100 dias de quarentena em SP: como fica a saúde com a falta de sol?

O sol é responsável por ativar a produção de vitamina D no corpo e regular os hormônios que controlam o sono; recomendação de exposição é controversa

Sem sair há mais de 100 dias, Amanda toma sol na varanda uma vez por semana

Sem sair há mais de 100 dias, Amanda toma sol na varanda uma vez por semana

Arquivo pessoal

Nesta quarta-feira (1º), São Paulo completa 100 dias de isolamento social. Diante dessa quarentena devido à pandemia de covid-19, tomar sol pode ser difícil para quem mora em apartamento. A exposição solar é responsável por ativar a produção de vitamina D no corpo por meio da pele, essencial para a saúde, conforme afirma o endocrinologista Francisco Bandeira, da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia).

Ele explica que a vitamina é responsável pela mineralização dos ossos e absorção do cálcio. O tecido ósseo é constantemente renovado e a mineralização é a parte de reconstrução do osso. A falta da vitamina pode levar ao raquitismo (mineralização insuficiente dos ossos por falta de vitamina D na infância), osteomalácia (a mesma doença quando ocorre na fase adulta) e osteoporose (ossos fracos e quebradiços).

O pediatra Tadeu Fernando Fernandes, da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), ressalta que os banhos de sol são importantes, pois essa vitamina não está disponível em quantidade suficiente nos alimentos.

“Na alimentação, por exemplo, sabemos que há vitamina D no bife de fígado, mas para ter as quantidades adequadas seria preciso comer 1 kg de bife de fígado diariamente.”

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O endocrinologista aponta que, quando os sinais de que a vitamina D está a abaixo do normal aparecem, a pessoa já está em estado crítico. “São dores nos ossos, tanto quando aperta os ossos quanto espontâneas, e fraqueza muscular. Além disso, dificuldade de se levantar. Mas isso só ocorre quando está o nível está abaixo de 15 nanogramas por ml, sendo que o ideal são 30 e deficiência é abaixo de 20.”

Pessoas com bons níveis de vitamina D possuem melhor resposta imunológica, afirma Bandeira. Segundo ele, existem receptores para a vitamina no sistema imunológico e evidências de melhor desempenho frente a infecções virais.

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“Nós não temos dados sobre o novo coronavírus especificamente, mas sabemos em relação a outras viroses, infecções respiratórias na infância, hepatite B e C. Por isso, é recomendado que os níveis de vitamina D estejam adequados frente à pandemia.”

Além disso, o sol ajuda a regular os hormônios melatonina e cortisol, responsáveis por controlar os ciclos do sono. “Quando está claro, você produz o cortisol que dá mais ânimo e, quando está escuro, a melatonina prepara para dormir.”

A falta de iluminação natural pode causar distúrbios do sono e depressão, bem como o excesso de luz de telas, de acordo com o médico. “Em países em que o inverno é muito rigoroso e o sol aparece meio-dia e se esconde quatro da tarde, os índices de depressão são maiores.”

Para ajudar com esse efeito, ele recomenda abrir as janelas ao acordar e ir diminuindo o uso da luz artificial no fim da tarde, para que o corpo perceba que está anoitecendo.

“Para modular o sono, não é necessário ter exposição direta, apenas a claridade já adianta.”

Amanda Dystyler, 21, estudante de Ciências Sociais e do Consumo, está sem sair de casa desde o dia 12 de março. Ela conta que em seu apartamento, em São Paulo, ela possui uma varanda que bate sol, mas que não tem o hábito de frequentar o ambiente, indo apenas aos finais de semana.

“Estou tomando bem menos sol na quarentena, pois tomava indo para a faculdade a pé ou em praças, quando saia. Percebo que, às vezes, estou mais cansada, mas entendo que, não ter a possibilidade de sair livremente e caminhar em um lugar naturalmente ensolarado é diferente de olhar pela janela e ver um clima chuvoso, escuro, quase sem luz a maior parte do dia,” diz ela, comparando com uma experiência que teve ao viver na Suécia, onde no inverno, o clima é hostil e as horas de luz são reduzidas.

"Na época, eu tomava suplementos de vitamina D, com recomendação médica, e saia sempre que podia”, acrescenta.

Tomar sol é bom ou ruim para a saúde?

Ainda existem controvérsias em relação à exposição ao sol para a produção de vitamina D. Fernandes afirma que 10 minutos diários pela manhã já são suficientes e reitera que, diante da situação de pandemia, não é recomendado sair de casa para tomar sol. “Caso o apartamento não tenha incidência solar direta, será necessário fazer a suplementação.”

Por outro lado, Bandeira afirma que a suplementação deveria ser feita em quaisquer circunstâncias já que existem mais malefícios da exposição solar do que benefícios. “Principalmente em um país como o nosso, em que os níveis de radiação são muito altos e existe o risco de câncer de pele.”

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Bandeira afirma que qualquer índice de raios ultravioletas acima de 3 já é lesivo para a pele. “Em São Paulo, em julho, no inverno, o índice estava 3 às 14h. Aqui em Recife, às 7 horas da manhã o índice UV já era 7.”

Segundo o endocrinologista, não é seguro recomendar a exposição solar e o ideal é fazer a suplementação via oral da vitamina D em todas as fases da vida. Fernandes explica que a suplementação na infância é uma diretriz internacional de pediatria.

“Como forma de prevenção, nós suplementamos com 400 unidades para menores de um ano e com 600 para maiores, por dia, pois existe uma deficiência dessa vitamina em toda a população.”

Bandeira acrescenta que toda exposição deve ser feita com filtro solar e o protetor pode diminuir a produção de vitamina D. “Ainda não temos estudos conclusivos em relação a isso, mas alguns já apontaram que isso ocorre. Além disso, a pele cria mecanismos de defesa contra os raios UV e, com o tempo, a sua produção diminui.”

Segundo ele, uma pesquisa realizada em Recife, com usuários do SUS (Sistema Único de Saúde) mostrou que 70% da população tinham níveis de vitamina D abaixo do considerado ótimo e 20% apresentavam deficiência.

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“20% é muita coisa, ainda mais em um público na qual a maior parte não utiliza carro e teria uma exposição ainda maior ao sol.”

Segundo o médico, a suplementação com a dose adequada não traz riscos para a saúde e consegue ser metabolizada normalmente pelo organismo. “Ja, se a pessoa tiver uma intoxicação por vitamina D por conta de doses muito altas, o efeito demora a passar, pois ela se acumula no tecido adiposo.”

A intoxicação por vitamina D pode causar insuficiência renal, pois que aumenta os níveis de cálcio no sangue e em consequência, na urina. A dose adequada, de acordo com ele, é de mil unidades para adultos e duas mil para pessoas maiores de 50 anos, por dia, com recomedação médica.

*Estagiária do R7 sob supervisão de Deborah Giannini

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