Vídeos indicam contradição da PM sobre morte de jovem em SP

Policiais foram filmados matando um jovem em comunidade da zona leste de SP. Testemunhas afirmam que autor de gravação foi 'sequestrado'

Após morte, diversos PMs do Choque foram à comunidade

Após morte, diversos PMs do Choque foram à comunidade

Reprodução

Depoimentos de policiais militares sobre a ação que resultou na morte de um jovem no Jardim da Conquista, periferia da zona leste de São Paulo, na noite da última quinta-feira (2), apontam contradições na versão oficial sobre o caso.

Os policiais do 5º Batalhão de Choque, o Canil da PM, foram filmados matando Carlito Lopes Santos, de 18 anos, em uma das travessas da comunidade. A ação foi gravada por um morador da região e o caso registrado na 5ª Delegacia de Repressão a Crimes contra Crianças e Adolescentes, do DHPP (Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa), da Polícia Civil, como resistência, homicídio, porte ilegal de arma de fogo e roubo.

O caso aconteceu por voltas das 19h20 e, pouco menos de duas horas depois, o vídeo dos policiais militares atirando no jovem já havia se tornado público. Quando a PM teve conhecimento da circulação das imagens, testemunhas afirmam que a residência do autor do vídeo foi invadida e o rapaz levado por policiais sem nenhuma explicação aos familiares.

Questionado sobre o possível sequestro, o porta-voz da PM, tenente-coronel Emerson Massera, informou ao R7, no início da madrugada desta sexta-feira (3), que o autor do vídeo havia sido levado como testemunha e "estava sendo ouvido no DHPP (Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa)".

No entanto, no registro na Polícia Civil, o cabo Celso Luís Mancio Guia, da 1ª Companhia do Canil da PM, disse que o morador da região que filmou a ação policial teria se prontificado a entregar as imagens quando fosse solicitado.

Conforme o registro da ocorrência, o autor da filmagem não esteve na delegacia, portanto, não foi ouvido, contrariando a informação inicial da Polícia Militar. Questionado sobre essa contradição, o porta-voz disse que a PM está apurando junto ao DHPP.

Conforme informações publicadas por amigos e familiares nas redes sociais, o autor do vídeo foi pego por policiais por volta das 21h e ficou desaparecido. O caso foi apresentado na Polícia Civil à 0h10, quase cinco horas depois da ocorrência, e foi finalizado às 5h48.

Cerca de duas horas depois de a Polícia Militar dizer erroneamente que o autor do vídeo estava sendo ouvido pela Polícia Civil, o rapaz usou a rede social para acabar com o “alvoroço” e disse que “estava errado, mas estou bem”.

Na publicação feita às 2h59, o rapaz ainda afirmou que nunca se sentiu tão vivo e exaltou o batalhão dos policiais militares que mataram Carlito na porta de sua casa: “Parabéns as equipes da Rota e o Canio, me trataram como um futuro companheiro de farda, em momento algum tive medo dos PMS! Pq eu deveria temer alguém que juro sob continência que me defenderia? [sic]”.

O R7 apurou que o rapaz chegou em casa cerca de uma hora depois da publicação. A reportagem não conseguiu contato com o autor do vídeo nem com seus familiares.

Versão da PM

Quase 10 horas e meia depois da ocorrência, o delegado Nelson Teixeira Lacerda Júnior finalizou o boletim de ocorrência. No registro, há apenas a versão da Polícia Militar para a ocorrência. 

Conforme a versão oficial para os fatos, os policiais militares estavam em patrulhamento pela região quando receberam via Copom (Centro de Operações da Polícia Militar) informações sobre o roubo de um Ecosport prata.

Em contato com o casal vítima, a mulher (que não se apresentou à Polícia Civil) teria dito que o celular dela também havia sido roubado, e o marido afirmou que o localizador do aparelho apontava onde estava.

Durante a busca, os PMs teriam localizado o veículo em uma travessa na comunidade, indo em direção oposta à viatura policial. O cabo Guia, responsável por depor à Polícia Civil, disse que o jovem se assustou e bateu a Ecosport em um outro veículo. 

Ainda conforme o policial militar, após bater o carro, o jovem desceu do veículo, usou a porta como escudo, apontou uma arma para os policiais militares e gesticulava como se fosse atirar. Nesse momento, segundo a versão oficial, o tenente Danilo Wagner Bezerra e o cabo Júlio César de Souza Magalhães desceram da viatura e teriam ordenado que Carlito se rendesse.

Após supostamente recusar a se render, o jovem teria novamente gesticulado que atiraria contra os policiais, e os PMs Bezerra e Magalhães, então, atiraram contra o jovem. O depoimento policial ainda aponta que, mesmo baleado, o rapaz continuou em pé e com parte do corpo para dentro do veículo. O vídeo contradiz esta versão.

Segundo o relato do policial militar no DHPP, o tenente deu a volta no carro e foi avisado que o rapaz baleado seguia armado. Então, Bezerra efetuou outro disparo, que que teria desarmado Carlito.

Mesmo depois de ter sido baleado pelo menos três vezes, o cabo que depôs ainda diz que o jovem pegou outra arma que estava no chão do carro e foi alvo de mais um disparo do tenente Bezerra. Somente neste momento o jovem caiu. As imagens também contradizem a versão policial, pois mostra o jovem dentro do carro (vídeo acima) e somente depois dos disparos que o rapaz está caído ao chão (vídeo enviado para PM, mas não publicado por conter cenas fortes).

Os PMs teriam chamado o resgate que constatou óbito no local. Nenhum policial militar se feriu na ação. O cabo Pedro Pires de Deus ficou com a responsabilidade de preservar o local dos fatos. A Polícia Civil solicitou a presença imediata da perícia e solicitou exame necroscópico em Carlito.

Investigadores da Polícia Civil conseguiram pelo menos três câmeras de segurança na via onde aconteceu a morte e outras duas imagens de circuito de segurança em vias próximas. Os policiais também identificaram outras testemunhas que devem ser ouvidas no decorrer das investigações.

A reportagem também acionou a Ouvidoria de Polícias do Estado de São Paulo, que disse que vai acionar o DHPP, a Corregedoria da PM e o Ministério Público “para que investiguem a sequência de acontecimentos”. Disse ainda que vai instaurar ainda nesta sexta-feira (3) um procedimento para acompanhar as investigações.