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São Paulo 'Tem que reabrir e tentar se virar', diz dono de restaurantes em SP

'Tem que reabrir e tentar se virar', diz dono de restaurantes em SP

Empresários veem delivery insuficiente, falta de financiamento e expectativa de movimento fraco. Restaurantes podem receber público a partir de hoje

  • São Paulo | Gabriel Croquer*, do R7

Restaurante na Vila Olímpia, em São Paulo, se prepara para reabertura.

Restaurante na Vila Olímpia, em São Paulo, se prepara para reabertura.

Ronny Santos/Folhapress- 25/06/2020

Após mais de três meses fechados os restaurantes da cidade de São Paulo finalmente poderão voltar a operar a partir desta segunda-feira (6). Com a evolução da cidade de São Paulo à fase 3 amarela, a região poderá também reabrir bares já a partir desta segunda-feira (6), com a expectativa de autorizar a volta de cinemas, teatros e eventos até o final deste mês.

Leia mais: Com apelo ao governo, prefeitura de SP reabre bares e restaurantes

Porém, a reabertura está longe de representar um “novo normal” aos estabelecimentos do setor.  Para voltar a funcionar, os restaurantes em São Paulo terão que adotar uma série de restrições de horário e atendimento, além de novos protocolo de segurança que devem impactar as vendas. Os restaurantes poderão abrir por 6h diárias, até às 17h de cada dia, e terão que operar atendendo no máximo 40% da clientela, entre outras medidas.

Ainda mais, o estado de São Paulo, continua em quarentena, o que deve diminuir muito o movimento nos locais. A própria prefeitura de São Paulo recomenda que os estabelecimentos evitem ao máximo a presença de clientes.  

Mesmo com a preocupação causada pela pandemia e das novas regras diminuírem o movimento a ponto da reabertura gerar mais prejuízos para os estabelecimentos, alguns empresários relatam que já vão reabrir a partir de segunda.

“Não vejo muita opção. Tem que reabrir, com todos os protocolos de higiene e segurança, fazer delivery, etc, e tentar se virar. Provavelmente será preciso readequar o tamanho da equipe”, diz Vitor Sapolnik, responsável pela rede Café Latte, com cinco unidades no centro e na zona sul de São Paulo.

Carlos Beutel, dono de um restaurante vegetariano Afpel, no centro da capital, diz que não se sente seguro ainda para reabrir nesta semana. Com um fundo reservado, ele optou por esperar para analisar o movimento após a reabertura: “acredito que vai ser bem razoável. Vou esperar, não vou abrir logo na segunda, vou observar a semana que vem porque vou começar a fazer entregas também”.

Em pesquisa realizada no início de junho com 300 restaurantes e bares da capital paulista, a unidade de São Paulo da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) previu que até o final do ano 40% dos estabelecimentos devem fechar. O relatório mostra que o setor ainda sofre com pouquíssimo acesso ao crédito e insuficiência do delivery.

A porcentagem que representava nossa folha de pagamento perante nosso faturamento era de 22%. Hoje eu faturo 20% [do que faturava antes] então eu não conseguiria segurar, ficar pagando salário dos funcionários porque eu não estou faturando nem para isso. Além disso tem o aluguel, tem o IPTU, que o prefeito não deu nenhuma isenção ou desconto

Gabriel Pinheiro, dono da pizzaria Villa Roma

Sem crédito para reabrir

Entrevistados pelo R7, empresários do setor afirmaram que não conseguiram obter crédito e relataram dificuldade de outros colegas para conseguir financiamento do Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte) disponibilizado pelo governo federal por meio de bancos.

“Financiamento é fundamental. Tão importante quanto reabrir, seria obter financiamento para repor estoque, para chamar funcionário, para pagar divída, para enfim, gerar o mínimo de viabilidade e tranquilidade para o estabelecimento”, afirmou Percival Maricato, presidente da Abrasel de São Paulo.

