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São Paulo Orgulho brasileiro nas Olimpíadas, skate já foi proibido na cidade de SP

Orgulho brasileiro nas Olimpíadas, skate já foi proibido na cidade de SP

Líder do movimento contra o veto relata sobre conflito de Jânio Quadros com praticantes, que começou no Parque Ibirapuera

  • São Paulo | Guilherme Padin, do R7

Skatistas se manifestaram contra veto de Jânio Quadros em 1988

Skatistas se manifestaram contra veto de Jânio Quadros em 1988

Reprodução/Documentário "Vida Sobre Rodas"/Daniel Baccaro

Se as medalhas de prata de Rayssa Leal e Kelvin Hoefler foram motivo de orgulho para o Brasil, mantendo milhões de pessoas acordadas em duas madrugadas seguidas, a realidade do skate e seus praticantes era bem diferente há pouco mais de três décadas. Entre maio e junho de 1988, além do preconceito que enfrentavam as primeiras gerações de adeptos do esporte, a atividade foi proibida na cidade de São Paulo.

Um dos líderes do movimento contra a proibição à época, praticante há mais de 40 anos e hoje empresário no ramo do skate, Marcio Tanabe relatou ao R7 como começou o embate.

Os skatistas da capital paulista tinham o Parque do Ibirapuera, nas palavras de Tanabe, como “o espaço de nossa prática, nossa história, a meca do skate, para nós”. Como ali também ficava a sede da prefeitura, Jânio Quadros, o então gestor do município, se incomodou com as atividades no parque e as proibiu por decreto, em 6 de maio.

Foi então que, no mês seguinte, os jovens se reuniram em um grupo de 200 pessoas e foram do metrô Paraíso ao Ibirapuera se manifestar.

“Fui com o megafone e todos gritando junto: ‘queremos o Ibira, queremos o Ibira!’. Mas um repórter soube da manifestação e chegou no parque na nossa frente. Ele perguntou para o prefeito o que pensava do ato, e o Jânio, que ficou sabendo na hora, mandou fecharem o portão do parque antes que entrássemos. A gente teve que ficar protestando lá fora”, relembra o líder do movimento, aos risos.

Portas do parque se fecharam para o ato

Portas do parque se fecharam para o ato

Reprodução/Documentário "Vida Sobre Rodas"/Daniel Baccaro

Mais aborrecido ainda após o protesto, o prefeito então decidiu, no dia seguinte, estender a proibição para toda a cidade, chamando os manifestantes, em um memorando, de “meninos mal-educados”.

Foi neste momento, segundo o empresário, que começou a “caça”. As ações truculentas dos guardas municipais, entre “tapões na cara e chamar de maconheiro”, além do confisco aos skates, se tornaram mais comuns. “Todos nós passamos por sofrer ou ver casos de violência em algum momento. E só por praticar o skate”, afirma.

Oficialmente, o decreto se desfez após a revogação por parte da sucessora da Jânio Quadros, a prefeita Luiza Erundina, em 1989, logo que assumiu seu mandato.

O episódio do veto de Jânio é retratado no documentário Vida Sobre Rodas, que viaja pela história do skate brasileiro ao longo de duas décadas, costuradas com as trajetórias de quatro grandes nomes da modalidade: Bob Burnquist, Sandro Dias, Lincoln Ueda e Cristiano Mateus.

“Proibido é mais gostoso”

Apesar dos meses de proibição, Tanabe conta que parar nunca foi uma opção. Quando perguntado se o decreto os afastou da paixão sobre as pranchas, a resposta foi assertiva: “proibido é mais gostoso. Não só andamos como em agosto (três meses depois) eu realizei um campeonato chamado Ladeira da Morte, que acontece numa rua do Sumaré”.

A liberação da rua se deu a partir do contato de uma funcionária, que, enquanto professora universitária de Educação Física, pediu para a prefeitura o espaço para a realização de eventos esportivos – sem citar quais.

