Saúde Atingir pico da pandemia não muda problema do Brasil, diz ex-secretário

Atingir pico da pandemia não muda problema do Brasil, diz ex-secretário

Wanderson de Oliveira foi responsável por plano inicial de enfrentamento da covid-19 no país na gestão de Mandetta no Ministério da Saúde

  • Saúde | Fernando Mellis, do R7

Wanderson foi secretário de Vigilância em Saúde até maio deste ano

Wanderson foi secretário de Vigilância em Saúde até maio deste ano

Edu Andrade/Fatopress/Folhapress - 31.3.2020

Logo que o Brasil se preparava para enfrentar a pandemia da covid-19, em meados de março, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, falava em "20 semanas duras" pela frente. Passada a maior parte desse período, o responsável por traçar o cenário do que estava por vir no Brasil, o agora ex-secretário de Vigilância em Saúde da pasta, Wanderson de Oliveira, avalia que as previsões feitas naquela época estão se confirmando. 

Em entrevista ao R7, Oliveira, enfermeiro e doutor em epidemiologia, adverte que atingirmos o pico da pandemia não quer dizer necessariamente que a situação está melhor.

"O fato de o pico ser agora não vai mudar o problema. Vai apenas dizer que a gente está em uma tendência de queda. Mas o morro é tão alto, que mesmo estando caindo, posso cair de cabeça e sofrer um dano maior."

Uma das estimativas feitas por ele foi de que a situação da pandemia no Sul do país se agravaria com a chegada do inverno, pelo fato de que aquela região tem uma sazonalidade de vírus respiratório característica desta fase do ano.

Estados como Santa Catarina e Rio Grande do Sul já começam a ter uma pressão no sistema hospitalar devido ao aumento de casos.

"Eu sempre falei do deslocamento para o Sul do país. Apesar disso, havia naquele momento um ceticismo em relação a um componente de sazonalidade relacionado ao vírus e que está se provando o contrário: que o vírus apresenta uma relação temporal com essas condições, muito parecido com outros vírus respiratórios."

Para o ex-secretário, que integrou o Ministério da Saúde por cerca de 19 anos, até maio deste ano — sendo um ano e cinco meses chefiando a secretaria —, ainda há problemas na contabilização do número de infectados pelo novo coronavírus.

Além das dificuldades de sistemas da própria rede pública, o Ministério da Saúde ainda não tem uma plataforma abrangente para receber dados da rede privada.

Oliveira diz que, com isso, os números não refletem a realidade e que esses obstéculos acabam "impactando na qualidade do registro".

"Existe um atraso na atualização dos testes, na atualização dos registros. Muitos casos que são confirmados ou que evoluíram para o óbito, potencialmente, estão acontecendo, mas a gente só vai saber daqui duas ou três semanas. Essa questão de olhar para o dado em tempo real é um desejo ainda inalcançável na saúde pública."

Leia abaixo a íntegra da entrevista do ex-secretário Wanderson de Oliveira:

Vamos para cinco meses desde o primeiro caso de covid-19 no Brasil. Algo mudou neste meio tempo em relação ao que era visualizado lá atrás quando vocês começaram a planejar ações contra a pandemia no país?

Na prática, não. A gente tem acertado as previsões com muita precisão. Eu sempre falei do deslocamento para o Sul do país. Apesar disso, havia naquele momento um ceticismo em relação a um componente de sazonalidade relacionado ao vírus e que está se provando o contrário: que o vírus apresenta uma relação temporal com essas condições, muito parecido com outros vírus respiratórios.

Falando da região Sul, houve erro de cálculo? Fecharam cedo demais e reabriram no momento em que deveriam ter fechado?

Eu acho que alguns lugares, sim. Se você pegar as capitais, que têm algum trânsito internacional, não. São municípios que recebem turistas de todo lado. As capitais ficaram em um pé de igualdade muito parecido, tirando obviamente São Paulo e Rio. A temporalidade para esses locais é praticamente igual.

