São Paulo Secretaria da maior cidade do Brasil pega fogo nos bastidores

Secretaria da maior cidade do Brasil pega fogo nos bastidores

Secretário de Cultura da capital, André Sturm garante que não sairá do cargo

Secretaria da maior cidade do Brasil pega fogo nos bastidores

André Sturm coleciona polêmicas no comando da Secretaria de Cultura

André Sturm coleciona polêmicas no comando da Secretaria de Cultura

Charles Sholl/Raw Image/Estadão Conteúdo - 15.01.2018

A Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo vem pegando fogo nos bastidores desde o ano passado, quando André Sturm assumiu a pasta na gestão João Doria (PSDB).

Entram no leque denúncias de assédio moral, favorecimento de empresa durante o Carnaval, alteração de destinos de emendas, discussões entre funcionários e uso irregular de transportes.

Na última sexta-feira (12), Sturm recebeu uma carta, com diversos assuntos supostamente relacionados a ele e a funcionários da secretaria, entregue em nome da Associação dos Amigos do Centro Cultural São Paulo.

Em entrevista ao R7, nesta terça-feira (16), o secretário explica todos os tópicos e resume os fatos ocorridos como “uma tentativa de realizar a queda da minha gestão”. Mas garante: “Isso não ocorrerá”.

Denúncia 1

A mais recente é a denúncia da assessora de dança de Sturm, Lara Pinheiro. Em um áudio que circula nas redes sociais, a funcionária discute com o secretário na própria sala dele sobre uma viagem feita pelos dois para o Canadá em 2017.

No áudio, registrado no mês de novembro, Sturm diz que não quer mais a companhia de Lara e que iria dispensar a assessora. Ela responde: “Vai alegar o que? Que eu não dei pra você no Canadá?”. O secretário rebate: “Ah, Lara, você se acha muito. Se eu quisesse te comer, Lara…”

Sturm confirma a veracidade do áudio, assim como as duras palavras. “Ela me acusou e o clima ficou tenso. Não dá pra imaginar, só porque eu sou secretário, que eu não tenho sangue quente. Eu concordo que eu falei coisas que não deveria ter falado”, afirma.

Ainda segundo o áudio, Lara diz ter ido a trabalho para o Canadá. “Ah, não foi a trabalho? Então você mentiu pra mim”. Em seguida, o secretário a rebate: “Não foi a trabalho”.

Ao R7, Sturm afirmou que a viagem foi, de fato, a trabalho e mostra um e-mail enviado pela própria Lara ao governo canadense, o qual atesta que a Secretaria de Cultura de São Paulo projeta parcerias e intercâmbios com o Canadá, especialmente com as cidades de Quebec e Montreal.

De acordo com o e-mail mostrado pelo secretário, a viagem ocorreu no dia 3 de novembro de 2017. Uma vez que Sturm disse que foi para trabalho, é obrigatório o registro da atividade na agenda do secretário. No entanto, não há nada lançado no dia referido, tampouco no dia anterior ou no dia seguinte.

A assessora fala no áudio que ela teria ficado com o secretário no mesmo quarto no país canadense. Sturm confirma: “Eu não sei mexer na internet e, na hora, eu marquei apenas um quarto por engano”. O secretário conta que, quando chegou no hotel, pediu outro quarto, mas “não tinha disponível”. A situação se perpetuou por mais “três ou quatro” dias, quando, depois, alugaram um apartamento com dois quartos, onde ficaram apenas uma noite.

O secretário relata que falou com Lara sobre o assunto no último sábado (13). “Eu liguei pra ela e perguntei se ela teria vazado esse áudio. E ela disse que não podia falar sobre o assunto”, conta. A segunda vez que Sturm entrou em contato com a assessora foi no dia seguinte, avisando por mensagem de texto que queria conversar com ela na segunda-feira de manhã.

O advogado de Lara, Augusto Arruda Botelho, informou por telefone ao R7 que não tinha protocolado nenhuma denúncia contra Sturm na Controladoria do município nem na polícia. Disse, ainda, que Lara não sabe como o áudio foi vazado.

Sturm assegura que não irá dispensar a assessora, como comentado no áudio vazado. “Hoje mesmo ela estava aqui na secretaria. Não a vi por motivos de agenda, mas fiquei sabendo que ela veio trabalhar normalmente”, diz.

Denúncia 2

O R7 teve acesso a outras supostas denúncias de duas mulheres contra o secretário por assédio moral. As funcionárias teriam registrado as queixas, mas, após um acordo em que Sturm pediu desculpas, foram retiradas.

Segundo a denúncia, o secretário se reuniu com a equipe uma vez e, após o fim da reunião, teria dito “petistinha de merda” — se referindo a uma das mulheres enquanto ela saia da sala.

