Mexeu com uma, mexeu com todas

Repórter do R7 foi vítima de abuso dentro de um vagão do Metrô de São Paulo

  • São Paulo | Caroline Apple, do R7

Mulheres são abusadas no transporte público diariamente

Mulheres são abusadas no transporte público diariamente

Lena Diaz/ Fotos Públicas

Pode parecer injusto com as milhares de pessoas que se solidarizaram comigo depois que um homem ejaculou na minha calça nesta quarta-feira (27) dentro do Metrô, mas nunca vi tanta vantagem de falar para quem pensa como eu. Então, a essas pessoas, fica o meu muito obrigada. As palavras que seguem são para quem insiste em culpar as vítimas de abuso.

Não ler os comentários na internet sobre uma matéria é quase uma forma de manter a saúde mental, mas eu sempre leio. Como repórter procuro saber a opinião dos internautas justamente para descobrir como atingi-los. Mas também é lá que está o chorume das redes.

Sofri um abuso pelas costas, em 30 segundos, em um vagão do Metrô lotado, e tem gente perguntando como eu não vi. Tem gente que acha que torci para ejacularem na minha calça para me promover. Há também aqueles que duvidam que aquilo era mesmo esperma. Não vou responder questão por questão, vou é pedir respeito e empatia pelo o que eu passei e outras milhares de mulheres já passaram e podem estar passando neste momento.

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Se não aconteceu com você, pergunte para a mulher que está ao seu lado agora se ela já sofreu abuso no Metrô. Se ela disser não, no mínimo estará a um aperto de mão de uma mulher que passou por isso. Culpar a vítima é nocivo, não só para o psicológico de quem passa por essa situação, mas para toda a sociedade, que acaba desencorajando exatamente aquilo que poderia mudar esse cenário: a denúncia.

Vivemos em uma sociedade em que para falar a verdade é preciso ter coragem e para mentir não. Esses valores corrompidos fazem com que, em vez de acolhermos as vítimas, passemos a interrogá-las como se o assédio fosse opcional.

A minha calça ejaculada eu passei água na hora, por nojo, porque ainda andaria com ela algumas quadras e não queria os fluídos daquele homem tocando a minha pele. Destruí uma prova importante, mas não tenha dúvida que se o atendimento do Metrô tivesse me orientado a guardar a peça, ter chamado a polícia e feito o certo desde o início, eu teria preservado a calça. A vítima não pode pagar pela sucessão de absurdos cometidos pelos abusadores e seus corresponsáveis.

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Hoje tenho imagens para comprovar o que passei, mas muitas mulheres são atacadas em becos, passarelas e lugares que ninguém vê. É um dever escutarmos e acreditarmos no que elas dizem.

Está na hora de apontarmos o dedo para os verdadeiros culpados. Agradeço ao Metrô e ao Governo do Estado pela solidariedade e empenho. Agora eu quero ver essa energia ser dispensada em todos os casos de abusos e que os funcionários sejam orientados, cobrados e supervisionados.

E para você, mulher que sofreu um abuso, denuncie e cobre seus direitos como vítima de ter um atendimento digno. E não se esqueça: mexeu com uma, mexeu com todas.

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