Não é apologia, é a real: o proibidão segue firme no baile funk de favela

MCs acreditam que as músicas, também conhecidas como 'funk consciente', são compreendidas apenas por quem vive a realidade das periferias e favelas

MC Dinho da VP diz que o proibidão está 'vivão'

MC Dinho da VP diz que o proibidão está 'vivão'

Divulgação/Arquivo pessoal

Longe dos holofotes e dos cenários milionários da ostentação, o funk proibidão segue firme ditando o ritmo dos bailes nas favelas e periferias Brasil afora.

Boa parte desse subgênero é produzido na Baixada Santista, considerado o berço do estilo no Estado de São Paulo.

Em bailes que fecham as ruas e reúnem multidões, principalmente nas periferias da capital e litoral paulista, os microfones estão nas mãos de MCs que raramente batem milhões de visualizações no YouTube, mas fazem o público jogar o dedo para o ar.

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As músicas relatam histórias de crimes, descrevem assaltos de grande repercussão e citam nomes de facção e criminosos conhecidos. E esses sons dificilmente chegam aos ouvidos de quem não frequenta os famosos "bailes de favela".

"Falamos a realidade das favelas e periferias. O funk é consciente, mas para a alta sociedade se torna um funk proibidão. A sociedade associa assim, infelizmente. Somos um funk renegado e nosso som só é aceito dentro das periferias", diz MC Danilo Boladão, 40 anos.

As letras seguem uma linha tênue entre a liberdade de expressão e o crime de apologia. Para a advogada Cindia Regina Moraca, presidente da Comissão de Direito das Artes da OAB-SP, a arte dos MCs quando relata fatos conhecidos não pode ser tratada como crime.

É diferente, segundo ela, se as músicas estimulassem a morte de alguém ou narrassem algo que viesse a acontecer posteriormente, por exemplo. Nestes casos, os cantores poderiam responder por apologia ao crime.

Duas décadas de subversividade

O funk proibidão está presente no Estado de São Paulo desde o final dos anos 1990, quando cantores da Baixada Santista tinham como referências os rappers de São Paulo e o funk do Rio de Janeiro.

Em meados dos anos 2000, o subgênero teve um pico e começou a ganhar espaço em casas de shows da capital e do litoral. As músicas muitas vezes relatavam supostos confrontos com policiais e divulgavam ações criminosas do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Entre 2010 e 2012, quatro MCs e um DJ expoentes do funk proibidão na Baixada Santista foram assassinados a tiros. Os crimes contra Felipe Boladão, Duda do Marapé, Primo, Careca e DJ Felipe nunca foram esclarecidos e ninguém foi preso.

Depois dos homicídios, o estilo perdeu força e, em contrapartida, o funk ostentação ganhou espaço nos bailes, principalmente na capital paulista. "Hoje o funk está profissional e muito mais valorizado do que antigamente", diz MC Amaral, 32 anos.

O termo proibidão também passou a ser contestado, por ser mal visto entre o público geral. MC Amaral afirma que prefere que o subgênero seja chamado de "consciente", porque as letras apenas "narram fatos muitas vezes reais, outras vezes fictícios, como em um filme de ação qualquer".

A ideia é reforçada pelo MC Ratinho, 35 anos, que diz que nunca gostou do rótulo proibidão. Segundo ele, a "arte reflete a vida", portanto, essa vertente do funk "nada mais é do que a realidade em música".

Outros cantores não veem problema na forma de como chamar o estilo — proibidão ou consciente. Como é o caso do MC Dinho da VP, 40 anos, que acredita que "o funk proibidão está vivão".

Dinho da VP afirma que "no barraco da favela, no carro e no celular 'quem tá é nós', porque é melhor escutar um funk proibidão que fala a verdade".

A arte que muda vida

Atualmente nas perifeiras de São Paulo, é comum encontrar jovens que dividem o sonho entre ser jogador de futebol ou cantor de funk, como Kauan dos Carmos Santos, 15 anos.

