SP: contra racismo, negros querem punição e brancos, debate na escola

44% dos negros e 38% dos brancos veem punição a abuso policial como eficaz, diz estudo. Debate tem apoio de 27% de negros e de 40% dos brancos

Negros e brancos apontam percepções distintas sobre formas de combate ao racismo

Negros e brancos apontam percepções distintas sobre formas de combate ao racismo

Eduardo Knapp/Folhapress - 14.06.2020

O aumento da punição a atos racistas e de injúria racial é a medida de combate ao racismo mais citada como eficaz pelos paulistanos, como indica pesquisa da Rede Nossa São Paulo divulgada nesta quinta-feira (19). Entre outras providências apontadas, o estudo indica diferenças a depender da raça dos entrevistados: punições mais severas a policiais que cometem abusos contra a população negra são mais citadas por pretos e pardos, enquanto brancos mais vezes defendem que o tema seja debatido nas escolas.

A respeito da punição aos abusos policiais contra negros, 44% dos pretos e pardos entrevistados e 38% dos brancos apontaram a medida como forma eficaz de combate ao racismo. Já a inclusão do tema no currículo escolar para fomentar debates nas escolas é citada muito mais pelos brancos (40%) ouvidos pelo estudo do que pelos negros (27%).

A diferença nas medidas apontadas por negros e brancos é emblemática, segundo avaliação do cientista em humanidades e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Dennis Pacheco.

O debate sobre racismo nas escolas é uma medida importante, considera Pacheco, por conscientizar as pessoas para a realidade do problema. Mas em termos da prioridade, prossegue, “acredito que para o negro seja mais importante continuar vivo, ter um direito civil garantido, do que debater nas escolas numa estratégia de médio e longo prazo”.

As avaliações diferentes, segundo o pesquisador, vão de encontro à distinção entre racismo relacional e racismo estrutural – o primeiro diz respeito à forma como as pessoas se relacionam, e o segundo às estruturas hierárquicas de valor e às estratégias de intervenção do Estado sobre determinados grupos. Neste caso, diretamente a atuação da polícia sobre a população negra.

Pesquisadora da Rede Nossa São Paulo, Carolina Guimarães avalia que, por mais que seja de certa forma “ingênuo”, o pedido dos brancos por mais debates sobre o tema nas escolas pode ter um caráter propositivo, apontando à “necessidade de lançar essa pauta nas escolas, pra que consiga criar uma construção social diferente. Porque o preconceito vem de uma construção social negativa sobre os negros”.

A medida se faria importante uma vez que população branca, em sua avaliação, pode possuir poucas referências, históricas ou bibliográficas, “que ajudem a recontar essa história da negritude e reforçar a importância e o valor que construir sociedades mais diversas traz para uma sociedade como um todo”.

Divulgação/Rede Nossa São Paulo

A respeito do pedido, mais comum entre negros, por punições mais severas, a pesquisadora se alinha à avaliação de Pacheco. Os resultados indicam o fato de os negros sentirem na pele o preconceito, avalia, e a necessidade de “buscarem medidas mais fortes, que coloquem em prática o que está garantido por lei, já que muitas vezes existe esse abismo entre o que está na lei e o que é praticado”.

Medida mais citada entre os paulistanos, o aumento da punição a atos de racismo e injúria racial tem números próximos entre os dois perfis: 50% dos brancos ouvidos acreditam na eficácia da medida, e entre os negros, o número é de 47%.

Papel dos brancos no racismo

Divulgação/Rede Nossa São Paulo

Também há pontos de discordância entre brancos e negros em relação ao papel do branco no combate ao racismo.

Mais negros (32%) do que brancos (23%) apontam para a participação de protestos – físicos ou online – em apoio às reivindicações das pessoas negras.

Por outro lado, mais brancos acreditam serem seus papeis se identificar como parte do problema (45%) e intervir em situações de tratamento diferente entre pessoas negras e brancas (43%), enquanto, respectivamente, 37% e 32% dos negros ouvidos citam as mesmas questões.

As avaliações distintas entre brancos e negros, segundo Dennis Pacheco, indicam para a mesma questão citada por ele em relação às medidas de combate ao racismo.

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“Volta à questão [citada acima]. Nos protestos, falamos de mudanças políticas de estratégias de intervenção do Estado. Acredito que os negros tenham uma estratégia de priorização de questões estruturais, que são absolutamente mais emergenciais”, aponta o cientista, que conclui: “é mais importante [para os negros] ter o direito à vida garantido que o direito de igualdade de tratamento”.

Em comum, se informar mais e reconhecer privilégios e o racismo estrutural são as questões quase igualmente apontadas pelos dois perfis em relação ao papel do branco.

Brancos se influenciam por protestos internacionais

Uma das perguntas feitas durante a pesquisa foi a respeito da percepção de cada entrevistado sobre a influência de protestos internacionais contra o racismo, como os que se sucederam após a morte de George Floyd nos Estados Unidos.

Embora o número de pessoas que entendessem que as manifestações internacionais provocassem maior conscientização no Brasil fosse quase igual entre brancos (54%) e negros (53%), um dado se destacou entre os respondentes desta questão.

Em regiões de população predominantemente branca de São Paulo, como a região oeste (63%) e o centro (68%), esta percepção foi muito superior em relação às outras regiões da capital paulista – sul (59%), norte (49%) e leste (48%) –, como observou Carolina Guimarães.

“A sociedade brasileira como um todo precisa muitas vezes de referências de fora para entender o movimento negro aqui. A conscientização sobre o racismo e o preconceito e o racismo precisa vir de fora para estas pessoas se alertarem”, comenta Guimarães. 

Divulgação/Rede Nossa São Paulo

Para a pesquisadora, a pergunta apontou como referências internacionais podem colaborar para o “aumento da conscientização nacional, e isso fica claro nas regiões onde a maior parte da população é branca”.