Refugiada síria vira chef por acaso e sobrevive à pandemia cozinhando

Após fugir do país e viver outros quatro anos na Jordânia, onde filhos não podiam estudar, Fatima faz da culinária seu trabalho em São Paulo

Fatima vive em São Paulo com cinco filhos e o marido

Fatima vive em São Paulo com cinco filhos e o marido

Arquivo pessoal

“Me tornei refugiada antes mesmo de chegar ao Brasil”. Fatima Ismail está diante de mais um desafio em sua vida. Junto de sua família deixou a cidade de Aleppo, na Síria, onde nasceu. Teve de se despedir para escapar da guerra, que dura até hoje. Viveu até 2014 na Jordânia, como refugiada, mas também saiu do país para vir a São Paulo. O motivo? Lá seus filhos trabalhavam, enquanto aqui poderiam estudar. Na adaptação à vida no Brasil, lida agora com outro susto: a pandemia do novo coronavírus.

Há três anos, Fatima faz dos conhecimentos da culinária árabe seu trabalho. Se antes os serviços eram direcionados a festas e eventos, agora, com a quarentena, limitam-se a pedidos de famílias em suas casas. “Perdi movimento, cliente, trabalho. Infelizmente perdemos muito. Antes da pandemia, olhávamos pra frente. Agora, voltou pra trás”, conta ela ao R7.

As dificuldades não são poucas, já que vive com os cinco filhos e o marido. “Não é fácil tendo sete pessoas em casa”, desabafa. Mesmo a situação crítica não tira seu ânimo em fazer o que ama. “Gosto muito da cozinha, de trazer minha cultura para aqui”, diz a orgulhosa chefe de família e de cozinha.

Depois dos quatro anos esperando na Jordânia pelo fim da guerra síria, a chegada a São Paulo tampouco foi fácil. A dificuldade com a língua, a adaptação dos filhos e a falta de oportunidades para alguém com seu perfil – mãe, refugiada e acima dos 30 anos – foram algumas das barreiras. Mas a família síria encontrou, também, muito a comemorar.

“Aqui em São Paulo as pessoas têm coração aberto. Quiseram ajudar com a língua, a divulgar meu trabalho e muita coisa. Nessa parte, são como meu povo, que é muito receptivo. As pessoas aqui têm coração bom”, comenta Fatima, que relata que a família também criou apreço pela capital paulista: “Já falamos em mudar de cidade uma vez e não aceitaram. Eles amaram aqui”.

Antes do Brasil

Antes da guerra civil assolar o país no início da década, a vida na Síria era muito mais fácil. “Como a família era grande - éramos em dez irmãos - quando alguém precisava de ajuda, a família sempre ajudava. Sempre juntos. Quem tem dinheiro ajuda quem não tem, não falta nada. Sinto falta disso aqui”, conta.

O início dos conflitos em Aleppo, uma das cidades mais afetadas do país, os forçou à rápida fuga em junho de 2011: “Foi o pior pra nós. Saímos da nossa cidade, sem lugar para viver e com pouco dinheiro”. E dali foram para a Jordânia, também no Oriente Médio, não tão distante da terra natal, na esperança que a guerra logo acabasse. O que não aconteceu.

Já na Jordânia entraram como refugiados, contando com a sorte de se adaptar rapidamente e poder voltar. Lá, após um primeiro ano muito difícil, Fatima conseguiu um emprego numa fábrica de costura local, mesma área em que trabalhava em seu país. Todos trabalharam juntos para sustentar a vida num país estrangeiro.

Entretanto, o medo dos filhos serem levados de volta – “se pegavam, mandavam direto pra Síria, sem dizer nada” – e o fato deles não estarem estudando levou a mãe, pelo bem-estar dos cinco, a cruzar o oceano atlântico e, muito distante de onde havia sido seu lar, recomeçar a vida num outro continente e com língua completamente diferente.

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“Queremos que nossos filhos estudem para uma vida melhor. Sempre ficávamos tristes por causa deles, não podiam trabalhar nessa idade. A gente não queria essa vida [pra eles]”, diz Fatima.

Hoje, olhando para as decisões tomadas, a chefe da família se contenta: “Felizmente, todos os meus filhos estudam, e o mais velho que já terminou a escola”.

Cozinha é paixão e fonte de renda

'Consigo fazer com o mesmo capricho que aprendi com minha mãe'

'Consigo fazer com o mesmo capricho que aprendi com minha mãe'

Acnur/Érico Hiller

Fatima Ismail não imaginava que um dia o aprendizado na cozinha com sua mãe, quando ainda era criança, poderia servir de fonte de renda para sua família.

Após a chegada ao Brasil, ficou dois anos sem trabalhar. Quando amigos e vizinhos experimentaram seus pratos pela primeira vez, relata, a reação foi igual: “Todos me disseram que nunca tinham comido algo assim, nem em restaurantes árabes. Falavam que eu podia ganhar dinheiro com isso”.

Fatima, então, fez um curso de empreendedorismo junto à Acnur (agência da ONU para refugiados) e decidiu começar a vender as comidas típicas. Apesar do impacto da pandemia, ainda assim seu trabalho tem sustentado a família e ajudado nas contas de casa. Hoje, a partir das redes sociais, faz a publicidade e as vendas de seus pratos. 

“Tem sido muito bom. As pessoas ficam sabendo, gostam e contam para os outros. Consigo fazer, nas entregas ou nos eventos, com o mesmo capricho que aprendi com minha mãe”, diz ela.