100 dias da quarentena em SP: o medo da covid-19 passou?

Isolamento decretado no estado jamais atingiu taxa prevista de 70%. Especialistas explicam por que população não aderiu ao confinamento

Especialistas explicam por que população não aderiu totalmente ao confinamento contra a covid-19

Especialistas explicam por que população não aderiu totalmente ao confinamento contra a covid-19

ANDERSON LIRA/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO - 22/05/2020

Cem dias e mais de 14 mil mortos desde que o governador João Doria decretou quarentena em São Paulo para combater o novo coronavírus, a taxa de isolamento  no estado jamais chegou ao marco de 70%  indicado como o ideal pelo Centro de Contingência do Coronavírus.

Apesar de ser a principal medida de prevenção à epidemia, o distanciamento social nem sempre é uma possibilidade para os brasileiros que atuam em trabalhos presenciais ou informais, que abrigam a família em menos de três cômodos ou sequer possuem onde morar. Mas, mesmo entre a população que pode ficar em casa, os primeiros três meses da quarentena contaram com um apanhado de episódios, como reuniões em condomínios, festas clandestinas e falta de cuidados com às máscaras. 

"Não é que tenhamos perdido o medo da covid-19, mas estamos em um momento confuso e de muita ambivalência de informação", é o que explica Henrique Bottura, diretor da Clínica Psiquiatria Paulista e colaborador do ambulatório de impulsividade do Hospital das Clínicas de São Paulo. "Os ânimos e polarizações intensas também contribuíram para que tivéssemos dificuldade de entender o que é mentira e o que é verdade."

A dissonância de informações apontada pelo psiquiatra também é tese do psicólogo Steven Taylor, da Universidade Columbia Britânica. No livro "A psciologia da pandemia", o especialista explica que “se o público não confiar em seu líder ou nas autoridades de saúde, não fará o que elas dizem”. 

Ainda segundo Bottura, o fator de adaptação à uma nova realidade também entra na equação psicológica daqueles que adotaram menos restrições na quarentena. 

"A vida se comporta de determinadas formas diantes de ameaças, seja com um leão ou uma pandemia. Esse processo de reação vai se adaptando de acordo com a evolução do fator ameaça. Frente a isso, podemos, em alguns momentos, afrouxar os nossos cuidados como forma de se adaptar ao contexto de medo e às nossas necessidade. Outros elementos entram como o tédio, a falta do que fazer, a paciência se esgotando. A somatória desses elemntos vão justificar como as pessoas escolhem se expor ou não."

Comportamento de manada 

Da mesma maneira que no início da pandemia, os estoques de papel higiênico se esvaziaram rapidamente nas prateleiras do supermercados, a população agora passa por um processo de "imitação" do relaxamento, é o que explica Caroline Carvalho, psicóloga clínica e professora do curso de psicologia da Anhanguera Niterói: "Observar outras pessoas na rua provoca um comportamento de imitação". 

"A pessoa vive uma dualidade quando sai de casa e encontra as ruas lotadas. É um reforço positivo que esse ser humano está tendo para que possa burlar isso, mas também é muito comum relatarem sentimentos de culpa depois que saem", explica a psicóloga. 

Confinamento e luto

De acordo com Caroline, as incertezas causadas pela epidemia também contribuem com comportamentos mais impulsivos, e o processo pode ser comparado com os cinco estágios de luto, conceito definido em 1969 pela psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross 

"Estamos em um processo de negação e reconfiguração da nossa forma de viver", explica. "O fato é que não sabíamos o que íamos viver quando fomos colocados nessa situação. Viver isso por tanto tempo sem previsão que termine fa com que as pessoas comecem a burlar essas regras por não aguentarem mais." 

Não poder fugir da ideia de morte física também é um fator de estresse, defende o psicólogo e doutor em Neurociência Cognitiva Yuri Busin. 

"Toda a ideia de futuro foi mudada da noite para o dia. Nessa quarentena, as pessoas entenderam que são mais vulneráveis e têm menos controle do que gostariam. Estamos esbarrando todos os dias com a finitude da vida", explica Busin, que chama atenção para a explosão de buscas por atendimento psicológico durante a temporada. "Assim como falar sobre a morte carregava um tabu, os cuidados com o bem estar psíquico também. Esse é um momento em que a psicologia se provará ainda útil para a sociedade", conclui. 

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