SP tem de ousar para revitalizar bairros, diz executivo americano

Joe Furst liderou conselho que comandou renovação de bairro de Miami

Joe Furst, em evento sobre urbanismo nos EUA
Joe Furst, em evento sobre urbanismo nos EUA Reprodução/Youtube/The Real Deal Magazine

Responsável pelo conselho diretor à frente da renovação do bairro de Wynwood, em Miami, o executivo do setor imobiliário americano Joe Furst afirma que a capital paulista tem potencial para transformar seus bairros degradados, mas precisa de ousadia.

Em dez anos, Wynwood passou de um local evitado pela população a queridinho de jovens artistas e chefs da cidade da Flórida.

“O pessoal de desenvolvimento de políticas públicas e suas equipes têm muitas ideias criativas [no Brasil], mas o setor privado ainda reluta”, afirma.

O executivo concedeu entrevista ao R7 na semana passada, quando veio ao Brasil para uma série de palestras sobre revitalização urbana organizada pela Embaixada e consulados dos Estados Unidos.

Até dez anos atrás, Wynwood concentrava armazéns e pequenas indústrias abandonadas, além de pequena população e altos índices de criminalidade.

Wynwood era marcado por galpões abandonados
Wynwood era marcado por galpões abandonados BID/WynwoodMiami

Até que uma imobiliária onde Furst também atua viu iniciou um processo para transformar o bairro em um polo cultural e gastronômico. “Nós compramos dezenas de imóveis no bairro e formamos um BID (Distrito de Melhorias para Negócios, em tradução livre) para reunir proprietários e poder dialogar com o governo”, diz.

Sem paralelos no Brasil, BIDs são um modelo recorrente nos EUA. Grandes cidades como Nova York possuem dezenas deles, que funcionam de modo semelhante. Uma taxa extra é cobrada de proprietários e moradores de uma determinada região da cidade, e essa verba é revertida no pagamento de funcionários e membros do conselho, e melhorias em limpeza, saneamento, segurança e formulação de políticas públicas

Outro trabalho feito pelo BID é estabelecer padrões para a construção e reforma dos imóveis da região. Uma iniciativa que para Furst tem potencial para ser executada no país.

— Uma coisa que eu acho que é mais importante no desenvolvimento de bairros é encontrar cenas únicas, de modo que quando você estiver em um determinado lugar, você sabe que está lá, não pode confundi-lo com nenhum outro lugar. E há locais em São Paulo mesmo com essas características históricas e humanas.

Grafite em Wynwood
Grafite em Wynwood BID/WynwoodMiami

Em Wynwood, uma dessas características é a arte urbana, contando até com obras do brasileiro Kobra.

Para ele, os BID são uma solução porque muitas vezes a prefeitura não tem tempo ou foco para cuidar de cada bairro da cidade. “A cidade pode ficar confortável com o que o conselho defende, já que decidimos mais próximos à comunidade”.

Os membros do conselho são eleitos anualmente por votação direta entre os proprietários da região para mandatos de um ou dois anos.

Gentrificação

Furst afirma que em Wynwood, o processo de gentrificação (saída de moradores de baixa renda por causa da alta no preço dos aluguéis), não foi propriamente um problema, já que a região era marcada por galpões abandonados, sem moradores. Mas, em outros bairros, ele afirma que é necessário atenção.

"É uma discussão que precisa ser feita, e tentamos criar alguma política para aumentar o número de imóveis acessíveis", diz. “Hoje, construtoras são incentivadas a construir unidades voltadas para um público abaixo da renda média em troca de benefícios. Mas esse é um sistema imperfeito.”

O bairro à noite
O bairro à noite BID/WynwoodMiami

Ele explica que nos EUA atualmente as políticas buscam evitar a criação de guetos ou bairros exclusivamente ricos ou pobres. “Se você tem 100 unidades em um prédio, o setor privado obtém um benefício adicional se construir 25% por cento dessas unidades para serem acessíveis à população de baixa renda”, explica.

Por lá existem ainda programas do governo de Créditos Tributários de Habitação de Baixa Renda e Créditos de Habitação Acessível para a Força de Trabalho, que são dá às construtoras que criam imóveis à população mais pobre fundos através do governo, em uma iniciativa que Furst diz ser semelhante ao Minha Casa Minha Vida.

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