Vítimas relatam problemas com atendimento psicológico em Suzano

Para psicóloga e presidente de associação, atendimentos de menos de 20 minutos e falta de retorno à mãe de vítima fatal são ‘inadmissíveis’

Ainda há insatisfação por parte das vítimas de Suzano (SP) sobre os atendimentos

Ainda há insatisfação por parte das vítimas de Suzano (SP) sobre os atendimentos

Edu Garcia/R7

Passados seis meses do massacre que terminou com dez mortes na E.E. Raul Brasil, em Suzano, uma queixa ainda é comum entre vítimas e familiares que viveram o ataque e seus desdobramentos: o atendimento psicológico.

Após o dia 13 de março, as solicitações por atendimentos tiveram um aumento exponencial, porém previsível. A cidade, que até então contava com número reduzido de profissionais, recebeu ajuda do governo do estado com mais 47 psicólogos. No entanto, até julho as filas de espera ultrapassavam as centenas de pessoas.

Hoje, com a situação normalizada – segundo posicionamento da prefeitura, as filas estão zeradas –, ainda há insatisfação por parte das vítimas. Membro da comissão criada pelos pais de alunos da escola do Alto Tietê, Liliane de Oliveira contou à reportagem do R7 a situação vivida por Winnie, sua filha.

“Ela recebeu atendimentos por pouco mais de um mês. Ficava só de 18 a 20 minutos nos atendimentos. Ela nem gostava de ir porque não tinha comunicação. Não conseguia interagir com a psicóloga, porque em 18 ou 20 minutos ninguém se abre. ‘Que tratamento é esse?’, fiquei pensando. Veio a psicóloga do Caps infantil na minha casa. Conversaram comigo, falaram que ela ia passar pela psicóloga e pela psiquiatra do Caps para fazerem uma avaliação dela e decidir se precisaria continuar e qual o tipo de tratamento. E o que houve? Ela fez e até agora ninguém me ligou”, relatou Liliane, que disse ainda que há outras mães incomodadas com problemas similares e algumas que não recebem mais atendimento psicológico.

Entre as não atendidas está Kelly Limeira, mãe de uma vítima fatal do massacre. Descontente com o primeiro atendimento recebido, ela não buscou o segundo, mas afirma que tampouco a procuraram.

“Quase que eu tive que dar o atendimento à psicóloga. Digo isso porque ela não conseguia falar comigo. Estava quase chorando. Pensa na situação. Pra mim não era mais interessante voltar. Ficaram com meu número, porque agendariam outras consultas, e nunca me ligaram. Também não fui atrás”, disse a mãe – e completou: “As pessoas falam que foi uma situação que pegou a cidade de surpresa, mas eu não concordo. Acho que esse tipo de profissional está aí realmente para agir nesse tipo de situação.”

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Presidente da Associação Brasileira de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através dos movimentos oculares), uma abordagem terapêutica reconhecida pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e que trata sequelas provocadas por transtorno de estresse pós-traumático, a psicóloga Ana Lúcia Castello esteve em Suzano com sua equipe para realizar um trabalho voluntário com as vítimas, que começou em julho e, com duas visitas por mês, deverá ocorrer até dezembro.

Para ela, situações como as de Kelly e Liliane “são inadmissíveis e de um total descaso com o ser humano. Atendimento psicológico em situação de violência urbana em 18 a 20 minutos é um desrespeito às vítimas e seus familiares”.

Após massacre, procura por atendimentos aumentou exponencialmente

Após massacre, procura por atendimentos aumentou exponencialmente

Edu Garcia/R7

Ana contou ainda que “o que me impressionou é que as pessoas de cargos altos da área da saúde da prefeitura e do governo nem conheciam o EMDR, que hoje é a abordagem utilizada no mundo inteiro para Programas de Ajuda Humanitária psicológica, inclusive reconhecida pela OMS com classe A para tratamento destes distúrbios. Faltou da parte dos órgãos competentes conhecimento de quais as melhores formas para este tipo de tratamento”.

