifestantes. 

O secretário da Segurança Pública, Fernando Grella, determinou que a Corregedoria da Polícia Militar apure os episódios envolvendo fotógrafos e cinegrafistas durante a manifestação.
 

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