Marília Mendonça

Saúde Acolher e falar a verdade é melhor forma de ajudar crianças em luto

Acolher e falar a verdade é melhor forma de ajudar crianças em luto

Marília Mendonça deixou filho de quase 2 anos. Especialistas ressaltam que pequenos não entendem morte e apoio é essencial

  • Saúde | Carla Canteras, do R7

Marília Mendonça deixou o filho Leo, que também terá de enfrentar o luto

Marília Mendonça deixou o filho Leo, que também terá de enfrentar o luto

Reprodução Instagram @mariliamendoncacantora

Além de trazer dor aos fãs, amigos e familiares, a morte de Marília Mendonça, na última sexta-feira (5), trouxe preocupação com o pequeno Léo, filho da cantora com Murilo Huff — daqui a pouco mais de um mês, no dia 16 de dezembro, ele vai completar 2 anos.

Falar com as crianças sobre morte e entender as formas de luto vividas por elas são questões importantes, principalmente nos dias atuais, quando o mundo vive uma pandemia. Segundo a Arpen Brasil (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais), até o mês passado o país tinha mais de 12 mil crianças de até 6 anos órfãs de um dos pais devido à Covid-19.

Nas redes sociais, Huff falou das dificuldades que enfrentará para criar o filho. "Talvez esse pequenininho correndo aqui na sala me ajude a enfrentar sua falta. Ou talvez ele me faça sentir mais falta ainda, porque ele é sua cara. Eu não sei. Eu tô perdido. Mas te prometo que eu vou encontrar o caminho e vou cuidar dele, com todas as minhas forças", escreveu o cantor no Instagram.

A psicóloga Elaine Di Sarno, do Hospital das Clínicas, da USP (Universidade de São Paulo), explica que as crianças não têm uma compreensão exata do que é a morte, mas falar a verdade a elas é fundamental.

"Até os 3 anos de idade, não se entende ou compreende a morte na sua totalidade. Então, a conversa tem de ser mais lúdica, mas não pode é criar expectativa de que a pessoa vai voltar, porque isso não existe. A conversa deve ter dados da realidade. Também não é interessante falar que a pessoa vai aparecer em sonho, porque a criança tem muita fantasia e pode querer dormir para a pessoa voltar", alerta Elaine.

A psicóloga Gabriela Luxo, especialista em distúrbios do desenvolvimento, acrescenta. "A morte é um conceito subjetivo e às vezes ela é muito repentina, sem [dar tempo] que a criança consiga elaborar que o familiar estava mal e poderia morrer. Só a partir dos 6 anos as crianças conseguem entender melhor a morte, porque conseguem entender que existem o eu e o outro", explica Gabriela.

Acolhimento e honestidade

O acolhimento das crianças quando elas quiserem falar sobre a pessoa que morreu e a honestidade de sentimentos adultos, sem esconder a tristeza aos pequenos, são formas de ajudar os pequenos a aceitar a nova realidade.

"O principal é mostrar à criança que ela não será abandonada, que tem alguém que vai dar acolhimento a ela. Uma criança bem cuidada não é necessariamente cuidada pelos pais biológicos. O importante é que ela tenha pessoas próximas que vão ajudá-la a contornar a situação", pontua Gabriela.

"Temos de acolher a criança e proporcionar a ela um ambiente em que possa expressar a emoção, já que ainda não sabe nomear alegria, tristeza, angústia, ansiedade. Se o adulto estiver chorando, é importante explicar que o choro é de saudade, tristeza. Precisamos mostrar que ficamos tristes em algum momento da vida, mas que um dia [isso] melhora. Não negar nem ficar rindo como se nada tivesse acontecido. Até porque as crianças são muito observadoras e percebem o ambiente", observa a psicóloga.

Pequenas ações no dia a dia

Algumas medidas no dia a dia podem auxiliar nesse momento, como fazer leituras de livros sobre o assunto para crianças e deixar que elas mesmas, se quiserem, façam parte dos rituais após a perda de um familiar.

"Deixar que a criança decida se quer participar da missa, velório, não é o caso, porque as crianças não entendem e [isso] não é relevante. [Assim como não é o caso que elas decidam participar] do ritual de guardar coisas da pessoa, de tirar de casa roupas e pertences [de quem faleceu]. Se a família faz uma oração junta, deve chamar a criança para participar. Ela vai entender que está acolhida, apesar de todos os adultos estarem tristes", orienta Elaine.

Quando procurar ajuda profissional?

Assim como os adultos, alguns pequenos podem ter mais dificuldade de superar a perda, e a ajuda de profissionais é necessária. "Sempre que a criança apresentar um comportamento diferente do padrão dela, é importante procurar ajuda. Toda regressão ou comportamentos que ficam mais intensos [são sinais de que] é necessário buscar ajuda. Mesmo que a criança seja muito pequena, porque os profissionais também conseguirão auxiliar os cuidadores sobre a melhor forma de agir", diz Gabriela.

A perda é difícil para todos, e a percepção e a dor das crianças não podem ser negligenciadas. "Não foram só os adultos que perderam uma pessoa que amam, as crianças também. Elas não podem ser esquecidas, porque são inteligentes, observadoras e percebem que está todo mundo triste e chorando", conclui a profissional do HC-USP.

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