São Paulo "Meu filho não atirou em ninguém", diz mãe de baleado pela polícia

"Meu filho não atirou em ninguém", diz mãe de baleado pela polícia

Jovem foi atingido na cabeça no centro de São Paulo na última sexta (8)

"Meu filho não atirou em ninguém", diz mãe de baleado pela polícia

Veículo de Benassi com perfurações de arma de fogo

Veículo de Benassi com perfurações de arma de fogo

Reprodução

Grávida de seis meses, Renata Benassi, 40, aguardava por uma ultrassonografia na Santa Casa de Misericórdia, na Vila Buarque (região central de São Paulo), na sexta-feira (8), quando recebeu a notícia de que seu filho mais velho, Ricardo Benassi, 21, tinha sido baleado na cabeça.

O rapaz, atingido por um policial na avenida São Luís, também no centro, passava por uma cirurgia no mesmo local em que a mãe aguardava por exames gestacionais.

“Eu não fui comunicada pela polícia. O ocorrido aconteceu de madrugada, e eu só fui informada na manhã seguinte pelo hospital”, diz Renata.

O jovem — que vendia sanduíche natural na porta de uma faculdade na zona sul de segunda a sexta e no sábado trabalhava como auxiliar administrativo em um estacionamento — foi acusado por formação de quadrilha, resistência à prisão e receptação de um automóvel. Ele foi detido com mais um jovem de 24 anos, que foi preso. 

“Meu filho não atirou em ninguém”, afirma Renata. A mãe do jovem diz que, em uma das poucas vezes que conseguiu falar com Benassi desde que foi baleado, ele afirmou que não tinha nenhuma arma dentro do carro e que não teria atirado contra os policiais. “Ele me disse que forjaram [o crime].”

Segundo o boletim de ocorrência, registrado pela 2ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Crimes contra o Patrimônio do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), o veículo ocupado por Benassi teria, na fuga, parado na rua da Consolação e o “motorista desembarcou efetuando disparos de arma de fogo contra os policiais civis.”

O documento afirma ainda que, “em revista ao veículo, foi localizado em seu interior uma pistola .40 pertencente à Polícia Civil e dois celulares”.

No boletim de ocorrência está registrado ainda que os disparos contra o veículo em que estava Benassi foram feitos tanto por policiais civis quanto militares. O documento enfatiza ainda que os dois jovens detidos já tinham passagem pela polícia. 

A mãe afirma que o veículo que a polícia alega que é roubado na verdade é do rapaz baleado. Renata apresenta um comprovante, registrado em cartório, de que o carro, um Hyundai i30, está registrado em nome de Ricardo Benassi desde o dia 13 de novembro de 2017. O jovem, segundo Renata, não tinha habilitação para dirigir. 

Por fotos, é possível notar pelo menos 10 perfurações de armas de fogo no veículo. Uma na parte de trás, seis na lateral do passageiro, três na parte da frente — sendo duas no vidro — e uma na porta do motorista, provavelmente o disparo que acertou Benassi. “Ele me explicou que tomou o tiro quando abaixou. O tiro que acertou a cabeça dele atravessou a porta”, afirma Diego Silva, padastro do jovem.

Segundo familiares, a bala de pistola .40 entrou na cabeça de Benassi pelo lado esquerdo e saiu pelo lado direito do crânio. O laudo emitido nesta quarta-feira (13) pelo serviço de neurocirurgia da Santa Casa de Misericórdia afirma que o jovem "foi submetido a tratamento neurocirúrgico e segue estável hemodinamicamente, sem déficits sensitivos ou motores objetivos". "Não há, no momento, data definida para alta hospitalar", completa o documento.

Perfuração que provavelmente atingiu Ricardo Benassi

Perfuração que provavelmente atingiu Ricardo Benassi

Reprodução

A SSP (Secretaria Estadual da Segurança Pública) foi procurada pela reportagem às 22h13 da terça-feira (12) com o prazo para resposta até às 16h desta quarta-feira (13). A pasta respondeu às 21h04 desta quarta-feira (13). 

Em nota, a SSP afirma que "os policiais do Deic tiveram que revidar disparos de arma de fogo no momento que abordaram dois veículos que andavam emparelhados, com os ocupantes conversando. Um desses veículos era o i30 onde estava Ricardo Benassi. Após a troca de tiros, no veículo, foi apreendida uma arma de fogo."

A pasta acrescenta ainda que "há envolvimento dos dois ocupantes do carro com os criminosos presos na região da rua 25 de Março no mesmo dia, assim como com um roubo no centro no dia anterior e com vários roubos a residências que estão sendo investigados. No momento, não podem ser fornecidos mais detalhes para não atrapalhar as investigações e a identificação e prisão dos demais comparsas."

Questionada sobre onde a arma atribuída a Benassi foi encontrada, sobre a possibilidade de um erro por parte dos policiais que estavam na ocorrência e se o caso será investigado pela corregedoria, a SSP não deu explicações. 

Perguntada também se o caso tem ligação com os roubos a residências ocorridos em setembro, quando 10 suspeitos foram baleados e mortos, a SSP não foi precisa na resposta. 

Intimidação

Renata Benassi afirma que foi intimidada por policiais do Deic no hospital, que a pressionaram por ter procurado a reportagem do R7. “Eles falaram para o meu advogado que já sabiam que eu tinha procurado a Record e que eu tinha ido fazer escândalo na porta da delegacia”, relata.

Sobre tal afirmação, a SSP afirma que "os advogados que representam Ricardo estiveram na unidade policial para acessar os autos, mas não há conhecimento de qualquer conversa entre eles e os policiais que lá estavam."

A pasta ainda acrescenta que "qualquer pessoa que se sentir ameaçada ou ofendida por um policial civil, pode procurar a Corregedoria para registrar o ocorrido e a apuração dos fatos."

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