Uber desativa motorista após ela se recusar a levar passageiro negro

Segundo vítima, a motorista chegou ao local mas recusou a viagem, alegando que não correria riscos e não podia saber se jovem era um bandido

Ioannis Casarini, de 18 anos, estava acompanhado da mãe

Ioannis Casarini, de 18 anos, estava acompanhado da mãe

Arquivo Pessoal

A Uber desativou a conta de uma motorista após receber denúncia de racismo por parte dela contra o jovem Ioannis Casarini, de 18 anos. Ele afirmou ter tido sua viagem recusada da comunidade Jardim Jaqueline, na zona oeste de São Paulo, após a condutora do veículo afirmar que não "estava tatuado" na testa do jovem se ele era "bandido ou não".

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Na última sexta-feira (26), Ioannis pediu o serviço por meio de uma amiga, já que o seu CPF não é aceito no cadastro da plataforma. A amiga pediu o Uber, que chegou por volta das 20h no local onde o jovem mora. Ao lado de sua mãe, que também aguardava a motorista, ele foi até o veículo para iniciar a viagem, mas não foi bem recebido.

"Minha mãe percebeu que ela estava reagindo a um assalto, e disse: 'pode levar ele, ele não é bandido não'", relatou Ioannis ao R7. "E aí ela [a motorista] se revoltou. Ela estava com um tom de voz muito agressivo mesmo. Um olhar de desprezo. Não queria nos ouvir. Tudo baseado no preconceito dela. E aí ela disse que não estava escrito na minha testa se eu era bandido ou não."

Ioannis contou que ainda insistiu para conseguir ser transportado, mostrando mensagens com a amiga que havia pedido o serviço por ele e o dinheiro que ia utilizar para pagar a viagem. Não deu certo. "Ela saiu acelerando fechando o vidro dizendo que era pra chamar outro Uber já que nós achamos ridículo", disse. 

Em nota, a Uber confirmou o desligamento da motorista mas ressaltou, que apesar de qualquer preconceito ser injustificável, "as contas de usuários são pessoais e não podem ser emprestadas a outras pessoas ou utilizadas para chamar viagens para terceiros". 

"Eu só sei que se aqui é 'area de risco', ela aceitou porque quis. Passageiro não escolhe o motorista, né? O motorista que escolhe a viagem, para ela chegar assim toda violenta parecendo uma policial racista. As vezes que eu pedi quase sempre eram moradores da favela mesmo. Já aconteceu também de não ser, mas nunca fui tratado assim", explicou Ioannis.  

Problemas com registro da denúncia

Depois de enfrentar problemas para registrar o boletim de ocorrência na internet, o jovem ainda não tem certeza se vai à polícia pessoalmente.

"Como aqui é favela, o CEP meio que não vai muito bem. Minha mãe foi alugar um ponto, que estou trabalhando com ela para montar. Eles [dono do ponto] disseram que não tinha número, que era para a gente inventar um número e botar lá. Aí quando fui fazer um boletim na internet daqui, não carregou. Deu inválido", relatou a vítima. 

Iannis diz que tem medo de ter mais problemas para registrar a denúncia pessoalmente. "Fiquei meio intimidado de fazer, porque eu sei como eles tratam as pessoas vítimas de racismo, assédio. Não tem voz, a palavra não vale". 

Em nota, a Uber afirmou que assim que receberam a denúncia, entraram em contato para prestar o apoio necessário e desativaram a motorista da plataforma. "Sabemos que o preconceito, infelizmente, ainda permeia a nossa sociedade e que cabe a todos nós combatê-lo. A empresa também está à disposição para colaborar com as autoridades responsáveis para investigação do caso", finalizou a Uber. 

É muito triste ver como os estereótipos de ser negro da favela levam as pessoas pensarem coisas absurdas, sem embasamento. Fiquei muito mal, atacou minha ansiedade, não dormi bem nenhum desses dias. Deu até tensão de dor nas costas. Nunca tinha acontecido algo assim
Ioannis Casarini, 18 anos

*Estagiário do R7, sob supervisão de Paulo Guilherme