Ainda jovem, homem descobre câncer de próstata por alergia

Maioria dos diagnósticos é feita em idosos; gerente recebeu notícia aos 47

Souza descobriu o câncer de próstata aos 47 anos
Souza descobriu o câncer de próstata aos 47 anos Arquivo Pessoal

O câncer de próstata costuma ser diagnosticado em homens com mais de 60 anos. Porém, no caso do gerente Cesar Aparecido de Souza, de 47, a má notícia chegou há poucos meses. Ele conta que exames de sangue já o haviam alertado sobre a doença aos 35, mas ele não se preocupou.

— O índice do PSA [exame de sangue] já estava um pouco alterado. Na época, o médico me passou o medicamento para abaixar, mas não voltei lá. Só retornei com 42 anos, e o PSA estava mais alto. Ele me passou o remédio novamente, mas deixei quieto. Não me importava porque nunca senti nada.

Seis em cada dez casos de câncer de próstata são diagnosticados em homens com mais de 65 anos, sendo raro antes dos 40 anos, segundo dados da SBU-SP (Sociedade Brasileira de Urologia de São Paulo). A incidência da doença em homens entre os 20 e 30 anos é de apenas 2% a 8%.

A alteração do PSA não significa câncer de próstata, mas pode ser um indicativo para que o paciente fique atento. Apesar de o gerente ter tido alterações muito jovem, a recomendação dos médicos é de que os homens façam os exames de rotina anualmente depois dos 50 anos — no caso de homens negros ou dos que têm histórico familiar, a orientação é a partir dos 40.

Morador de Bauru, no interior de São Paulo, Souza conta que não sabia que exista câncer de próstata e que só voltou ao médico em abril deste ano por causa de uma alergia no pênis. Exames de rotina e a biópsia detectaram a doença em estágio inicial.

— Quando o médico fala que você tem um câncer, isso assusta muito. Você fica roxo porque é uma doença associada à morte. Mas optei por fazer a cirurgia ao invés da radioterapia para retirar a próstata, até por causa da chance de cura. Sempre confiei muito no meu médico e tive sorte de encontrar bons profissionais.

Souza passou pela cirurgia de retirada da próstata há pouco mais de 15 dias. Ele explica que o único incômodo é para dormir e ir ao banheiro.

— Nem vi a cirurgia, não senti nada. Agora é o dia a dia. Estou usando fralda e tenho que reeducar o meu organismo para conseguir dar tempo de ir ao banheiro. Após isso, preciso vencer a impotência sexual, porque só vai funcionar com remédio e estou ciente disso. Com o tempo, vou conseguir me recuperar e voltar quase ao normal. Isso mexe um pouco com a cabeça da gente, mas vamos deixar mais para a frente porque quero a cura.

No dia 1º de dezembro, Souza irá fazer o primeiro PSA após a cirurgia, que deverá ser realizado a cada três meses durante um ano. Se os exames se manterem estáveis, significa que ele não vai estar mais com a doença. Entretanto, é necessário fazer exames de rotina a vida toda, já que o câncer pode voltar.

Fatores de risco

O urologista e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo Luis Gustavo Toledo explica que um dos principais fatores de risco é “ter um irmão, pai ou parente próximo que tiveram câncer de próstata. ”

—[Além disso] os homens negros têm em torno de três a quatro vezes mais chance de desenvolver o câncer do que o homem branco que não tem nenhum familiar com a doença.

Inclusive, Souza, que é negro, sabe bem desse fator de risco e já incentiva o filho de 25 anos a começar a fazer os exames de rotina.

— Os homens não sabem o que é o exame de PSA. Eu já falei para o meu filho para fazer os exames quando tiver 35 anos, ainda mais que o homem negro faz parte do grupo de maior risco de ter câncer de próstata.

Como lidar com as complicações

Souza se recupera da cirurgia de remoção da próstata
Souza se recupera da cirurgia de remoção da próstata Arquivo Pessoal

O urologista explica que as consequências mais comuns do câncer são disfunção erétil (impotência sexual), incontinência urinária e infertilidade, mas algumas podem ser revertidas com o tempo.

— 100% dos pacientes tratados do câncer de próstata ficam inférteis. Em geral, a incontinência melhora depois de um ano. Depois deste período, entre 5% e 10% dos pacientes ainda ficam com o problema. No caso da disfunção, também há melhoras no primeiro ano, mas depende de doenças associadas e da idade do paciente. Quanto mais velho, mais difícil a recuperação.

No caso de Souza, a infertilidade não foi uma preocupação, já que o gerente fez a vasectomia aos 23 anos, logo após o nascimento do filho.

— Não tinha medo de ficar infértil. Eu fiz vasectomia muito cedo. Me programei para ter um filho só. Agora, já estou curtindo a netinha.

Homem descobre câncer após fugir de exame de próstata por anos

​* sob supervisão de Dinalva Fernandes