São Paulo Terapia com cavalos ajuda a tratar crianças e idosos na periferia de SP

Terapia com cavalos ajuda a tratar crianças e idosos na periferia de SP

Projeto criado em 2015 já atendeu mais de 200 pessoas a preços populares. Iniciativa surgiu após fechamento de clínica que atendia na região

  • São Paulo | Brendo Silva*, do R7

Espaço atende pacientes entre dois e 70 anos

Espaço atende pacientes entre dois e 70 anos

Divulgação/ Esperança Equoterapia

Crianças, adultos e idosos com doenças crônicas e deficiências físicas e mentais contam com serviços de equoterapia a preços populares no Jardim Fujihara, na periferia da zona sul de São Paulo. Mais de 200 pessoas com síndrome de Down, autismo, paralisia, síndrome de West e outras condições já receberam os cuidados da iniciativa. 

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O Esperança Equoterapia foi criado em 2015, a partir da necessidade de atendimento a pacientes que perderam a rotina de tratamento após o fechamento de uma antiga clínica local. Daniela Gatti, psicóloga e idealizadora da iniciativa, era funcionária da clínica. Depois do pedido de algumas mães de pacientes, deu início ao projeto com o apoio de familiares e amigos da área da Saúde.

Os atendimentos costumam ocorrer uma vez por semana e contribuem com o desenvolvimento de pacientes de 2 a 70 anos. O tratamento é pensado individualmente, de acordo com cada caso, 

Os pacientes são atendidos a partir de prescrições médicas, pois o tratamento com os cavalos não é recomendado para qualquer pessoa. “Atualmente são atendidos pacientes com síndrome de down, autismo, com doenças degenerativas e paralisia cerebral. A gente não costuma atender pacientes com câncer, com desvio de coluna muito grande ou com problemas cardíacos.”

Há, no entanto, pacientes, com problemas degenerativos agudos que, apesar de recomendados a evitar o tratamento com os cavalos, decidem encará-los - ainda que isso possa custar alguns dias de vida. “É o sonho da pessoa. Ela sabe que não tem muitas expectativas de vida e quer fazer para realizar esse sonho, não como uma terapia”, conta a psicóloga.

O projeto recebe uma ajuda de custo de cada paciente, para auxílio nos gastos com a manutenção do espaço. São cerca de R$ 250 mensais. Clínicas convencionais costumam cobrar preços entre R$ 700 e R$ 1.000. 

Como funciona o tratamento

O projeto Esperança Equoterapia conta com a colaboração de uma fisioterapeuta e uma psicóloga, além de universitários de diferentes áreas da saúde, como fonoaudiologia, fisioterapia e educação física. 

Resultados costumam aparecer de foram rápida durante o tratamento

Resultados costumam aparecer de foram rápida durante o tratamento

Divulgação/ Esperança Equoterapia

Daniela conta que os resultados do tratamento são nítidos. Pacientes que ao início do tratamento tinham a necessidade de acompanhamento durante as montarias, por exemplo, conseguem montar sozinhos após algumas sessões. “Vai de paciente para paciente, depende muito da patologia e do grau de deficiência. Geralmente, em menos de seis meses nós já conseguimos ver resultados”.

“A passada do cavalo é 98% semelhante a do ser humano. Quando colocamos uma criança cadeirante em cima do cavalo, o cérebro dela entende como se ela estivesse andando. Então, o cérebro faz todos os ajustes posturais, age no fortalecimento muscular, em sinapses neurológicas, além de ajudar no processo de ramificações neurais, a partir da movimentação do cóccix e quadris.”

O tratamento também traz benefícios psicológicos . “O cadeirante sempre vai ver as coisas de baixo para cima. Quando eu coloco um deles em cima de um cavalo, ele olha todos de cima. Isso fortalece sua autoestima”.

Equoterapia durante a pandemia

O projeto passou por dificuldades com o início da pandemia de covid-19, e a organização temeu não conseguir retornar com as atividades após a quarentena.

Daniela conta que alguns pacientes regrediram durante a pausa no tratamento. “Os pacientes voltaram muito mais debilitados. Pacientes com problemas motores voltaram com casos mais agravados, pacientes autistas voltaram um pouco mais retraídos e a gente teve que começar uma readequação”. O projeto foi retomado em agosto, seguindo protocolos de segurança contra o coronavírus.

A pandemia não só afetou a rotina dos atendimentos, mas também a disposição dos pacientes. O Esperança Equoterapia atendia cerca de 80 pessoas por mês antes do início da quarentena, no mês de março.

Após a retomada, o passou a receber cerca de 50 pacientes mensalmente. “Muitos pararam de vir por medo, alguns tem pais idosos e precisam pegar condução. Alguns pais são autônomos e perderam muito, acabam não tendo condições de pagar e, como a ‘Equo’ também entrou em baixa, nós não conseguimos ajudar”, lamentou a psicóloga.

Impacto

Após negativas e recusas de clínicas em São Paulo, Juliana de Oliveira Heleno, autônoma e moradora do Ipiranga, na zona sul, entrou com liminar na Justiça para conseguir ajuda na busca pelo tratamento da doença de seu filho, Acauã Gonçalves.

Acauã faz sessões de equoterapia todos os sábados, há quase dois anos

Acauã faz sessões de equoterapia todos os sábados, há quase dois anos

Divulgação/ Esperança Equoterapia

Acauã tem hemofilia tipo A grave, doença de Von Willebrand e apresenta características muito semelhantes a pacientes com paralisia cerebral, devido a sequelas deixadas por uma cirurgia para a retirada de um coágulo no cérebro. A mãe conta que o jovem de 21 anos é cadeirante, e que seus 1,70 cm e 60 kg muitas vezes foram empecilhos para que clínicas o aceitassem nos tratamentos.

Segundo Juliana , o tratamento com a equoterapia faz muita diferença na vida dela e principalmente na de seu filho. Ela conta como a pausa no tratamento, durante o período de pandemia, fez com que Acauã regredisse em alguns aspectos. As partes motora e psicológica foram bastante afetadas, o que faz a mãe ressaltar a importância na rotina de sessões e por mais espaços acessíveis com tratamentos a partir da equoterapia.

“Ele estava totalmente agressivo, gritava. Nada estava bom, e isso me deixava exausta também. Ele não dormia direito. Com a volta, ele está bem mais tranquilo e conseguindo até comer melhor. Desde que entrou, ele melhorou muito em termos de equilíbrio, em termos de ‘sim e não’”.

*Estagiário sob supervisão de Clarice Sá

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