O secretário nega as acusações. “Nunca fui processado por duas mulheres. Desconheço esse fato totalmente”, diz.

Secretária Adjunta

Os três primeiros tópicos da carta abordam questões referente à secretária adjunta Marília Alves. O primeiro é que ela teria usado o transporte dado pela Prefeitura para compromissos do seu filho. Marília teria burlado a portaria sobre Transporte de Aplicativo e aditado o contrato para manter as suas benesses, segundo o texto. Sturm nega a ocorrência, dizendo que “nem filho ela tem”.

A secretária teria, também, distratado os motoristas — os chamando de “negrinho” e “chinfrim”. Sturm diz que a alegação é infundada: “É muito pouco provável que ela tenha chamado o motorista de negrinho”. A respeito da segunda palavra, o secretário afirma: “Nós tivemos um problema com a qualidade do serviço prestado e pode ser que ela tenha dito, mas não no sentido de colocar um ser humano como menor, mas o serviço”.

O segundo ponto é ainda referente a conduta inapropriada de Marília. Segundo o texto, a secretaria teria forçado Olga Diniz, funcionária da Secretaria de Cultura, a emitir projetos técnicos direcionados para empresas de ar condicionado — como a servidora não aceitou, teria sido expulsa aos berros de sua sala. Sturm também nega que isso aconteceu.

Vereador Eduardo Suplicy

Outra questão do texto aponta que Marília teria direcionado a emenda proposta pelo vereador Eduardo Suplicy (PT) para a aquisição de móveis para as bibliotecas municipais, sendo que o oferecimento da emenda era exclusiva para a compra de equipamentos destinados a Casa de Cultura de Guaianazes.

O secretário explica que participou do processo: “Eu tinha pedido apoio ao vereador para as Casas de Cultura e ele aceitou mandando R$ 700 mil para a secretaria”. Sturm conta que fez uma ata de preço (em vez de comprar dez itens, a Prefeitura pode comprar até 50, por exemplo). “Chegasse uma emenda, nós poderíamos comprar uma caixa de som”, diz.

Publicaram a ata e o Tribunal de Contas a suspendeu, segundo o secretário. Faltando duas semanas para o fim de ano, o órgão continuou com o embargo. “Mesmo que eu acatasse, não dava mais tempo. A emenda não era para melhorar o equipamento? Nós cumprimos com uma ata anterior, de colocar material nas Bibliotecas”, afirma.

“E em janeiro eu iria ligar para o vereador contando que tínhamos colocado os materiais, mas em diferentes lugares. Em vez de ser na Casa de Cultura de Guaianazes, foi na Biblioteca de Guaianazes”, diz.

Por fim, Sturm diz que esta foi a solução que ele e Marília tiveram para resolver a questão.

Carnaval

O Ministério Público do Estado de São Paulo pediu a suspensão e condenação dos direitos políticos de três secretários de João Doria: Júlio Semeghini, Bruno Covas e André Sturm.

Os suspeitos são acusados de interferir na licitação de contratação do carnaval de 2017. Na ação, a empresa que ganhasse teria o direito da venda de bebida alcóolica e pela propaganda nas ruas da capital paulista. Em troca, daria dinheiro para aquela gestão. A companhia que venceu a licitação foi a Dream Factory.

Naquela ocasião, a Prefeitura negou irregularidades e disse que o procedimento respeitou as leis. Já a empresa, também por meio de nota, disse que está à disposição das autoridades.

Agressão

Em maio de 2017, Sturm ameaçou agredir com um soco na cara um integrante do Movimento Cultural Ermelino Matarazzo, durante uma reunião para discutir a renovação do contrato de parceria entre a Casa de Cultura Ermelino Matarazzo e a Prefeitura.

Por meio de nota, o secretário se desculpou por ter se exaltado. “Durante reunião com agentes culturais me exaltei e usei linguagem inadequada para a posição de secretário. Por esta atitude peço desculpas ao rapaz e a todos os munícipes", explicou.

Renovação de Contrato

A discussão relatada acima contra o ativista aconteceu no dia 29. Na reunião, o Movimento Cultural Ermelino Matarazzo pretendia discutir a renovação de um fomento cultural que recebia da Prefeitura. Sturm indicara que o grupo deveria fazer um procedimento junto à secretaria para formalizar a parceria.

De acordo com o secretário, não havia previsão de orçamento para patrocinar as atividades, embora possa seguir pagando as contas de água e luz da casa. Ele sugeriu que o espaço poderia promover atividades pagas (no máximo 40% do total) e implantar um café, no qual se poderia vender produtos como bolos, coxinhas e refrigerantes.

O contrato não foi renovado. Antes da ocupação do movimento, o imóvel estava abandonado há 20 anos.