Divulgação do veto na imprensa, à época

Divulgação do veto na imprensa, à época

Reprodução/Documentário "Vida Sobre Rodas"/Daniel Baccaro

“Quando eles souberam, ficaram loucos. Mas já era tarde demais, os ingressos estavam vendidos e milhares de pessoas foram. Foi um sucesso. Quando o Jânio voltou de uma viagem no dia seguinte, a manchete era assim: ‘Jânio reforça proibição do skate na cidade de São Paulo’”, diz o skatista, mais uma vez, sem segurar o riso. Ainda houve espaço para um torneio de half pipe na avenida Paulista, televisionado para a TV Gazeta. “O prefeito mexeu com uma molecada com união nas ações”, comenta.

Para ele, parte dessa subversão às determinações do poder público se devia justamente à essência do esporte pelo qual aqueles jovens eram – e muitos ainda são, destaca – apaixonados.

“O skate era um movimento de contracultura naquele momento. Um movimento de jovens gritando pelos seus direitos, pela transformação da sociedade, por um olhar com espaço para o jovem. E o espírito é o da irreverência mesmo, de fazer a manobra antes do ‘não’”, considera Tanabe.

Somados a este caráter indisciplinado, o decreto do prefeito e o preconceito nas ruas – “nos viam como marginais” – se refletiam na atuação das forças de segurança.

“Os caras eram truculentos, sempre tratavam com violência, de forma áspera. Eu não enfrentei diretamente, mas fui interferir a apreensão do skate de amigos e vi eles tomando tapa. Como eu não estava de skate e era um pouco mais velho, não fizeram nada comigo, mas vi os guardas dando tapão, chamando de maconheiro. Era comum”, afirma.

O tratamento só mudava, segundo o empresário, “quando o guarda gostava de skate também. Aí eles respeitavam, tratavam bem e ficavam admirados se o cara fosse credenciado em alguma competição”.

Por conta da repressão, Tanabe brinca que, após as medalhas de Rayssa e Kelvin, os próximos dias serão os melhores para quem quiser praticar a modalidade: “essa é a semana de andar de skate em todos os picos proibidos, a PM vai cuidar da segurança, o zelador do prédio vai gravar o moleque andando no corrimão. Tem que aproveitar”.

Da proibição em SP às medalhas Tóquio

“O prefeito mexeu com uma molecada com união nas ações”

“O prefeito mexeu com uma molecada com união nas ações”

Reprodução/Documentário "Vida Sobre Rodas"/Daniel Baccaro

Rayssa Leal, Kelvin Hoefler e os outros brasileiros que competiram em Tóquio não poderiam andar sobre as rodas na São Paulo de 1988 ou teriam de desobedecer o decreto municipal para fazer o que amam. Mas se alcançaram os feitos para o Brasil na primeira Olimpíada com a participação do skate, uma porção disso se deve aos praticantes de décadas atrás e o fomento à modalidade.

Marcio Tanabe é parte ativa desta história; não somente se envolveu na prática esportiva e nos protestos, mas também atuando na produção de tênis de skate, de uma revista no ramo e, além de hoje possuir dois skate parks na capital paulista, com previsão para a abertura de um terceiro, realizou e organizou torneios desde a década de 80.

Vivendo toda a evolução do esporte neste período, Tanabe se comoveu com a presença dos brasileiros nos Jogos Olímpicos e com as duas medalhas, sobretudo a de Kelvin, que deu os primeiros passos e foi tetracampeão no Sampa Skate, torneio organizado pela prefeitura de São Paulo e coordenado pelo experiente skatista.

“Foram duas noites sem dormir. E ainda ver o Kelvin, que saiu de um projeto que eu criei, foi muito emocionante”, destaca.

Aos 57 anos, o empresário não deixou de praticar o esporte – inclusive em alto nível. Ele, que relata nunca ter imaginado competir em grandes circuitos, foi convocado para atuar pela seleção brasileira nos Jogos Pan-Americanos Masters de 2020, no Rio, posteriormente suspenso em março do ano passado pela pandemia de covid-19.

O campeonato inclui esportistas de a partir de 30 anos, mas a média da faixa etária dos competidores está na casa dos 50.

“Nunca sonhei com isso. Sempre pensei na atuação dos jovens internacionalmente, e me classifiquei à categoria mais velha do planeta”, comemora, em tom de brincadeira. Agora, Tanabe aguarda o fim da pandemia para competir pelo Brasil.

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