São Paulo Pelo menos 4 viadutos em São Paulo têm fendas ou concreto rachado

Pelo menos 4 viadutos em São Paulo têm fendas ou concreto rachado

R7 visitou vias elevadas na Vila Olímpia, Jaguaré, Barra Funda e Penha acompanhado de engenheiro. Viaduto havia cedido na marginal Pinheiros

Junta de dilatação sem proteção no viaduto República da Armênia, na zona sul

Junta de dilatação sem proteção no viaduto República da Armênia, na zona sul

Márcio Neves/R7

Após um viaduto ceder na marginal Pinheiros, em frente ao Parque Vila Lobos, na zona oeste de São Paulo, paulistanos começaram a compartilhar nas redes sociais registros que, segundo especialista, evidenciam a falta de manutenção e problemas em outras estruturas pela cidade.

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“O concreto é um ser vivo, ele reage ao ambiente todos os dias e precisa de vistoria e manutenção constante. A chuva, a fumaça dos carros, o peso dos caminhões e até a frenagem dos veículos causam impactos nestas estruturas”, explica o engenheiro Márcio Estefano, professor do curso de pós-graduação em engenharia civil do Instituto Mauá de Tecnologia.

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Uma das imagens mais compartilhadas nas redes sociais é uma foto que mostra uma fenda no viaduto República da Armênia, no bairro da Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. Na imagem a fenda permite ver a rua que passa embaixo dela.

Junta de dilatação tem tamanho acima do normal, mas não oferece riscos

Junta de dilatação tem tamanho acima do normal, mas não oferece riscos

Márcio Neves/R7

A pedido do R7, o engenheiro Estefano foi até o local, e explicou que visualmente a fenda, que na verdade é uma junta de dilatação, tem apenas um espaçamento fora do normal e dá indícios de falta de manutenção, mas que não representa nenhum problema de estrutura na construção.

“A junta de dilatação é necessária para que o viaduto possa ter espaço para expandir e contrair conforme a variação de temperatura e não rachar. Uma junta usual tem entre 3 a 5 centímetros. Ali está fora dos padrões, mas não é um sinal de problema na estrutura do viaduto”, afirma Estefano.

O engenheiro identificou ainda um improviso para “mascarar” a fenda, utilizando uma espécie de conduíte, quando na verdade deveria ser aplicado um material de alta resistência para vedar a junta e minimizar o impacto para os veículos que passam sobre o viaduto. O material custa, em média, cerca de R$ 1.000 por metro quadrado.

Ironia no Ary Torres

Rachaduras no viaduto Ary Torres sinalizam falta de manutenção e vistoria

Rachaduras no viaduto Ary Torres sinalizam falta de manutenção e vistoria

Márcio Neves/R7

O viaduto engenheiro Ary Torres, que liga a marginal Pinheiros até a avenida dos Bandeirantes, apresenta outros indícios de falta de manutenção. E traz também uma ironia.

O engenheiro que dá nome ao viaduto é um dos mais consagrados pesquisadores de tecnologia de concreto no Brasil. Entre suas pesquisas estão estudos sobre como o concreto reage diariamente em função do ambiente onde está.

O pontilhão que leva o nome do pesquisador tem sinais de falta de manutenção que aceleram justamente a degradação do concreto da estrutura como rachaduras e vegetação crescendo em seus pilares.

“Essas trincas são normais, mas se não for feita a manutenção, a umidade e a ação do tempo infiltra no concreto e vai danificando a estrutura e o material orgânico [vegetação] presente ali acelera este processo”, diz Estefano.

Vegetação nos Remédios

Vegetação acelera degradação do concreto em viadutos

Vegetação acelera degradação do concreto em viadutos

Márcio Neves/R7

O problema se repete em outras vias elevadas de São Paulo, como o engenheiro Alberto Badra, que passa sobre a Radial Leste, nas linhas de trem e metrô no bairro da Penha, zona leste de São Paulo.

Na ponte dos Remédios, poucos metros à frente de onde o viaduto na marginal Pinheiros cedeu, mais indícios de falta de manutenção.  Ali as estruturas de aço do viaduto estão expostas e existe sinais de formação de um material que indica desgaste do concreto pela ação do tempo.

Aço da armadura está exposto na ponte dos Remédios, na zona oeste de SP

Aço da armadura está exposto na ponte dos Remédios, na zona oeste de SP

Márcio Neves/R7

“Este efeito, a carbonatação, vai abrindo os poros do concreto e permitindo que entre água e oxigênio e comece a prejudicar a estrutura de aço”, explica o engenheiro Estefano.

No viaduto General Olímpio da Silveira, na avenida Pacaembu, o problema se repete e as armaduras de aço da estrutura estão expostas, o que segundo o especialista acelera o desgaste ainda mais e põe em risco toda a estrutura.

Em uma via elevada que interliga a marginal Tietê até a marginal Pinheiros, mas no sentido Centro-Interlagos, um desnível chama a atenção do mestre em engenharia convidado pelo R7.

“Em uma inspeção visual, o espaço de apoio na viga de um dos segmentos do viaduto parece irregular e dado a idade da construção e a importância da via, merece uma inspeção minuciosa”, afirma Márcio Estefano.

Viaduto na Marginal Tietê, próximo a rodovia Castello Branco, precisa de vistoria

Viaduto na Marginal Tietê, próximo a rodovia Castello Branco, precisa de vistoria

Márcio Neves/R7

Inspeções mais frequentes

Estefano defende ainda que as inspeções em grandes metrópoles de pontes e viadutos seja mais frequente do que prevê as normas técnicas e deveria ser feita a pelo menos cada dois anos.

“A chuva, a poluição, a presença de pessoas vivendo na parte debaixo do viaduto, o intenso fluxo, o peso de veículos e até a frenagem destes automóveis causam impacto na vida útil dessas estruturas”, afirma.

Engenheiro Márcio Estefano defende maior frequência nas vistorias de viadutos em SP

Engenheiro Márcio Estefano defende maior frequência nas vistorias de viadutos em SP

Márcio Neves/R7

O especialista explica ainda que pontes e viadutos são construídas para uma vida útil de em média 50 anos, e que como muitas dessas estruturas já estão com mais da metade da sua vida útil, precisam de atenção redobrada.
“Isto obviamente custa caro, mas é importante para a segurança e previne impactos maiores na cidade”, conclui Estefano.

Outro lado

A SIURB (Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras) da prefeitura de São Paulo, informou que prepara uma licitação para execução da obra no viaduto República da Armênia, na vila Olímpia, zona sul de São Paulo.

A pasta informou ainda que a rachadura no Viaduto Ary Torres seria a junta de dilatação entre o viaduto e a alça de acesso à Av. Eng. Luiz Carlos Berrini, e que a mesma não oferece nenhum risco.

"Os demais pontos indicados na Ponte dos Remédios e nos viadutos de ligação entre as marginais também não representam riscos estruturais e são acompanhados", descreve a nota enviada pela SIURB.

A Prefeitura também informou que os viadutos Alberto Brada, na Penha, e General Olímpio da Silveira, na zona oeste, "estão contemplados na licitação aberta no último dia 9 de novembro para contratação de empresas que irão desenvolver projetos estruturais e executivos de requalificação e laudos técnicos para manutenção de 33 pontes e viadutos da cidade".