São Paulo Violência em bailes funks reflete falta de apoio cultural em comunidades 

Violência em bailes funks reflete falta de apoio cultural em comunidades 

Para músicos e especialistas em direitos humanos, crimes não surpreendem periferia

Violência em bailes funks reflete falta de apoio cultural em comunidades 

MC Daleste levou um tiro enquanto se apresentava

MC Daleste levou um tiro enquanto se apresentava

Reprodução/Facebook

A morte do MC Daleste em Campinas e o assassinato de uma pessoa na saída de um baile funk em Diadema, na Grande São Paulo, expuseram a violência que é comum para quem vive nas periferias e favelas do País. Mais do que isso: tais incidentes deixam expostos os conflitos entre a população mais carente, aquela que se sente representada pelo funk e o rap, e o Estado.

Segundo o MC Leonardo, apelido do funkeiro Leonardo Pereira Mota, os crimes que viraram notícias em São Paulo nesta semana colocam em xeque a política pública para as comunidades da periferia. Presidente da Apafunk (Associação dos Profissionais e Amigos do Funk) no Rio de Janeiro e um dos responsáveis pela trilha sonora do filme Tropa de Elite, ele vê a violência como reflexo da carência de apoio governamental para a cultura carente.

— Em São Paulo a gente sabe que só se faz um evento com alguém que se responsabilize por tudo, por água, trânsito, segurança, etc. Se ninguém faz isso, não se faz nada. Não é viabilizada por parte dos governos qualquer parceria para que o Estado se faça presente nas comunidades. Sem isso, você alimenta separações dentro da própria periferia por grupo, cor, estilo, dentro do gueto, algo que só potencializa rixas. Em um piscar de olhos qualquer coisa pode acontecer, como em um show, por exemplo.

A perspectiva acompanha aquela de quem trabalha diariamente com a cultura do subúrbio, aquela marginalizada pela grande mídia. Para o frei David Santos, diretor executivo da ONG Educafro (Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes) e especialista em Direitos Humanos, os crimes em bailes funk acabam sendo fruto da própria negação dos governos em valorizar a cultura comunitária.

— Muitos funkeiros e músicos verdadeiros denunciam, por exemplo, a violência da polícia contra a juventude, notadamente a negra. Sabemos que o MC Daleste cantava contra isso, e se a polícia interpreta como um incentivo ao revide, então daremos margem para existência ou surgimento de ‘marginais de farda’.

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A suspeita de um crime de vingança, com possível envolvimento de policiais, foi levantada por familiares e amigos de MC Daleste, mas sem qualquer comprovação. A Polícia Civil de Campinas não descarta nenhuma hipótese, mas já ouviu mais de 14 pessoas e ainda não divulgou detalhes a respeito da possível autoria do assassinato do cantor de 20 anos.

Na opinião de MC Leonardo, é equivocada a visão de que shows de qualquer gênero musical na periferia ou favelas são fadados a terminar em violência, ou que a preocupação com a segurança é algo secundário para produtores. O músico com mais de duas décadas de serviços prestados à cultura das comunidades carentes vê crimes como a morte de Daleste com outro olhar.

— Toco com o meu irmão há mais de 20 anos e já pegamos todo tipo de problema, dentro e fora do Rio. Já nos apresentamos nas piores condições, mas nunca precisamos ter medo, independente de tocarmos em favela, prisão ou qualquer outro lugar. É preciso ressaltar que não é responsabilidade da cultura a educação, ela acaba sendo sim o termômetro de como vai a educação no nosso País. Vejo isso que aconteceu muito mais como algo simbólico, como se fosse para calar uma voz vinda da periferia. Seja quem for o autor, não vai conseguir calar a voz das ruas.