Cracolândia
São Paulo Operação cria "Cracolândia flutuante"; governo inicia internações

Operação cria "Cracolândia flutuante"; governo inicia internações

Fluxo de usuários de drogas e moradores de rua se espalhou pelas ruas da cidade 

Operação cria "Cracolândia flutuante"; governo inicia internações

Grupos de usuários de craques se reuniram em pequenos grupos

Grupos de usuários de craques se reuniram em pequenos grupos

JF DIORIO/ESTADÃO CONTEÚDO

Um dia após a megaoperação na Cracolândia, no centro de São Paulo, o fluxo de viciados e moradores de rua se espalhou pela região. A concentração de dependentes se deslocava nesta segunda-feira (22) de um ponto para outro conforme a polícia percorria a área. Houve forte policiamento, o que não impediu que o tráfico continuasse operando. Agentes de saúde passaram o dia abordando a população que vagava pelas ruas.

A reportagem do Estado circulou por toda a manhã e início da tarde pelas ruas do centro e do entorno da Cracolândia e constatou que pequenos fluxos eram montados e desmontados rapidamente, com circulação de álcool, crack e cigarro. O movimento era flutuante, dependendo do surgimento de agentes públicos. Segundo o secretário estadual da Saúde, David Uip, a dispersão era "esperada" e "tudo foi muito bem planejado".

Proprietário de um restaurante na Avenida Rio Branco, na frente da Praça Santa Isabel, Ronaldo Saad, de 46 anos, lamentou o fluxo que se formou na frente de seu comércio.

— Hoje, deu até prejuízo. Mas eles têm de controlar para não espalhar. Não adianta apenas dispersar, tem de saber para onde estão indo essas pessoas.

Mesmo com a presença policial e de agentes de saúde no entorno, havia traficantes vendendo drogas nos novos fluxos. O clima era muitas vezes tenso. Um homem que se identificou como Negão pediu que a reportagem saísse da região. "Não fica fazendo pergunta", disse. Diversos dependentes usavam drogas em cachimbos. À tarde, houve concentração de moradores de rua na Praça Princesa Isabel e na frente de uma agência na Avenida Rio Branco. Mais cedo, eles se concentraram em um posto de gasolina e no cruzamento da Avenida Duque de Caxias com a Rua Santa Ifigênia e no do Viaduto Rudge.

Moradores de rua que dormiam na frente da Estação Júlio Prestes também tiveram de sair do local, a pedido da Polícia Militar, por volta das 9h, e depois se aglomeraram na Rua Mauá, na frente do Memorial da Resistência. O ponto tinha pelo menos 80 usuários.

Thiago Alves da Silva, de 28 anos, era um dos que ocupavam a calçada no área. Ele estava na Cracolândia desde o fim de abril, após sair da prisão por associação criminosa. Silva diz que a ação prejudicou os moradores de rua, que se sentiam "à vontade" no quarteirão do fluxo e agora não têm para onde ir.

O artista plástico e militante do movimento A Craco Resiste, Raphael Escobar, disse que a ação da PM foi "semelhante" à feita em outras gestões, "só que com artilharia muito mais pesada".

— Tiraram os moradores de rua de um lugar para ficarem em outro, espalhados por aí.

Já os comerciantes da região, mesmo os que tiveram prejuízos, elogiaram o trabalho e esperam melhoras a longo prazo.

Sem feira

Para o secretário estadual da Segurança, Mágino Alves, o mais importante é que a feira de drogas na Alameda Dino Bueno, com 34 barracas e centenas de viciados, acabou.

— Quem passa naquele local hoje vê um cenário completamente diferente.

Segundo ele, 200 policiais militares farão o patrulhamento na Cracolândia por tempo indeterminado.

Desde a operação, segundo Uip, foram atendidas 38 pessoas no Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod) e feitas 13 internações voluntárias no Centro de Convivência do programa Recomeço, na Rua Helvétia. "(Os agentes) estão indo em busca de convencimento. Essa é uma palavra importante: convencimento. Ninguém vai fazer algo truculento ou brusco", disse.

Revitalização

O prefeito João Doria (PSDB) voltou a destacar ontem a parceria com o governo do Estado, que, segundo ele, possibilitará o combate a minicracolândias em outras regiões.

Segundo Doria, até dezembro de 2019, a gestão entregará na área da Cracolândia uma creche, uma Unidade Básica de Saúde, uma escola e parte das residências de interesse social previstas no projeto Nova Luz, em parceria com o Estado. E voltou a dizer que "a Cracolândia não vai mais existir".

— Ali, a partir de agora, é um espaço reconquistado pela cidade, pela cidadania.

O prefeito afirmou também que o programa Redenção fará ações "em breve" em pequenas Cracolândias na Vila Nova Ceagesp, na zona oeste, Radial Leste, zona leste, e Roberto Marinho, na zona sul.

— Lá há atuação do pequeno tráfico.

Já o governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse que a Cracolândia "vai acabar", sem polemizar com Doria.

— É um trabalho de perseverança, não podemos dizer 'Acabou, vamos embora'. Não vai resolver em 24 horas, mas vai diminuir.

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