Sem dinheiro em caixa, alguns restaurantes ainda não têm nem condições financeiras para arcar com os custos de uma reabertura. 

Segundo Maricato, somente 12% dos restaurantes em São Paulo conseguiram alguma espécie de crédito desde o início da pandemia. Em nota, a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) afirmou que já cedeu R$ 100 bilhões a micro e pequenas empresas do Brasil, mas reconheceu que “demanda por novos financiamentos ainda não foi plenamente atendida”.

O presidente da Abrasel também mencionou como uma das prioridades para garantir uma reabertura efetiva a estabilidade das medidas estaduais e municipais sobre o isolamento social.

No interior do estado a reabertura dos restaurantes já falhou e todas as regiões estão hoje na fase 2- laranja ou na fase 1- vermelha da pandemia. Desde a metade de junho, diversas regiões foram obrigados a fechar o comércio com a piora da pandemia e a insuficiência do sistema de saúde, pouco mais de duas semanas após terem permissão do governo estadual para reabrir, com a classificação na fase 3 do Plano São Paulo.

A sanção da Medida Provisória 936, que estabelece a suspensão de contratos e a redução de jornadas e salários, também é aguardada com ansiedade pelos restaurantes para manter os empregados sem maiores prejuízos financeiros.

Delivery

Mesmo com a reabertura, a prefeitura recomenda que os estabelecimentos devem evitar ao máximo a presença de clientes, dando preferência às vendas online. O delivery, porém, ainda não se provou como uma alternativa aos negócios, segundo relataram os donos de restaurantes.

“Reabrimos há três semanas, somente para delivery e retirada. Não estamos vendendo nem 10% do faturamento pré-covid”, disse Vitor Sapolnik. A pesquisa da Abrasel-SP também mostrou que os conflitos com aplicativos de entregas, que já geraram uma manifestação de entregadores na semana passada, também se mostram como empecilho para o trabalho dos bares e restaurantes.

Dos associados entrevistados que trabalham com delivery,  80% reclamaram de taxas abusivas e da retirada pelas plataformas dos estabelecimentos do sistema de entrega em horários de grande movimento. A pesquisa ainda mostrou que 26,5% dos estabelecimentos não trabalham com o sistema de entregas.

O dono da pizzaria Villa Roma, Gabriel Pinheiro, era um dos que não trabalhava com o sistema, mas se viu obrigado a aderir. “A gente começou uma semana antes do fechamento do comércio porque era nossa única alternativa. A gente tem uma pizza que tem uma característica diferente, é uma massa muito crocante então nunca acreditamos no delivery dela”, explicou.

Três meses depois operando exclusivamente no modelo de entragas, o faturamento da pizzaria continua em 20% do que era na época pré-pandemia. Pinheiro chegou a obter um selo de higiene auditorado por especialistas para potencializar as entregas on-line, que ainda não deu retorno. Ele afirmou que deve voltar pelo menos até o meio desta semana às atividades presenciais, enquanto finaliza o treinamento dos funcionários e repõe os estoques.

Para a cidade de São Paulo evoluir de fase na pandemia e poder abrir restaurantes e bares com menos restrições, a capital terá que evoluir à fase 4 verde do Plano São Paulo. A previsão do governo estadual é de que o estado permita grandes eventos e outros atividades com aglomerações a partir do dia 12 de outubro.

Porém, os danos causados pela pandemia não devem ser resolvidos logo. O mercado estimou, em maio deste ano de que a economia brasileira pode recuar em 3,75% neste ano. O Banco Mundial prevê que a queda de até 8%. 

“Este ano vai ser um ano difícil, o ano todo, porque depois de todas essas etapas de abertura, com muita restrição ao cliente e falta de dinheiro e de reservas das empresas, nós vamos ter recessão”, finalizou Percival Maricato.

*Estagiário do R7, sob supervisão de Ingrid Alfaya

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