Tiroteio em Suzano
São Paulo 'Nasci 2 vezes no mesmo hospital', diz ferido no massacre em Suzano

'Nasci 2 vezes no mesmo hospital', diz ferido no massacre em Suzano

Um dos 11 feridos, José levou um golpe de machado e correu sozinho a hospital para salvar sua vida. Para ele, racismo foi influência no ataque

'Nasci 2 vezes no mesmo hospital', diz ferido no massacre em Suzano

Apesar da cicatriz, José Vitor não sente dores e ainda joga basquete, sua paixão

Apesar da cicatriz, José Vitor não sente dores e ainda joga basquete, sua paixão

Edu Garcia/R7

Com a frieza de seus ídolos do basquete, que respiram fundo ao lidar com a pressão de converter decisivos lances livres, José Vitor se deparou com uma situação desesperadora e, com calma, se lembrou dos ensinamentos do pai enfermeiro: para evitar uma hemorragia, não tirou o machado fincado em seu ombro, e assim foi correndo sozinho para o hospital mais próximo da E. E. Raul Brasil, tomada naquele momento pelo caos do massacre causado por dois ex-alunos da escola.

“Não senti dor nenhuma, era muita adrenalina. O que me fez ir pro hospital sozinho foi a vontade de viver. Estava com medo de morrer. Depois de saber que eu ficaria bem, foi como nascer de novo. Nasci duas vezes no mesmo hospital”, contou o rapaz de 18 anos à reportagem do R7, em sua nova casa, um pouco mais distante do palco do ataque que mudou a vida e a rotina de centenas de estudantes e famílias da região.

Se antes sonhava em ser jogador de basquete, esporte pelo qual ainda cultiva paixão, agora a idade adulta o faz pensar em possibilidades mais concretas. Seis meses depois do traumático 13 de março, o sorridente e carismático José considera retomar as carreiras como ator e modelo, áreas em que atuou entre a infância e adolescência. Ou até na política, sugestão feita pela mãe e bem vista por ele.

“O que passou, passou. Não tem que olhar pra trás. Se aconteceu, que possa aproveitar algo disso. Falei para ele ser vereador. Que passe de escola em escola e descubra o que os jovens pensam e querem para a cidade”, diz a mãe Sandra Regina, de 49 anos.

Vou falar a verdade: sendo neguinho fica ainda mais difícil, né?
José Vitor Ramos Lemos

Hoje vivendo em um apartamento mais confortável do que a antiga casa, que a mãe pôde custear com a indenização recebida pelo Estado de São Paulo – valor o qual ela considera ter sido baixo pelo sofrimento e trauma que passaram –, José convive com as marcas do brutal crime, garante que nunca pensou em deixar a escola e relembra com clareza da manhã onde se viu sozinho e teve de lutar pela própria vida. Ele afirma que, ainda que de forma indireta, o racismo foi a motivação no golpe de machado que recebeu e acredita que também sofreu discriminação ao procurar por ajuda nas ruas.

Como José Vitor viveu o 13 de março

Cicatriz do golpe de machado não incomoda José Vitor. Mas o racismo, sim

Cicatriz do golpe de machado não incomoda José Vitor. Mas o racismo, sim

Edu Garcia/R7

“Eu estava com minha ex-namorada na mesa da merenda. Escutei o primeiro disparo, pensei que era uma bombinha. No segundo eu vi que era tiro. Olhamos para trás e vimos ele (Guilherme Taucci) matando as pessoas. Mas eu não sabia ainda que tinha o Luiz [Henrique de Castro, outro assassino]. Quando reconheci o Guilherme, ele descarregou a arma dele, tinha acabado de matar um moleque (não lembro quem). Corri pra fugir e vi o Luiz lá na entrada. Foi aí que eu levei a machadada.

Não senti nada pela adrenalina. É louco não sentir dor, é bem louco mesmo (risos). Eu olhei uma vez só para o machado e falei ‘nossa, que louco!’. E corri pra rua. [O que me deu forças para fugir foi] viver, né? A morte na nossa cara. Pedi ajuda para o pessoal que estava na rua. Todo mundo olhava com cara de choque, e aí eu falei: ‘ah, não vou pedir mais ajuda, não’. Corri.

