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São Paulo "Não saio sem achar todos", diz mãe que teve corpo de filho identificado

"Não saio sem achar todos", diz mãe que teve corpo de filho identificado

Paulistana que buscava por cinco familiares hospedados em pousada atingida pela lama, em Brumadinho, diz: "não tenho mais o que fazer em casa"

Luiz foi reconhecido e Fernanda, grávida de 5 meses, segue desaparecida

Luiz foi reconhecido e Fernanda, grávida de 5 meses, segue desaparecida

Reprodução Facebook

O corpo cansado e a mente fadigada anunciavam o fim do quarto dia de busca pelos filhos e membros da família da economista Helena Taliberti, de 61 anos. Às 20h30 da terça-feira (29), porém, o silêncio que toma conta das instalações onde estão os parentes de desaparecidos na tragédia de Brumadinho foi quebrado por uma ligação. Por telefone, o IML (Instituto Médico Legal) pedia para que alguém da família de Luiz Taliberti fizesse o reconhecimento do corpo.

Após quatro dias de cobranças e buscas intensas por meios próprios por qualquer informação sobre os cinco membros da família que passavam férias em Brumadinho, cidade atingida pelo rompimento de uma barragem de mineração da Vale na sexta-feira (25), Helena recebeu a notícia que menos gostaria de obter: o possível corpo de seu filho Luiz fora encontrado. Na mesma noite, o marido de Helena, Wagner Diniz, foi até o instituto, para onde estão sendo levados todos os corpos encontrados após a tragédia, para identificação.

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O corpo destruído, segundo Helena, escancarava o sofrimento e o drama de pessoas arrastadas quilômetros de distância pela força da lama. Desde a terça-feira (29), o Corpo de Bombeiros concentra a busca na localização de vítimas no entorno da pousada Nova Estância, que desapareceu com a ruptura da barragem. “A vida está um turbilhão”, afirma Helena. “Em pensar que eu ainda tive o privilégio de ir atrás de ajuda, de advogados e pessoas que me auxiliaram a dar mais agilidade às buscas”, diz a economista. “Imagina as tantas pessoas mais humildes que perderam tudo e não tem a quem recorrer aqui.”

Luiz, de 31 anos, havia escolhido a Austrália para viver e exercer a profissão de arquiteto. Era noivo de Fernanda Damian, que estava grávida de cinco meses. "Ele estava radiante com a chegada de Lorenzo", conta Diniz. O casal, a irmã de Luiz, o pai e a madrasta estavam ansiosos para conhecer Inhotim e aproveitar o período de férias. Mas a sirene da Vale, como escreveu Diniz, não tocou. Segundo ele, a gerente da pousada chegou a dizer que estavam todos preparados para emergência com rotas de fuga. Em caso de acidentes iminentes, todos os hóspedes estariam seguros em questão de minutos.

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Mas a sirene não tocou e arrastou toda a família pelos rejeitos. "A Vale matou meu filho", desabafou Diniz. Helena e o marido estão a caminho do IML para registrar um pedido judicial para a cremar do corpo. Para a paulistana, é inviável voltar a São Paulo nesse momento. Ela ainda tem pendências a resolver em Brumadinho. “Não saio daqui sem encontrar todos”, afirma. “Até porque não tenho mais o que fazer em casa. Não vou chegar e olhar minha cama cheia de presentes do Luiz. Como vou olhar para os presentes que comprei para o meu neto. O que vou fazer na casa da Camila?”, diz.

Descaso da Vale

Desde as primeiras horas da segunda-feira (28) na Estação do Conhecimento, espaço da mineradora Vale em Brumadinho utilizado para receber familiares e amigos das vítimas, Helena aguardava ansiosamente qualquer nova informação divulgada. “Não saio daqui sem ter notícias dos meus filhos”, diz. “Só depois de cinco cadastros consegui incluir o nome deles nessa lista”, afirma.

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Segundo familiares, além de faltar integração entre as listas de desaparecidos da Defesa Civil e da Vale, há também uma falta de atenção com pessoas que não eram funcionários da empresa. “Até a noite do domingo, a Vale tratava somente dos funcionários. Quem não é considerado desaparecido não é procurado. Eles passaram três dias sem serem procurados.”

Além do descaso, Helena convive com o desespero da falta de informações atualizadas. “Nós ainda temos um pouco mais de esclarecimento estamos movimentando uma rede de ajuda”, diz Helena. “A maioria das pessoas aqui fica sentada olhando para o nada.” A economista afirma que conversou com uma pessoa que vivia na beira do rio e teve todos os pertences soterrados pela lama. “Ele era extremamente humilde e não conseguia se articular e não recebeu nenhuma assistência”, descreve.