Mesmo com mais de 600 mil árvores, SP ainda sofre com falta de verde

Botânico estima que cerca de 90% das árvores na cidade são estrangeiras. Prefeitura deve lançar até o início de outubro relatório sobre o tema

Aliadas e vilãs: ambientalistas defendem necessidade e moradores reclamam

Aliadas e vilãs: ambientalistas defendem necessidade e moradores reclamam

Ricardo Bastos/Fotoarena/Estadão Conteúdo

A cidade de São Paulo possui 652 mil árvores em praças, calçadas e canteiros centrais, segundo dados da SVMA (Secretaria do Verde e Meio Ambiente), que desconsiderou as árvores dentro de parques municipais. O número pode parecer alto, mas ambientalistas afirmam que ainda é pouco perto do número de árvores que adoecem e caem na capital. Não é à toa que o quesito "árvores" é um dos mais reclamados no canal 156 e na Ouvidoria Geral do Município

A distribuição regional aponta a região sul como líder de cobertura com 32% das árvores da cidade, seguida pela região leste (27%), oeste (19%), norte (18%) e o centro da cidade (4%). Ainda de acordo com dados da Prefeitura de São Paulo, 77.168 árvores foram plantadas na cidade do início de 2017 até o mês de julho de 2019.

No dia da Árvore, 21 de setembro, a reportagem do R7 conversou com especialistas e ativistas da área para entender as principais questões relacionadas ao verde na maior cidade do país.

Falta de árvores

Antes da alteração do plano de metas em abril deste ano, a gestão municipal tinha como objetivo o plantio de 200 mil árvores na cidade — na época em que João Doria (PSDB) era prefeito da cidade. Com a alteração da meta, a cidade terá cerca de 95.741 árvores a menos, caso sejam cumpridos os novos objetivos.

"Isso é totalmente insuficiente. É um número muito pequeno perante o tamanho da cidade de São Paulo, e a necessidade de reposição das árvores que caem, adoecem e morrem", afirmou Ricardo Cardim, botânico, que ainda defendeu que a cidade necessita de um "inventário de árvores", pontuando a falta da informação e iniciativa dos governos municipais na catalogação das espécies dentro da cidade.

Danilo Bifone, fundador do Muda Mooca, grupo que há 20 anos planta árvores voluntariamente nas calçadas da cidade, também criticou a quantidade: "Está muito longe do necessário". 

Em nota, a prefeitura afirmou que a readequação da meta foi necessária "em decorrência de mudanças nos cenários político, orçamentário, financeiro ou administrativo".

A prefeitura também confirmou que está prestes a terminar o Mapeamento Digital da Cobertura Vegetal, que será divulgado até o início de outubro. O relatório, sob responsabilidade da SVMA, utiliza "imagens infravermelho de alta resolução espacial para identificação da vegetação mesmo em áreas sombreadas".

A peça auxiliará na definição de cenários de enfrentamento às Mudanças Climáticas, além de apoiar a elaboração de outros dois planos da gestão: PLANPAVEL (Plano Municipal de Áreas Protegidas, Áreas Verdes e Espaços Livres e o Plano Municipal de Conservação) e PMSA (Recuperação de Áreas Prestadoras de Serviços Ambientais).

Maioria absoluta de árvores estrangeiras

O botânico Ricardo Cardim estimou que "90% das árvores da cidade são estrangeiras". O especialista citou alguns prejuízos da presença destas árvores fora de seu habitat natural na cidade, entre eles o possível aumento de quedas de troncos, o baixo aproveitamento dos serviços ambientais e a diminuição da biodiversidade local. 

"São Paulo era um local com extrema biodiversidade com a Mata Atlântica, Cerrado, Florestas de Araucárias e existe toda uma fauna de pássaros e bichos que dependem desta vegetação porque evoluíram com ela. A partir do momento que eu tiro as plantas nativas, extermino estes bichos e também desconecto a população de conhecer a sua vegetação, que é uma das mais ricas do mundo", afirmou o especialista.

Cerejeiras japonesas impressionam no Parque do Carmo, zona leste

Cerejeiras japonesas impressionam no Parque do Carmo, zona leste

Valdir De Oliveira/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Entre os serviços ambientais que estariam sendo prejudicados devido à esta característica da vegetação na cidade de São Paulo, estariam a polinização e o abrigo de aves exterminadoras de pragas (como baratas), além de um consumo menor de água.

Danilo Bifone destacou a Tipuana tipu, uma das espécies estrangeiras mais distribuídas pela cidade: "É uma árvore muito suscetível a cupins, e não tem nenhuma defesa para esta praga, porque esta praga não existe no país de origem dela. E, principalmente, é uma árvore com a longevidade muito curta, que dura somente 70 anos. Como todas as espécies foram plantadas na década de 50, em qualquer chuva, a grande maioria de árvores caídas é desta espécie, porque já estão muito velhas".

Já Marcos Buckeridge, professor de Fisiologia Vegetal do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da USP, elogiou o uso da espécie. "A Tipuana é uma árvore excelente para a urbanização, usada na maioria das cidades brasileiras, em Buenos Aires, Europa e outros lugares", disse.

Ele concordou em relação ao excesso de árvores estrangeiras na cidade, mas afirmou que é necessário um grau de controle das árvores para garantir previsibilidade na gestão do espaço público. "Não adianta colocar muitas espécies nativas, com uma variedade enorme, e ficar ainda mais perdido", completou.

Problemas com a rede elétrica 

As árvores em São Paulo também são campeãs de reclamações da população, em relação à manutenção dos troncos. Ao todo, são 42,6 mil árvores perto da rede elétrica que precisam de poda.

A solicitação de serviços relacionados à poda também liderou as reclamações na cidade no ano passado, com o total de 3.420 demandas de moradores. Em 2019, já são 1.850 pedidos nos dois primeiros trimestres do ano.  

"Muitos moradores não gostam de árvores. O sujeito não quer receber a árvore na sua calçada, argumetando que vai sofrer com alguns dissabores, que folhas vão cair no seu quintal", opinou Danilo Bifone, sobre os conflitos gerados por troncos, cidadãos e a infraestrutura da cidade. 

Na visão do fundador do Muda Mooca, a gestão municipal deixa a desejar em um aspecto relacionado à questão, por só plantar árvores de acordo com o consentimento dos cidadãos. "É independente do aval do munícipe, porque precisamos de árvores para a sociedade. A calçada é um espaço público." 

Nos casos de necessidade da poda de árvores, em que os galhos estão em contato com a rede elétrica, cabe à concessionária Enel realizar o serviço, que deve incluir a interrupção da rede de energia, remoção imediata dos resíduos gerados e preservação da saúde, equilíbrio e estabilidade das árvores.

Segundo dados da própria empresa, em 2019 já foram realizadas 9.800 podas solicitadas pela prefeitura e outras 72.065 podas preventivas em árvores da cidade de São Paulo. Outras 2.000 podas serão realizadas no município, atendendo aos ofícios recebidos, de acordo com a empresa.

*Estagiário do R7, sob supervisão de Ingrid Alfaya