Não ajudaram pelo choque e também porque não queriam. Vou falar a verdade: sendo neguinho fica ainda mais difícil, né? Então pensei ‘tenho que ir pro hospital’. Alguns alunos não pensaram nisso. Cada cabeça é uma cabeça.

Aí fui correndo. Eu sentia o machado e segurei ele pra não mexer mais. Entrou bastante na minha pele. Em todo o tempo não senti dor nenhuma. Acho que cheguei em uns dois minutos da escola até o hospital. São só 300 metros de distância, e no desespero a gente corre muito (risos). Foi tudo muito rápido, dentro de uma hora aconteceu tudo: dos dois entraram na escola, eu tomar a machadada, até correr pro hospital e fazer o raio X. Ali eu pensei que ia morrer mesmo. Vi o ‘negócio’ sangrando pra caramba.

Quando cheguei lá tava todo mundo meio assustado. Aí a mulher perguntou: ‘nossa, o que aconteceu?’. E eu já falei ‘Não faz pergunta difícil. Daqui a pouco vocês vão saber’. Deu cinco minutos e já tinha o barulho das ambulâncias com os outros feridos chegando. Aí pra eu ficar mais puto ainda chegou um moleque com tiro no pé e as enfermeiras, que ficavam olhando pra minha cara enquanto médico não chegava, foram tudo ver o moleque. Aí eu pensei: ‘Pô, eu levei uma machadada e cheguei primeiro, sou o mais ‘ferrado’ da história’. Depois aconteceu a cirurgia e ficou tudo bem. Passei cinco dias lá e nem me deixaram ficar sabendo direito do que aconteceu na escola”.

Como Sandra, a mãe, viveu o 13 de março

Sandra: "Ele fez aniversário no dia 6 de março. E no dia 13 de novo"

Sandra: "Ele fez aniversário no dia 6 de março. E no dia 13 de novo"

Edu Garcia/R7

“Eu só fui saber do massacre mesmo depois que eu vi o José no hospital. Até então eu não tinha noção do que tinha acontecido. Estava em casa e o telefone tocando muito, mas eu estava limpando a casa e pensei ‘devem ser aqueles telefonemas que você atende e não é ninguém’, então não atendi. Aí minha mãe atendeu.

Eu via muito helicóptero, mas até então, achei que tinha tido algum roubo, atentado ou algo do tipo. Quando minha mãe falou que era sobre o José Vitor, eu pensei: ‘fez merda! Vou dar na cara dele... Aprontou alguma de novo’. Perguntei o que aconteceu, e falaram que eu tinha que ir pro hospital. Fui com meu sobrinho e minha mãe de carro.

Dirigindo, vi o movimento na rua, um monte de gente para fora de casa, e achei tudo muito estranho. Da minha antiga casa à escola são três quarteirões. Quando cheguei na esquina antes do Raul Brasil, vi aquele movimento de carro de polícia, bombeiro, Samu, helicóptero... Tive a certeza de que ele estava morto.

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E o carro não andou mais. Eu tirei o chinelo, larguei o volante e saí correndo pro hospital. Chegando lá eu só pedi pra ver meu filho. Olhei pra TV e na chamada estava escrito “João Vitor Ramos Lemos: vítima fatal”. Deram a informação errada. O nome estava errado, mas eu já estava acostumada com as pessoas trocando José pra João e tive certeza de que era ele. Me puseram numa salinha, um monte de pai desmaiando, eu dizendo que queria ver meu filho e os psicólogos tentando me acalmar. Eu tinha certeza que ele tinha morrido.

Foi quando meu sobrinho conseguiu subir pro centro cirúrgico e viu o José, que fez um sinal de positivo pra ele. Foi um grande alívio ficar ciente de que ele estava vivo. Mas até então não sabia muita coisa, o machado podia ter rompido algum tendão. Não sabia se ele corria algum risco de vida.

