São Paulo Na abertura da Copa, bairros da zona leste vivem clima de guerra durante protestos

Na abertura da Copa, bairros da zona leste vivem clima de guerra durante protestos

PM chegou a usar bombas de gás lacrimogêneo dentro de uma estação de metrô e trem

  • São Paulo | Fernando Mellis, do R7

Os fogos de artifício que costumam ser ouvidos antes dos jogos da seleção brasileira deram lugar ao som de bombas disparadas pela Polícia Militar em alguns bairros da zona leste de São Paulo nesta quinta-feira (12), na abertura da Copa do Mundo. Protestos iniciados na região do metrô Carrão terminaram em confusão e confronto com a Polícia Militar, que agiu com violência ao tentar impedir que manifestantes fechassem, desde o fim da manhã desta quinta-feira, a Radial Leste, um dos principais acessos à Arena Corinthians, estádio da abertura do Mundial. O clima de guerra tomou conta da região pelo menos até as 16h, quando comboios de viaturas e até um veículo blindado ainda faziam varreduras em várias ruas.

E não foram apenas os moradores que sofreram com os protestos. Poucos minutos após uma aparição ao vivo falando sobre a manifestação, Shasta Darlington, correspondente da rede de TV americana CNN, entrou para a lista de feridos. Ela teve uma lesão no pulso. Na mesma confusão, a produtora da emissora, Barbara Arvanitidis, teve um corte no braço, provocado possivelmente por estilhaços de bombas. O auxiliar-técnico do SBT Douglas Barbieri também ficou ferido na sobrancelha. Todos eles passaram por hospitais durante a tarde e estão bem. Ao menos dez pessoas se machucaram.

Na confusão, um professor de 29 anos foi detido, segundo o defensor público Giancarlo Vay. O boletim de ocorrência de natureza não criminal, registrado no 52º Distrito Policial (Parque São Jorge), afirma que ele foi detido porque "encontrava-se à frente de uma multidão de populares, gritando palavras de ordem contra a operação". No entanto, a PM divulgou outros dados. De acordo com a corporação, dois manifestantes foram presos por danos ao patrimônio e por estar portando coquetel molotov. A dupla também foi encaminhada para a mesma delegacia.

Logo após a PM dispersar o grupo na estação Carrão, que chegou a ser fechada por precaução, muitos manifestantes caminharam cerca de cinco quadras até a rua Serra de Japi, onde acontecia um ato dos metroviários, frente ao sindicato da categoria. Por volta do meio-dia, integrantes do Black Bloc começaram a se concentrar na esquina dessa via com a rua Platina.

Policiais militares, inclusive a Tropa de Choque, cercaram a multidão, de aproximadamente 600 pessoas. Ao perceberem a ação, alguns manifestantes começaram a hostilizar os PMs e jogar objetos e pedras neles. A reação dos agentes foi com bombas de efeito moral, de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Depois desse momento, a situação só piorou. Um jornalista argentino foi ferido na perna por estilhaços e medicado por ativistas.

Os manifestantes conseguiram fechar a Radial Leste por alguns minutos. O Choque avançou com bombas de gás em meio ao trânsito, na altura da avenida Salim Farah Maluf. Uma motociclista que ficou parada na confusão desmaiou com o efeito do gás e foi socorrida por fotógrafos. Nenhum dos policiais que estavam no local ajudou a mulher naquele momento.

A professora Viviane Bento não conseguiu pegar o metrô

A professora Viviane Bento não conseguiu pegar o metrô

Fernando Mellis

Estação Tatuapé

Logo depois, o protesto foi parar dentro da estação Tatuapé, onde é possível embarcar nos trens da CPTM e no metrô para chegar ao estádio. O movimento naquele horário era intenso, já que a estação fica em meio a dois shoppings. Os portões foram fechados às pressas e quem tentava chegar em casa ficou perdido, como foi o caso da vendedora Hilkennia Santos Miranda, que estava com duas crianças pequenas e ia para Diadema, na Grande São Paulo.

Antes de tirar a camisa do Brasil que vestia e pisar em cima, na frente dos policiais que bloqueavam o acesso às catracas, a vendedora desabafou.

— A gente quer torcer para o Brasil, mas desse jeito? Eu tenho até vergonha.

Com lágrimas nos olhos, a professora Viviane Bento segurava a mão do filho de seis anos, visivelmente assustado com os policiais que passavam batendo o cassetete nos escudos. Ela também tentava chegar em casa, na Barra Funda, mas foi impedida de utilizar o metrô.

— O policial disse que eu não posso [entrar] porque estou no meio da bagunça. O que me impede de ter o direito de ir e vir? Eu quero ir para a minha casa e eu não posso. Eu acho certo manifestação. O que não pode é fazer isso que eles [policiais] estão fazendo.

Metrô fecha estações após protestos na zona leste

Jornalistas da CNN ficam feridas em protesto contra Copa

Para dispersar o grupo que estava na estação, novamente a PM jogou duas bombas de gás lacrimogêneo. Quem passava pelo local precisou correr e algumas se sentiram mal.

A PM ainda chegou a usar bombas de gás outras vezes em ruas próximas, mas aos poucos o protesto foi perdendo força. Por onde os policiais passavam, moradores que não arriscaram abrir os portões se queixavam dos efeitos da munição, que provoca ardência, principalmente, nos olhos e garganta.

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