São Paulo Um terço dos paulistanos não percebe pessoas com deficiência

Um terço dos paulistanos não percebe pessoas com deficiência

Segundo estudo da Rede Nossa São Paulo, grupo relata problemas de acessibilidade nos transportes públicos, ruas e calçadas da cidade

Avenida Paulista é um dos únicos pontos de fácil acesso para a estudante Natália

Avenida Paulista é um dos únicos pontos de fácil acesso para a estudante Natália

Arquivo pessoal

Muitos paulistanos costumam, por hábito, consultar a internet para chegar a um determinado destino na cidade. A estudante de design Natalia de Oliveira Hipolito, de 21 anos, é obrigada a pesquisar o trajeto na internet, pelo menos, duas vezes antes de sair. A primeira para conhecer o caminho previamente. A segunda para verificar se o local que pretende chegar tem buracos e problemas nas calçadas. "Esse é o principal motivo que me impede de chegar aos lugares sozinhas."

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Quando se arrisca pelos trajetos não são poucos os obstáculos que enfrenta. "Às vezes tenho que ir pelo meio da rua ou esperar até que alguém me ajude." Isso porque Natalia é cadeirante e, segundo uma pesquisa divulgada nesta terça-feira (4) pela Rede Nossa São Paulo, não é notada por um terço dos paulistanos em espaços públicos.

O estudo aponta que pessoas com deficiência não são percebidas por uma parte da população da cidade especialmente em espaços como o transporte público. Essa parcela, segundo o levantamento, é percebida pelos paulistanos majoritariamente em espaços de saúde, como postos e hospitais.

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A pesquisa mostra também que a maior dificuldade relatada por pessoas com deficiência no que diz respeito à acessibilidade em São Paulo são os buracos e problemas, como a falta de guias de acesso, em calçadas. Na pesquisa, 57% dos entrevistados afirma que considera ruim ou péssima a acessibilidade em ruas e calçadas. Segundo o estudo, meios de transporte como trens e metrô são descritos como mais acessíveis.

Rotina de obstáculos

Natalia quase não tem horários livres durante o dia. Acorda cedo para trabalhar em Santo Amaro e no Paraíso, do estágio segue para casa, na zona norte, e de lá vai para a faculdade. Hoje, a estudante utiliza vans adequadas para pessoas com deficiência da Prefeitura e do Governo do Estado. Mas quando não consegue utilizar os veículos apropriados o trajeto é repleto de intercorrências.

Há duas semanas, ela não conseguiu fazer o caminho que faria normalmente pela estação Tucuruvi do metrô. "Na hora em que fui descer, o elevador estava quebrado. Um funcionário me aconselhou a retornar três estações para ficar próxima do elevador estava funcionando", diz. O problema é que, como a grande maioria dos paulistanos, Natália também tem horários para cumprir. "Nesse dia, tinha de estar em casa às 18h30 para ir à faculdade. Cheguei somente às 19h, minha sorte foi que mandei mensagem para o transporte me esperar e deu certo", relata.

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De acordo com a pesquisa da Rede Nossa São Paulo, 15% da população paulistana tem algum tipo, convive no dia a dia ou tem relação com pessoas com deficiência. Já os demais 84% não possui ou não convive com essa parcela. "Foi possível perceber que o preconceito em relação às pessoas com deficiência vem, em grande parte, de quem não tem convívio com o grupo. Quem vive de forma mais próxima tem o olhar humanizado", afirmou Américo Sampaio, gestor de projetos do Nossa São Paulo.

O estudo, segundo Sampaio, joga luz sobre a invisibilidade desse grupo e sobre a precarização do acesso a determinados espaços. "O transporte público é o local onde existe mais contato", diz ele. Ao mesmo tempo, a pesquisa revela que 33% dos paulistanos tem contato com pessoas com deficiência apenas em espaços de saúde. "Em espaços positivos, elas não são vistas", afirma Sampaio.