Foi com o tratamento dos profissionais do EMDR, inclusive, que Liliane enxergou uma melhora com Winnie: “Ela passou com o EMDR e teve um melhor resultado. Ficaram com ela quase três horas: uma em grupo, no início, e depois ela foi para o individual, onde ficou duas horas. Deu um melhor resultado do que nos outros”.

Psicóloga com pós-doutorado em luto, emergências e desastres, do Instituto de Psicologia da USP, Elaine Alves esteve na E. E. Raul Brasil durante os primeiros meses do processo e garante que o trabalho dentro da escola foi bem feito.

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“Fiquei até o final de junho. Dentro da Raul Brasil teve psicólogo todo tempo desde o dia do tiroteio até o início de julho. Eu tinha uma equipe lá e mais duas outras equipes num trabalho bastante organizado pela Secretaria Estadual de Educação. Semanalmente a secretaria fazia reuniões às terças com as equipes que estavam lá. As equipes apresentavam os trabalhos feitos. Cada psicólogo levava as fichas de encaminhamento aos Caps. E elas estavam sendo chamadas pelo Caps, sim. Mas de maneira alguma essas pessoas deixaram de ser atendidas. Os Caps atenderam o que foi possível e fizeram o máximo possível”, disse Elaine, que afirmou que “lá na escola não faltou absolutamente nenhum psicólogo”.

Ela comentou ainda que, “ao final do semestre, haverá uma nova avaliação para saber como estão as vítimas. Não foi uma situação comum o que aconteceu ali. Dentro do possível, as demandas estão sendo atendidas”.

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Perguntada se todas as vítimas foram atendidas e ainda havia espera por primeiros atendimentos, a Prefeitura de Suzano garantiu que as filas foram zeradas: “De acordo com a Rede de Atenção Psicossocial, da Secretaria de Saúde de Suzano, 268 pessoas que tiveram relação direta ao ocorrido receberam atendimentos individuais, além de mais 74 em atendimentos em grupo, 22 receberam atendimento por meio de busca ativa, 28 foram atendidas em visitas domiciliares e mais 18 por telefone. Destes, 210 permanecem recebendo nossos atendimentos. Vale destacar que não há fila de espera. Todos os cidadãos que procuraram a prefeitura foram atendidos”.

Quase que eu tive que dar o atendimento à psicóloga
Kelly Limeira

Sobre as filas para atendimentos, que chegavam a quatro centenas de pessoas em julho, Ana Lúcia Castello pôs em dúvida a afirmação da prefeitura e afirmou que os solicitantes não deveriam esperar mais de quatro meses. “Não se atende 1.500 pessoas com um pequeno grupo de psicólogos. O período para atendimento deve ser depois de dois, três meses, a memória se consolida e fazemos o reprocessamento destas piores memórias”, explicou ela, que prosseguiu: “Não creio que estas filas estão zeradas”.

Posicionamento da Prefeitura de Suzano

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde de Suzano, o atendimento às famílias do caso da Escola Estadual Professor Raul Brasil contou com profissionais da rede municipal e de voluntários, como do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Estadual Paulista (Unesp) - autorizados pelo Governo do Estado de São Paulo. Só na rede municipal, pelo menos 15 psicólogos estiveram de prontidão para o atendimento das demandas da cidade e também das geradas a partir do caso Raul Brasil. Vale destacar que a prefeitura vem apoiando desde o primeiro momento a todas as famílias atingidas pela tragédia. Inclusive, a pasta colocou à disposição da comunidade toda a sua rede de saúde mental, com acompanhamento contínuo.

A reportagem do R7 voltou a procurar pela Prefeitura de Suzano, questionando o posicionamento do município sobre os relatos de Kelly e Liliane, sobre a diminuição de quase metade das vítimas (200 de 410) que deixaram de seguir em tratamento psicológico e sobre o posicionamento em relação ao relato de Ana Lúcia Castello, que afirmou sobre o desconhecimento das autoridades sobre o método EMDR – esta última também foi enviada à Secretaria Estadual de Saúde. Até a publicação desta reportagem, não houve respostas.

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