Suspeita de doença faz enterro ser feito às pressas em São Paulo

Famílias estão sepultando os mortos sem velório e sem ter certeza se as vítimas foram contaminadas pelo vírus, que causa a doença covid-19

Suspeita de doença faz enterro ser feito às pressas em SP

Funcionários de cemitério em Campinas estão utilizando roupas de proteção

Funcionários de cemitério em Campinas estão utilizando roupas de proteção

Wagner Souza/Futura Press/Estadão Conteúdo

A família da aposentada Maria da Conceição Costa, de 73 anos, que morreu com suspeita de coronavírus, em Capão Bonito, interior de São Paulo, no sábado (21), não conseguiu se reunir para a despedida. Por causa da suspeita da doença, o corpo foi apresentado aos parentes em caixão fechado e por um período máximo de duas horas. O mais velho dos nove filhos de dona Concebenta, como era conhecida, mora em São Paulo e não chegou a tempo de acompanhar o sepultamento.

No interior paulista, famílias estão enterrando os mortos com suspeita de coronavírus às pressas, sem velório e sem ter certeza se as vítimas foram contaminadas pelo vírus. Na capital, a covid-19 também já altera a rotina de serviços funerários.

O Instituto Adolfo Lutz, laboratório de referência para exames de contraprova, não dá conta da demanda. Mais de 4 mil amostras estão à espera de resultados, que podem levar de seis a dez dias ou mais para ficarem prontos. O instituto informou que dá prioridade a casos graves e óbitos. Na segunda, o governo anunciou uma rede de testes com 17 laboratórios ligados à USP (Universidade de São Paulo) e apoio do Instituto Butantã, elevando a capacidade para 2 mil exames por dia.

Apenas no interior, até a tarde de ontem, haviam sido notificadas pelas prefeituras 26 mortes suspeitas de coronavírus, mas nenhuma tinha recebido a confirmação oficial. Na maioria dos casos, a coleta de amostras foi feita no dia do óbito ou após a morte, porque quase sempre a internação se dá com o paciente em estado grave. As vítimas são enterradas rapidamente, sem velório, em caixões lacrados.

Em Jarinu, uma mulher de 42 anos morreu com sintomas na noite de sexta-feira. Amostras foram enviadas para o Adolfo Lutz no mesmo dia, mas o resultado ainda não saiu. O corpo foi enterrado na manhã seguinte, no cemitério municipal. Mesmo sem saber a causa, o agente funerário usou máscara e equipamentos de proteção.

No caso de Maria da Conceição, os parentes não se conformam com a quebra de uma tradição: o velório em casa. "Minha sogra era muito conhecida, religiosa e merecia um velório com reza do terço, mas o que teve foi uma coisa fechada", disse a nora Maria Valdirene Queiróz. "Agora, eu, meu marido e nossa filha estamos em isolamento, mesmo sem saber se precisa, pois o resultado do exame não saiu." A coleta foi feita no dia 19, quando a idosa foi internada.

Em Sorocaba, dois morreram com sintomas da doença e foram enterrados sem que as famílias soubessem o que causou as mortes. A prefeitura determinou sepultamento imediato para mortes suspeitas.

A auxiliar de enfermagem Cleide Renata Marques, de 43 anos, moradora de São Vicente, na Baixada Santista, morreu após ficar dez dias internada. Conforme a filha, Bruna Marques, como o quadro era de pneumonia aguda e complicações respiratórias, houve suspeita de coronavírus, mas as amostras só foram colhidas depois que ela morreu. Após sepultamento às pressas, a família entrou em isolamento e ainda espera o resultado do exame.

Conforme o Instituto Adolfo Lutz, o teste diagnóstico não deve ser realizado em pessoas assintomáticas, visando à otimização e uso racional dos testes. "Cabe ressaltar que o teste não afeta o tratamento da pessoa, que é feito apenas do ponto de vista clínico", disse, em nota.

A Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícias Médicas explica que não se recomenda realizar necropsia em cadáveres de pessoas que morreram pelo novo coronavírus, independentemente de serem classificados como investigados, prováveis ou confirmados, exceto em situações clínicas bem fundamentadas e nos locais em que for possível fazer uma análise minimamente invasiva.

Ontem, os três primeiros sepultamentos no Cemitério do Araçá, na capital, foram de pessoas que morreram pelo coronavírus. "Tivemos dois sepultamentos de pessoas falecidas no hospital Sancta Maggiore e um caso do Hospital Metropolitano, da Lapa", informou um funcionário do serviço. "Sem velório, direto para sepultar."

Regras

Conforme a Secretaria da Saúde de São Paulo, as diretrizes para os óbitos foram publicadas no Diário Oficial no dia 20. O texto informa que, uma vez que os corpos podem ser considerados de risco para contaminação e difusão de vírus, as necropsias nos casos suspeitos ou confirmados estão suspensas. "As regras para sepultamento são definidas pelas administrações municipais, seguindo diretrizes do Centro de Contingência." O Município de São Paulo também editou portaria com regras excepcionais para este período de registros de mortes. A covid-19 impede que familiares façam as últimas homenagens aos parentes mortos com diagnóstico da doença.

Itália

Na Itália, com a população confinada em razão da doença, muitos corpos tiveram cremação coletiva, sem a participação dos parentes.

Em Bérgamo, cidade da Lombardia, no norte do país, causaram intensa perplexidade imagens que mostraram uma longa procissão de carros blindados do Exército retirando 70 caixões que se acumulavam no cemitério local, sem ninguém para fazer o sepultamento. Na Sicília, 48 pessoas foram multadas por terem participado de uma procissão fúnebre.

Na China, no auge da pandemia, os restos mortais de pessoas infectadas tinham de ser cremados no local mais próximo.