Nove em cada dez negros apontam racismo na contratação de trabalhador, revela pesquisa

Para maioria, 'boa aparência' representa cabelo liso para mulher e raspado para homem em SP

Para 70% das pessoas "boa aparência" entre negros está relacionada a mulheres de cabelo alisado e homens de cabelo raspado

Para 70% das pessoas "boa aparência" entre negros está relacionada a mulheres de cabelo alisado e homens de cabelo raspado

Divulgação

Uma pesquisa realizada pela Etnus, consultoria especializada em códigos culturais de consumo entre os negros, publicada nesta terça-feira (25), revela que 92% dos paulistanos negros acreditam que exista racismo na hora da contratação dos candidatos.

O estudo revela ainda que 67% afirmaram que deixaram de ser contratados por serem negros, outros 62% disseram que já ter sido alvo de discriminação racial numa entrevista de emprego, e 60% contam que já sofreram preconceito racial no ambiente de trabalho.

A pesquisa acrescenta ainda que 70% entendem que a expressão “boa aparência” está associada, no caso das mulheres, ao cabelo alisado, e, no caso dos homens, ao cabelo raspado.

NEGRO DRAMA: Um panorama do racismo no Brasil

O estudo verifica que parte dessa pressão por mudança estética vem do mercado de trabalho: 53% dos entrevistados admitiram ter raspado ou alisado o cabelo para fazer uma entrevista de emprego ou ser aceito no ambiente profissional.

Uma das entrevistadas, que não se identificou, comenta que, “se pedir demissão para seguir meus sonhos ou refletir sobre minha carreira, sei que demorarei muito mais para me recolocar. Além disso, não saberia como justificar isso em uma próxima entrevista de forma que não parecesse uma atitude irresponsável de minha parte. Fora que isso suja carteira e tenho contas para pagar”

A analista de marketing Simone Grazielle Felizardo, de 36 anos, outra das 200 pessoas entrevistadas na pesquisa, conta sua experiência no mercado de trabalho.

— O mercado de trabalho para a mulher negra é ainda mais enxuto, ele está a margem da pirâmide da população. As pessoas estão acostumadas a ver a mulher negra no mesmo espaço que elas se ela estiver limpando o chão e não em outra posição. Isso gera um desconforto muito grande. Mesmo na entrevista você tem que provar mais de mil vezes que é capaz de ocupar aquela posição.

Ela acrescenta ainda a agressividade do mercado de trabalho com as mulheres e relembra que nesta terça-feira (25)

— O ambiente corporativo para a mulher negra é muito nocivo e violento, porque todo dia é uma violência nova, que tem desde uma piada sem graça até uma ofensa. É comum ouvir comentários como “tem certeza que você mesmo que fez isso?”, “como que você comprou essa roupa?”, “você lava o cabelo?”. São comentários que parecem comuns, mas são violentos.

Largar o emprego?

Segundo a pesquisa, 36% dos entrevistados não largariam o emprego para refletir sobre a carreira ou seguir seus sonhos de felicidade. Este dado reforça a ideia de que os negros demoram mais para se recolocar no mercado de trabalho em casos de demissão. Fernando Montenegro, idealizador da pesquisa, explica esta relação.

— As pessoas negras não estão voltando ou entrando no mercado de trabalho, vimos muitos casos de gente  que se tornou empreendedora ou entrou para a carreira pública por esta questão.

Montenegro pontua ainda como o racismo está ligado ao mercado de trabalho.

— O racismo interfere diretamente ou indiretamente no indivíduo e uma das principais causas dessa não aceitação trabalhista está ligada ao preconceito racial.

Criada especialmente para compor um debate sobre transformação social dentro da programação do festival de inovação WHOW!, a pesquisa foi apresentada nesta terça-feira (25) durante o evento. Ela feita com 200 entrevistados, de todas as regiões da cidade de São Paulo, na faixa etária de 18 a 50 anos, entre os dias 23 de maio a 14 de julho. O estudo não revela a quantidade de homens e mulheres entrevistadas, a porcentagem de confiança e nem a margem de erro.

Nesta terça-feira (25) o R7 exibe o segundo capítulo da reportagem especial Negro Drama: um panorama do racismo no Brasil e aborda o mercado de trabalho e a educação.