O menino, que mora da periferia da zona sul de São Paulo, sonhou em ser MC por "amar o funk consciente, querer passar uma visão [da realidade das perifeiras] e ganhar a grana também". Mas a vergonha o afastou da música e, agora, segue firme querendo se tornar jogador de futebol.

O sonho de cantar funk não é um fenômeno recente, muito menos exclusivo dos adolescentes em procura de formas de ganhar a vida. Em 1995, Ânderson de Souza se dividia entre o emprego de gari da Prefeitura de Santos e as apresentações em bailes como MC Dinho da VP.

"Comecei a cantar porque amava música Miami Funk e rap, e queria fazer algo parecido, ser criador de algo do zero. Acho isso da hora. Também queria dar uma condição melhor para minha família", lembra Dinho da VP.

Na mesma época, o então menino Denis Willian Santos, que depois passou a ser conhecido como MC Ratinho, começava a cantar funk na mesma cidade. Quatro anos depois, em 1999, com 15 anos, formou a dupla Cláudio e Ratinho.

Junto com outras duplas, como Danilo e Fabinho, Cláudio e Ratinho faziam parte da linha de frente do funk no Estado de São Paulo, presente sobretudo na Baixada Santista.

"Queríamos expressar o que vivemos e o que sentimos, e tínhamos o prazer de ver a galera curtindo, cantando junto e se identificando com nosso trabalho", lembra Ratinho sobre o lançamento do primeiro CD.

O sucesso abriu espaço para outros MCs se apresentarem nas casas de shows que tocavam funk no litoral paulista. Como na época se tinha poucos lugares para apresentação e muitos jovens das periferias querendo cantar, os artistas recorriam à formação de duplas e tentavam levar amigos para participações.

Não demorou muito para o estilo subir a serra e também ocupar palcos em casas de shows em São Paulo. No final dos anos 2000, MC Amaral, que fazia dupla com Chiquinho, foi um dos principais nomes da integração do funk do litoral com a capital.

Foi nessa inserção de funkeiros da baixada nos bailes de São Paulo que John Kenedy Alves Silva, o MC Keké, 28 anos, viu o sonho de virar cantor se tornar realidade. "Eu não sabia fazer mais nada além de rimar na hora, e o Chiquinho e Amaral me levaram para São Paulo para eu nunca mais sair do funk", diz Keké. 

MC Keké em baile de rua

MC Keké em baile de rua

Divulgação/Arquivo pessoal

Respeita o comando

O espaço nas casas de shows não precisaram, em um primeiro momento, suavizar os sons pesados produzidos na baixada. E mesmo depois, com o forçamento de adaptação das músicas, o proibidão nunca foi extinto.

Em uma das músicas mais recentes, Dinho da VP começa dizendo "respeita o comando, tem mais de mil fuzis, 1533 é a maior do Brasil". A letra conta uma história da perspectiva da facção criminosa Primeiro Comando da Capital.

O nome da música, "Mandelão do 1533", faz referência a um baile funk de rua e à facção — o quinze representa a 15ª letra do alfabeto (P) e o três repetido significa duas vezes a terceira letra (C).

Mas foi sua música de maior sucesso, chamada "O Patrão Mandou Avisar", que o levou para prestar esclarecimentos na Polícia Civil.

"É engraçado, porque se for para censurar, tinha que censurar também os filmes que ensinam a matar, a usar um fuzil, e também as novelas que ensinam traição e sexo", diz o Dinho da VP.

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Em outro funk consciente, MC Amaral explica, na música "Explodindo o Pensamento", o que é o proibidão: "Não é apologia, é a real mandada em som".

Além de citar nomes dos quatro MCs da Baixada Santista mortos a tiros, Amaral leva em sua música um protesto contra violência cometida com jovens pobres: "Quanto menor inocente alvejado no beco por ser confundido. O fato de ser favelado nos deixa marcado e nos torna bandido", diz a música.

Apesar da subversividade, MC Keké afirma que os funkeiros conseguem sobreviver tranquilamente com a música e não enfrentam grandes problemas. "Não existe nenhum tipo de perseguição, porque apresentamos nossa arte e esse é nosso trabalho".