Movimentação no centro de Florianópolis nesta terça (21)

Movimentação no centro de Florianópolis nesta terça (21)

Eduardo Valente/Ishoot/Estadão Conteúdo

Municípios menores, a não ser que fossem polos, como polos frigoríficos de Chapecó, Concórdia, que teve muito surto de covid entre trabalhadores, esses também tinham que fazer medidas mais restritivas para poder entrar em um serviço que desse conta da demanda.

Já outros municípios que não se enquadram nestas duas situações poderiam ter aguardado mais. Eu acho que teve muito movimento de manada. Um prefeito viu o outro fechando e aí tinha que fechar também, sem fazer uma avaliação de risco adequada à realidade dele.

Teve município do Nordeste que não tinha nada e as pessoas estavam em isolamento. Ocorreram excessos. Vamos ter que aprender muito. Esses excessos precisam ser evitados. O difícil não é fechar, o difícil é abrir.

Pode-se falar em pico ou platô em alguma localidade no Brasil?

Nós estamos no cume da montanha. Agora, se essa montanha tem mais algumas pedras elevadas, que para a gente chegar ao ponto mais alto tem que subir, ainda é cedo para dizer.

Estamos no período do inverno, em que mais ocorrem doenças respiratórias. Eu creio que daqui a duas ou três semanas, teremos esse retrato do que aconteceu em julho muito mais claro.

Existe um atraso na atualização dos testes, na atualização dos registros. Muitos casos que são confirmados ou que evoluíram para o óbito, potencialmente, estão acontecendo, mas a gente só vai saber daqui duas ou três semanas.

Essa questão de olhar para o dado em tempo real é um desejo ainda inalcançável na saúde pública.

O fato de o pico ser agora não vai mudar o problema. Vai apenas dizer que a gente está em uma tendência de queda. Mas o morro é tão alto, que mesmo estando caindo, posso cair de cabeça e sofrer um dano maior.

O fato de começar a descer é apenas um sinal positivo, mas não quer dizer que se possa abrir sem nenhum critério, como foi feito em Blumenau. Teve um shopping que abriu, fez fanfarra, as pessoas foram ali... dois meses depois, o prefeito estava pedindo pelo amor de Deus para voltarem a ficar em casa.

Tirando as cenas de colapso que houve no Norte, principalmente em Manaus, há sinais de que a rede assistencial não esteja dando conta da pandemia, de modo geral?

Isso eu creio que seja muito focalizado. Se você observar, são regiões que historicamente já tinham problemas com estruturas de saúde. Os locais que já entraram na pandemia com desfalque na estrutura de saúde tiveram muito mais dificuldade para enfrentar do que aqueles que pelo menos tinham um número de leitos e infraestrutura adequados à população.

Fala-se muito da interiorização da doença. O próprio ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, alertou para isso quando assumiu. Porém, percebe-se que o vírus está principalmente nos grandes centros regionais do interior. A pandemia vai avançar para cidades menores? Isto seria mais preocupante, tendo em vista uma possível população mais idosa e menos estrutura de saúde?

Eu acho que vai ser mais pontual pelas características de densidade demográfica do interior. Nós temos municípios que são densamente povoados, mas os municípios menores têm muito mais capacidade de interromper a cadeia de transmissão, de sair muito mais rápido de um problema como esse do que os maiores.

[As grandes cidades] acabam sendo polos para os municípios menores. Então, geralmente, os municípios que têm uma maior estrutura são mais sobrecarregados porque eles atuam naquela região em um modelo de consórcio. Ele tem que dar conta da necessidade de leitos para a sua população residente como também para os municípios vizinhos. Isso torna o problema muito mais complexo.

Muitos municípios pequenos que não controlam sua epidemia local e que apenas deslocam pacientes graves para um grande centro, ele complica a vida daquela região. É fundamental identificar os casos, independente de laboratório, identificar as pessoas que estão gripadas, isolar as pessoas gripadas juntamente com seus familiares por 14 dias.

Somente hoje o Ministério da Saúde passa a obrigar que a rede privada informe os resultados de exame de covid-19. Essa comunicação com os laboratórios privados não deveria ter sido alinhada no início da pandemia, tendo em vista que a saúde suplementar tem 45 milhões de beneficiários?

