Coronavírus

São Paulo Professores denunciam conduta de perseguição de dirigente de Santos

Professores denunciam conduta de perseguição de dirigente de Santos

Em live recente, Bosco exigiu professores com comorbidade em aulas presenciais e sugeriu a docentes ‘roçarem mato’ das escolas

  • São Paulo | Guilherme Padin, do R7

Resumindo a Notícia

  • Profissionais de educação denunciam conduta de perseguição de dirigente de Santos e região
  • Em reunião, Bosco afirmou professores com comorbidades deveriam voltar a aulas presenciais
  • Secretaria da Educação de SP destacou falas como "inadequadas" e o corrigiu
  • Dirigente ainda disse que professores deveriam 'roçar mato' das escolas
Falas de Bosco foram avaliadas como 'inadequadas' pelo Governo de SP

Falas de Bosco foram avaliadas como 'inadequadas' pelo Governo de SP

Reprodução

Um dirigente de ensino de Santos (SP) e região afirmou, durante live realizada com profissionais e equipes de pedagogia, que todos os professores com comorbidades agravantes à covid-19 deveriam retornar às aulas presenciais. João Bosco Guimarães disse que as secretarias de educação e saúde de São Paulo haviam alterado o entendimento do que é comorbidade – “não é ter uma doença crônica, mas sim quando ela está em descontrole”.

As falas do dirigente foram classificadas como “inadequadas” pela pasta da educação, que, em nota, garantiu que ele será orientado após as afirmações na reunião virtual. Estas e outras afirmações de Bosco durante a live, agora já retirada do ar para o público, apontam um comportamento que resume sua gestão como um todo, segundo profissionais que conversaram com a reportagem do R7.

Há cerca de oito anos na diretoria de ensino de Santos, relatam, o dirigente possui uma conduta abusiva e persecutória. Para evitarem represálias, os denunciantes falaram sob condição de anonimato.

Segundo eles, há situações de perseguição a professores, coordenadores e diretores da região. Para além dos casos específicos relatados, o modo grosseiro de tratar os profissionais e a pressão sobre eles foram citados em mais de uma oportunidade.

Um profissional, que relata ter sido demitido após questionar o planejamento e decisões do núcleo pedagógico, comenta que não tem conseguido vagas na Diretoria de Ensino de Santos. “Eu e outra pessoas tentamos concorrer a novas oportunidades, mas infelizmente temos que ir para outras diretorias de ensino pois é impossível ser aprovado, mesmo com o conhecimento e experiência que possuímos. Somos ‘indeferidos’ pela diretoria do núcleo e pelo dirigente”, relatou.

Se sentindo perseguido por Bosco há pelo menos três anos, um segundo denunciante afirmou que a forma de agir é sempre a mesma: “já o presenciei gritando com funcionários. Nas reuniões que participo, o João não trata as pessoas com empatia”.

Uma professora da região afirma que, embora tenha tido contato com o dirigente em poucas oportunidades, ficou abismada com o que presenciou, sobretudo pelo grau de responsabilidade do cargo. “Ele era grosseiro com as pessoas, fazia pressão para que diretores maltratassem os professores. Uma amiga minha [que preferiu não falar à reportagem] chegou a ser humilhada”, afirmou.

Outro professor, indignado com as afirmações na reunião virtual, comentou que sua queixa fundamental com Bosco “é a gestão dele na sua totalidade, marcada por ameaças, perseguições e um tremendo desdém por profissionais da educação. A ofensa, a intransigência com diretores, supervisores e professores é algo corriqueiro”.

‘Roçar mato’ e outras falas na live

Na reunião em que João Bosco pediu o retorno de profissionais com comorbidade às escolas, outras falas do dirigente chamaram atenção dos denunciantes. Ao longo da reunião de duas horas, ele chegou a sugerir que os professores utilizassem roçadeiras para capinar os terrenos das escolas antes das aulas começarem, a fim de evitar reclamações dos pais sobre o mato alto nas unidades de ensino.

“O que falarem para a gente, a gente corre atrás. Agora fica a parte de vocês, que é a escola preparada dia 1º, roçada. Pega lá uma roçadeira. Às vezes, foram três supervisoras na escola. Dá uma roçadeira para cada uma e vamos roçar o mato”, disse Bosco. Enquanto discutia sobre as aulas presenciais, o dirigente ainda dissertou a respeito do ensino a distância e questionou a importância da figura dos docentes na escola.

“Até hoje ninguém me convenceu de que a figura do professor é imprescindível para a aprendizagem. Professor físico! Do contrário, podemos começar em larga escala o EAD e podemos já não atribuir tantas aulas assim né? Pra que que eu tenho cinco professores de português numa escola se um pode cobrir por EAD todos os outros? Então não temos que ter tanto professor”, comentou.

Ao exigir que até professores com comorbidade retornassem às aulas presenciais e argumentar que o entendimento sobre “comorbidade” havia sido alterado – informação negada pela secretaria de educação –, Bosco ainda disse que o retorno às escolas será obrigatório para professores, funcionários e alunos: “a opção acabou”.

“Não existe mais fechamento de escola porque alguém teve covid”, afirmou cerca de cinco minutos depois.

Outro lado

Ao tomar conhecimento da repercussão do vídeo, o dirigente João Bosco Guimarães escreveu uma carta em sua defesa. Intitulada “O que realmente me choca” e citando o psicanalista francês Jacques-Marie Émile Lacan no começo do texto, Bosco se disse surpreso com sua imagem circulando na internet e afirmou que recebeu apoio de amigos e que o vídeo foi editado e não retrata a realidade.

Disse, ainda, que durante sua jornada na educação encontra inúmeras grandezas, mas sempre com trabalho limpo, comprometimento e bom humor.

A respeito da fala sobre a roçadeira, questionou: “Desde quando um servidor público auxiliar na montagem de uma horta, de um jardim pode ser considerado desvio de função se já deu conta de suas atividades laborais do cargo cumprindo seu horário de trabalho? Desde quando é desvio de função um professor da escola participar de um mutirão num final de semana para a pintura de uma quadra esportiva, juntamente com alunos e pais de alunos?”

Por fim, sugeriu que foi denunciado sem devidos conhecimento, análise e julgamento dos fatos e do contexto do vídeo.

A reportagem do R7 tentou um segundo contato com a secretaria de educação paulista, perguntando a respeito da fala de Bosco sobre os professores roçarem mato das escolas e as denúncias relatadas pelos profissionais da região. Até a publicação deste texto, não houve resposta.

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