Refugiados sofrem com efeitos econômicos da quarentena em SP

Pessoas que trabalhavam com comércio e eventos passam por dificuldades financeiras nesse período de isolamento para combater o coronavírus

Prudence Kalambay batalha para cuidar dos filhos e neta sozinha

Prudence Kalambay batalha para cuidar dos filhos e neta sozinha

Arquivo Pessoal

Prudence Kalambay teve de deixar o seu país, a República Democrática do Congo, em 2005 por conta da guerra civil que assola o país. “Vim do Congo, que fica no coração da África e hoje estou aqui no Brasil, lutando para criar meus filhos e sem conseguir trabalhar em meio à pandemia de coronavírus”, diz. A situação dos refugiados é delicada, principalmente para os que viviam de eventos e do comércio.

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Prudence é uma mulher muito bonita, venceu concursos de Miss duas vezes em seu país e após ser mãe aos 21 anos decidiu criar uma ONG para atender meninas mães.

“Eu queria trabalhar a autoestima dessas meninas, mostrar que temos um filho, mas a vida continua, precisamos correr atrás dos nossos sonhos”, conta. A iniciativa não agradou o regime e com a perseguição política que veio na sequência, Prudence precisou fugir para a Angola.

Chegou ao país sem falar português e pagando para coiotes para cruzar a fronteira. Em Luanda, se encantou com o Brasil assistindo novelas. “Morei por 7 anos no Rio de Janeiro, em vez daquelas casas lindas que eu via, me deparei com a realidade de morar em uma comunidade, há 5 anos dedici morar em São Paulo.”

Hoje, ela mora em Itaquera, na zona leste, com os cinco filhos e uma neta. Participou de uma novela e sua renda vinha de eventos e palestras sobre a cultura africana e, em especial, sobre a vida e a situação política de seu país, o Congo. “Imagine a dificuldade para uma mulher negra e africana viver nesse momento de pandemia? Não sou a única passando por dificuldades, muitas mulheres estão na mesma situação que eu.”

Prudence está com a aluguel atrasado, contas acumuladas e sobrevive com as cestas básicas doadas por amigos e ONGs. “Temos arroz e feijão, mas não temos carne, a minha situação é muito difícil.” Quem puder ajudar, pode entrar em contato pelo e-mail: prudyka@yahoo.fr

Liliana Patrícia Pataquiva faz entregas delivery para sobreviver

Liliana Patrícia Pataquiva faz entregas delivery para sobreviver

Arquivo Pessoal

A colombiana Liliana Patrícia Pataquiva também está com dificuldade para pagar as contas. Ela assinou o contrato de aluguel de um restaurante na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, dois dias antes de começar o período de quarentena.

“Fiz um empréstimo para conseguir alugar o imóvel, mas não estou conseguindo pagar o aluguel”, conta. “É uma situação complicada, estamos trabalhando com delivery, mas como não tivemos tempo de formar uma clientela, temos poucos pedidos pelos aplicativos.”

Liliana conseguiu o refúgio no Brasil em 2012 e desde então trabalha com o marido vendendo comida latina. “Eu fui mãe aos 15 anos e queria dar uma vida melhor para o meu filho, decidi empreender e montar um negócio próprio.”

Ao lado do marido, abriu uma loja no centro de Bogotá, mas sofria a pressão de grupos que exigiam propinas para que o negócio continuasse aberto. “Foram 12 anos pagando até o momento que não aguentamos mais”, lembra. Resultado: a família teve de fugir de madrugada e se esconder em uma cidade próxima.

“Descobri um parente que morou no Brasil e consegui vir para cá. Vim sozinha, depois veio meu marido e os meus dois filhos”. A família passou a vender arepas em uma bicicleta. “Juntamos dinheiro e conseguimos comprar uma Kombi e participamos de eventos de foodtruck.”

Liliana e o marido levaram os equipamentos da Kombi para o local alugado e estão à frente do restaurante Arepas Urbanika, especializado na gastronomia da América do Sul. “Estamos em aplicativos, fazemos entregas na região, não podemos parar.”

Artigos vendidos por Komlan Roger que preferiu não publicar sua foto por segurança

Artigos vendidos por Komlan Roger que preferiu não publicar sua foto por segurança

Arquivo Pessoal

Situação bem diferente de Komlan Roger, que vendia turbantes, tecidos e roupas africanas em feirinhas na região da avenida Paulista. “Quem quer comprar uma roupa de festa neste período?”, questiona.

Roger precisou deixar o Togo após perseguições políticas. “Eu trabalhava como contador, não participei de greves ou manifestações, mesmo assim fui intimado para ir a uma delegacia e precisei deixar meu país para preservar a minha vida.”

O ambulante tentou vender seus produtos pela internet, mas não teve retorno. “Tentei fazer o cadastro no CadÚnico (Cadastro Único), mas a burocracia é grande e ainda não tive resposta", diz.

“Estou longe da minha família, não tenho ninguém, nenhuma ajuda, estou muito triste por não poder trabalhar e não sei como vou conseguir sobreviver,” desabafa.