São Paulo Sete em cada dez paulistanos acham que racismo se manteve ou cresceu

Sete em cada dez paulistanos acham que racismo se manteve ou cresceu

Pesquisa feita pela Rede Nossa São Paulo, divulgada nesta terça-feira (13), também aborda preconceito racial em estabelecimentos e vagas de trabalho

Em SP, sete em cada dez dizem que racismo se manteve ou aumentou

Pesquisa fala sobre racismo em SP

Pesquisa fala sobre racismo em SP

Eduardo Knapp / Folhapress / 10.11.2006

“Apesar de os pretos estarem em destaque em publicidade e comércio, por exemplo, o preconceito ainda existe. E em São Paulo, de maneira geral, se manteve”, relata o bancário negro Jonathan Maximiano, de 27 anos.

A percepção do jovem é a mesma de 70% dos paulistanos, segundo uma pesquisa da Rede Nossa São Paulo, divulgada nesta terça-feira (13). O levantamento sobre o preconceito racial na capital paulista considera a evolução nos últimos dez anos.

Cerca de 40% dos entrevistados afirmaram que o preconceito se manteve, enquanto 30% reconheceram que aumentou e 25% disseram ter diminuído. Não sabem ou não responderam correspondem aos outros 5%.

A pesquisa ainda separou os resultados por raça. Dos entrevistados negros, 38% disseram que o preconceito se manteve, 39% veem o aumento e 19%, acham que diminuiu. Entre os brancos, 42% informaram que a discriminação continuou, 23% responderam que aumentou, e 29%, diminuiu. 

Leia mais: Sete em cada dez paulistanos se informam sobre a qualidade do ar

Entre os que acreditam que o preconceito racial se manteve, os moradores das regiões sul e centro lideram a pesquisa, enquanto aqueles que moram na zona oeste da capital paulista acreditam que diminuiu.

"Há menos preconceito racial nas regiões mais periféricas, com certeza", avalia o bancário. "Nas comunidades, as pessoas se abraçam. A luta não é de um, mas de todos."

A Rede Nossa São Paulo avaliou também os segmentos sociodemográficos que mais citam o preconceito contra a população negra. Daqueles que consideram que o preconceito aumentou, 42% tem entre 16 e 24 anos, 36% são mulheres, 37% são mais pobres e 35% pertencem à classe C.

Dos entrevistados que responderam que o preconceito se manteve, 46% são homens, 45% tem entre 25 e 34 anos e 45 a 54 anos, 45% estão entre o  mais ricos e 44% pertencem à classe B. Por fim, daqueles que consideram que diminuiu: 33% são os mais ricos, 31% tem 55 anos ou mais e 39% pertencem à classe A.

Veja também: 73% dos paulistanos trocariam carro por transporte público melhor

Tratamento

Avaliados pela entidade, seis dos oito locais avaliados em relação a diferença no tratamento de pessoas brancas e negras é percebida por pelo menos metade dos entrevistados. 66% reconhecem que existe diferença no tratamento em shoppings, estabelecimentos comerciais como lojas, cinemas, restaurantes, bares, mercados e farmácias, 25% disseram que não há desigualdade no trato e 9% não responderam.

No ambiente de trabalho, 62% responderam que existe diferença, 30% negaram e 9% não responderam. A pesquisa também perguntou se isso ocorre na rua e em espaços públicos de convivência como praças e parques: 61% dos entrevistados confirmaram a diferença de tratamento, 30% disseram que não existe, e 8% não responderam. Na escola, faculdades e universidades, 60% acreditam que há distinção, 27% informaram que não, e 12% não responderam.

"As pessoas continuam sendo preconceituosas. Estamos longe ainda de não ter um olhar torto para o negro ou de mudar a calçada quando vê um no período da noite", relata Maximiano.

60% dos entrevistados informaram que há distinção no tratamento de pessoas negras no transporte público, 31% negaram e 9% não responderam. Em hospitais e postos de saúde, 50% reconheceram a diferença, 38% afirmaram a negativa e 12% não responderam.

A entidade questionou também se, no local onde mora, como rua, vila e condomínio, há essa diferença: 45% afirmaram que sim, 44% responderam que não, e 10% não sabem. No ambiente familiar, 25% concordam que existe sim o preconceito, 65% negaram, e 10% não responderam.

Os segmentos sociodemográficos que mais citam a diferença no tratamento são pessoas entre 16 e 24 anos, pertencem a classe C, possuem ensino fundamental, moram na região oeste e tem renda familiar acima de dois a cinco salários mínimos.

Aqueles que responderam que não há diferença na abordagem entre pessoas brancas e negras são pessoas entre 25 e 34 anos e 55 ou mais, com ensino superior, pertencem a classe A, moram na zona central e tem renda familiar acima de cinco salários mínimos.

Confira: Europa sempre foi povoada por diversas etnias, ao contrário do que pensam supremacistas brancos

Oportunidades

A Rede Nossa questionou sobre chances iguais entre brancos e negros e o resultado foi que dois terços dos paulistanos acreditam que as pessoas negras têm menos oportunidades no mercado do que pessoas brancas. 66% dos entrevistados disseram que sim, 27% informaram que são as mesmas e 2% responderam que os negros têm mais chances do que os brancos e 6% não responderam.

Dos entrevistados negros, 73% afirmam ter menos oportunidades, 21% disseram que são as mesmas, 1% informou que possui mais e 5% não responderam. Dos interrogados brancos, 60% disseram que são menos oportunidades para os negros, 32% acreditam que são iguais, 2% informaram que recebem mais chances, enquanto que 6% não responderam.

Segundo a pesquisa, os moradores das regiões oeste e sul são os que mais responderam que pessoas negras têm menos oportunidades no mercado de trabalho do que as brancas.

Mais: Acusados de agredir gay na Paulista terão que pagar multa de R$ 128 mil

Prefeitura de São Paulo

Pouco mais de três quartos da população paulistana avaliam que a administração municipal tem feito pouco ou nada para combater o preconceito e a discriminação em São Paulo. 27% dos entrevistados disseram que o órgão não tem feito nada, 50% informaram que fez pouco, 10% acreditam que o órgão fez muito e 13% não responderam.

“Faz tempo que não vejo uma atitude legal sendo tomada pela prefeitura. Eu conheço pessoas que lutam contra o preconceito racial, mas são independentes. Quem mais ajuda, hoje em dia, é a publicidade, e não o governo", reconhece o bancário. "E algo que eles podem trabalhar é a conscientização, por exemplo."

    Access log