Poder encontrar com ele depois foi bom demais. Sou mãe, e ver que está bem, que está vivo, é um alívio. Sai um peso enorme das costas. Foi um dia que parou a vida da gente. Ele fez aniversário no dia 6 de março. E no dia 13 de novo, ainda no mesmo hospital (Santa Maria, em Suzano)! Eu falei pra ele: ‘você tem que comemorar duas datas’.

Teria sido pior se o terceiro [mentor do crime] tivesse participado. O terceiro tinha problema com o José. Nessas conversas que divulgaram ele cita muito o nome do José. Na conversa dele, o José tinha até um apelido.”

Racismo está sempre presente

Durante a entrevista, o primeiro relato de José Vitor sobre racismo é ao falar do momento em que saiu da escola com o machado nos ombros.

“Teve a ver com racismo também. Se fosse um menino mais branquinho, as pessoas iam olhar de outra forma. Em tudo tem um olhar de discriminação. Em tudo na vida”, afirma ele.

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Segundo José, os problemas com o terceiro mentor do crime, apreendido e levado à Fundação Casa, nasceram também do racismo.

“Eu não sou o problema. É ele. Quando brigamos na escola, há muito tempo, foi por racismo. Sempre com piadinhas racistas, me chamando de macaco, com insultos. Nunca dei liberdade pra ele”, diz ele, que acredita que o golpe com machado dado por Luiz não teve alvo aleatório: “Foi premeditado, foi pra mim”.

Amor pelo basquete

Corintiano, José exibe alguns dos presentes que ganhou de jogadores de basquete

Corintiano, José exibe alguns dos presentes que ganhou de jogadores de basquete

Edu Garcia/R7

Apesar de todas as marcas negativas deixadas pelo massacre, José também teve motivos para comemorar desde março. Fanático por basquete e praticante do esporte há seis anos, ele pôde conhecer ídolos e, em junho, se tornou embaixador da NBA (liga norte-americana de basquete) no Brasil.

“Foi muito legal. Eu sempre vi jogos da NBA e sonhava em jogar lá. Ainda conheci o Oscar [Schmidt] e ganhei uma camisa e autógrafos dele”, diz o rapaz, que se divide entre as torcidas pelo Mogi das Cruzes no basquete e Corinthians no futebol.

Ele também pôde conhecer alguns ídolos que tinha no Mogi. “Sempre gostei muito do Shamell, do Tyrone (ex-jogadores do Mogi das Cruzes). Já pude conhecer o Lucas Bebê, que disputava a NBA, o Shamell me visitou. Foi da hora”, relembra ele, que hoje exibe as mais variadas camisas de basquete que ganhou nos últimos meses.

Que carreira pretende seguir

Quando mais novo, ele trabalhou como modelo e ator

Quando mais novo, ele trabalhou como modelo e ator

Edu Garcia/R7

O antigo sonho de ser jogador de basquete foi se perdendo à medida que o garoto envelheceu: “Eu não pretendo jogar, não. Agora quero mais ser modelo ou ator. Gosto muito dessa área”.

Seguir carreira em qualquer uma das duas funções não seria algo novo para o sorridente estudante. Ainda criança, foi modelo fotográfico, relembra a mãe, e fez diversos trabalhos. Entre eles, estampou uma capa da revista IstoÉ (com tema de trabalho escravo infantil), foi fotografado em ensaios para a Hering, marca de moda masculina, feminina e infantil, e para o Juventus, tradicional clube paulistano localizado na Mooca, zona leste da capital.

Como ator, se destacou na minissérie “O Menino Grapiúna”, da Record TV, de 2011, em homenagem aos 100 anos do escritor Jorge Amado (vídeo abaixo).

Se, no entanto, for atrás do conselho da mãe e entrar na política, o estudante do segundo ano do ensino médio já tem consciência das pautas que defenderá. “Também gostaria de ser vereador. Trabalhar com segurança, urbanização, educação... E o esporte, né, que principalmente aqui é bem parado e só deu uma melhorada recentemente”, diz José Vitor.

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