Ainda na nossa gestão, fizemos uma portaria falando da instrução de notificação. Mas a obrigatoriedade de serviços, laboratórios, de notificar existe na lei desde 1975. Isso não tem novidade. O que falta é responsabilidade no cumprimento da lei.

Então, a chance de termos números que não refletem a realidade é alta?

Eu não tenho dúvida. A saúde suplementar, enquanto eu estava no Ministério da Saúde, havia um diálogo muito grande com as empresas privadas, laboratórios, e ficou dependendo do departamento do Datasus de criar um código, chamado API, para que o sistema do laboratório privado possa enviar automaticamente os resultados para o sistema oficial.

Isso tem que valer para todos os sistemas, não só para laboratórios, tem que valer para hospital que já tem um prontuário pronto. É uma questão técnica, não é um descaso da rede privada, até porque os sistemas são diferentes.

Os dados do Ministério da Saúde mostram um número menor de novos casos na semana passada do que na semana anterior. Houve um problema um problema no cadastro dos casos pelas secretarias estaduais no e-SUS. Essa redução pode ser fruto disso ou existe um cenário em que ela se explica?

Eu acredito que a gente ainda esteja com um problema importante na parte de sistemas de informação e de laboratório. Isto acaba impactando na qualidade do registro.

Essa variação negativa pode ser vista com certa desconfiança?

Eu creio, porque não tem nenhum indício de redução de casos neste momento. Pelo contrário. Tem mais de 300 mil registros de laboratório para serem confirmados ou descartados. Muitos destes serão covid e vão ter que entrar no sistema.

Wanderson: Muitos testes não são registrados

Wanderson: Muitos testes não são registrados

Bárbara Dias/Agif/Estadão Conteúdo - 25.5.2020

O volume de registros que vocês veem no painel [do Ministério da Saúde] é só o que foi avaliado laboratorialmente. E os que não foram avaliados? Milhares, milhares e milhares de registros... como muitos acabam não entrando por questões muito mais operacionais e de logística do que propriamente epidemiológicas.

Como trabalhar com políticas públicas com dados que podem estar bem longe da realidade? O então ministro Nelson Teich chegou a falar quando assumiu a pasta da Saúde que estávamos navegando às cegas. Continuamos?

Hoje, ainda não temos capacidade de identificar os contatantes. Enquanto nós não conhecermos de quem as pessoas estão pegando a doença, maior risco de não termos capacidade de controlar a epidemia.

É como se o barco estivesse em um rumo pela maré, por exemplo, e não porque nós queremos navegar em uma direção ou outra. Para ele ir em uma direção ou outra, não basta ter muito teste, é preciso ter todo o processo em funcionamento adequado.

Não existe teste para todo mundo. Existe teste para auxiliar o gestor na tomada de decisão. É quase como se fosse o Ibope, ele não precisa entrevistar toda a população para saber quem está ganhando uma eleição.

Como vai ser a vida até que haja uma imunização em massa?

Não vai ter vacina para este ano. Pode ser que tenhamos uma quantidade mínima de vacinas aprovadas, mas não a disponibilidade seja no setor público ou privado. E não creio que teremos no primeiro semestre do ano que vem.

Os Estados Unidos, que têm muitas fábricas de vacina, estão prevendo para o final da sazonalidade de gripe deles, que ocorre lá para maio, junho.

Por isso é tão importante nós estabelecermos o melhor diálogo com a sociedade para que nos próximos meses possamos conviver com o vírus sem que com isso se aumente a transmissão.

Como? Usando máscara, fazendo testagem de todos os sintomáticos, isolando as pessoas doentes, isolando as pessoas que moram com aquela pessoa, fazendo o monitoramento dessas pessoas para que diante de qualquer sinal de gravidade possam receber o atendimento adequado e evitar que evoluam para óbito.

A gente tem capacidade de estabelecer um mecanismo de vigilância para combinar com sociedade um isolamento de uma semana em um eventual aumento de casos, e que as pessoas aceitem ficar uma semana sem ficar remoendo essa discussão, como foi ao longo desse tempo.

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