São Paulo Procuradora volta ao trabalho um mês após ter sido espancada na Prefeitura de Registro (SP)

Procuradora volta ao trabalho um mês após ter sido espancada na Prefeitura de Registro (SP)

Gabriela Samadello diz que, apesar da dificuldade para enfrentar o trauma, quer lutar por mulheres vítimas da violência doméstica

  • São Paulo | Fabíola Perez, do R7

Pouco mais de um mês após ter sido agredida, procuradora volta ao trabalho na Prefeitura de Registro

Pouco mais de um mês após ter sido agredida, procuradora volta ao trabalho na Prefeitura de Registro

Reprodução

Passado pouco mais de um mês após ter sido espancada por um procurador na sede da Prefeitura de Registro, a procuradora de Justiça Gabriela Samadello, de 39 anos, deve retornar às atividades de trabalho nesta segunda-feira (1º). "Estou me recuperando, não está sendo fácil o trauma, acredito que é algo que eu jamais vou esquecer."

A procuradora-geral foi agredida por um funcionário de sua equipe no dia 20 de junho. Imagens da sala em que ambos trabalhavam mostraram as agressões. Gabriela ficou com ferimentos no rosto e na cabeça e passou mais de 40 dias afastada das atividades.

No momento da agressão, outras mulheres tentaram segurar o agressor, o também procurador do município Demétrius Oliveira de Macedo, que trabalhava com Gabriela na procuradoria havia nove anos e era subordinado a ela desde o começo deste ano.

"Estou feliz pelo fato de levantar uma bandeira, representar outras mulheres, lutar por um propósito e fazer parte de um processo de desconstrução cultural de machismo, violência e não tolerância", disse a procuradora. "Espero poder voltar a fazer meu trabalho, tentamos descaracterizar aquele canto que eu fui espancada. A equipe está mais unida e isso está sendo muito bom para nossas vidas."

Não me considero recuperada do trauma

"Não me considero recuperada do trauma. Penso muito nisso, sonho com isso", disse ela em entrevista ao R7. "Ele foi, por muitos anos, meu colega de trabalho. Embora a gente já não tivesse um bom relacionamento há algum tempo, ele acabou com a própria vida."

A procuradora relata que passou a usar remédios para dormir. "Não estava acostumada com tanta exposição, me senti muito envergonhada", diz ela. "Mas isso foi passando porque consegui ressignificar. Transformei isso."

Hoje, Gabriela conta que o dia mais difícil de suportar foi o seguinte à agressão: "Ele ainda estava solto, e eu não tinha uma certeza de que estaria em segurança. Agora, estou feliz em poder levar essa mensagem e por fazer parte de um processo de desconstrução".

Mudanças no trabalho

Segundo Gabriela, a relação com o trabalho melhorou após a prisão do procurador que a agrediu. "Ele deixava o ambiente tóxico, a equipe ficou muito mais próxima. O clima ficou mais leve", diz. "O afastamento de uma pessoa que agride uma mulher é essencial", reflete sobre a responsabilização do funcionário.

A procuradora lembra que, nos dias subsequentes ao espancamento, foi acolhida por colegas de trabalho de diferentes formas. "Redecoramos a sala em que eu apanhei para eu não ficar lembrando. Tive ajuda da Prefeitura de Registro, apoio psicológico para a equipe."

Procurada por outras vítimas

As agressões vividas pela procuradora fizeram com que ao menos 50 mulheres a procurassem para compartilhar depoimentos e vivências semelhantes. "Fiquei chateada por não ter uma estrutura, um canal de acolhimento para mulheres que sofreram violência", destacou. "Duas vizinhas minhas mandaram mensagem dizendo que também tinham sido agredidas."

O número de relatos pode ser ainda maior já que a procuradora recorda que, na primeira semana após o espancamento, não conseguia sequer ler as mensagens que recebia.

Uma violência como essa é algo que, segundo a procuradora, "não se apaga da cabeça". "É uma marca, uma tatuagem que vou carregar para sempre. É algo com que eu vou ter que aprender a lidar. Para os homens, é diferente, eles cumprem pena, isso se apaga e a sociedade não vai mais saber o que eles aprontaram no passado.

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