"Em horários de pico, existe zero percepção em relação a nós."
Natália Hipólito, cadeirante

Natalia nasceu com distrofia muscular e sempre precisou utilizar uma cadeira de rodas para se locomover. Com a experiência de quem transita pelas ruas da cidade diariamente, ela afirma que em horários considerados de pico os trajetos quase impossíveis de serem realizados. "Nesses momentos, existe zero percepção em relação a nós. Em outros horários ou finais de semana as pessoas oferecem ajuda e perguntam."

Calçadas e transportes

Calçadas são obstáculos às pessoas com deficiência

Calçadas são obstáculos às pessoas com deficiência

Edu Garcia /R7

A estudante coleciona histórias de dificuldades de acesso em ônibus e calçadas, principais itens relatados na pesquisa da instituição. "O que mais acontece é ficar presa no elevador dos ônibus, outras vezes, eles estão quebrados ou ainda os funcionários não tem a chave para fazê-los funcionar ou não sabem como operar", diz ela. "Também acontece de a cadeirante não ficar bem presa ao ônibus."

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Quando o elevador do transporte está quebrado todo o planejamento de quem precisa se delocar pela cidade é prejudicado. "Várias vezes dou sinal para a van e o elevador não funciona. Preciso esperar o próximo." 

Ainda são poucos os espaços do município que Natália pode frequentar e com tranquilidade. "Só consigo andar sozinha na avenida Paulista, mas quando vou para alguma rua adjacente já não consigo andar. Isso porque minha cadeira é motorizada", diz. "Na rua embaixo da minha, as calçadas tem buracos e não possuem guias de acesso. Acabo dando um jeito." 

O grande problema é que "dar um jeito", muitas vezes, significa andar sair das calçadas e andar com a cadeira de rodas na rua, o que expõe pessoas com deficiência a situações de insegurança. "Quando os trajetos são muito longos, prefiro sempre ir com alguém para me sentir mais segura."

Acesso dificultado

O estudo da Rede Nossa São Paulo apresenta propostas para melhorar a acessibilidade na cidade. Entre elas, adaptar calçadas, ruas, semáforos, pontos de ônibus, destinar veículos e vagões adapatados, ampliar o atendimento na rede pública especializada e aumentar a inclusão em espaços culturais e de lazer. 

Natália costuma frequentar com certa facilidade parques e shoppings com rampas de acesso. Porém, afirma que, como pessoa com deficiência, ainda se surpreende ao ver mais de duas pessoas nessa mesma condição em espaços de lazer. "Em bares e baladas é muito difícil ver pessoas com deficência, se não houver muita força de vontade, a pessoa fica em casa."

No caso dela, essa não era uma opção. "Sou apenas uma pessoa com deficiência e não uma deficiência em pessoa", diz. "Nunca deixei de fazer o que tive vontade."

Ainda mais invisíveis

Pessoas com deficiências intelectuais também enfrentam dificuldades de acesso a espaços públicos na cidade. “Existem barreiras urbanísticas, de comunicação, transportes e tecnológicas”, afirma Anna Beatriz Leite, assessora de advocacy da APAE de São Paulo.

Segundo ela, essa parcela de pessoas com deficiência está ainda mais sujeitas a invisibilidade social. “É difícil perceber a deficiência intelectual quando ela não está associada a alguma outra deficiência física. Isso porque ela não está atrelada um estereótipo”, explica. “Ainda é comum que esse grupo ainda sofra muito preconceito, por exemplo, na hora de pedir informação no transporte público.”

Para Anna Beatriz, falta uma sinalização mais acessível nos espaços públicos. “A cidade não possui uma comunicação em símbolos ou tecnologias que ajudem a melhorar a autonomia de pessoas com deficiência intelectual”, diz. “Todas as políticas para esse público precisam ser inclusivas e não para manter a lógica da exclusão. As barreiras não estão nos indivíduos, estão na sociedade e na cidade, pensando nas especificidades dos indivíduos.”

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