Como uma única vítima infectou 14 pessoas com coronavírus na China

Baixa imunidade e demora para adotar medidas de prevenção contra a transmissão do vírus são fatores que podem explicar o 'supercontágio'

Paciente teria infectado 14 profissionais de saúde na China

Paciente teria infectado 14 profissionais de saúde na China

EFE/EPA/STR

A China investiga o caso de um único paciente "supercontagiante" que teria infectado 14 profissionais de saúde com coronavírus no Hospital Union em Wuhan, epicentro da epidema, conforme divulgou a emissora norte-americana CNN.

Casos como esse não são uma surpresa, observa a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo.

"Nós vimos a mesma coisa [com as epidemias] de SARS (síndrome respiratória aguda severa) e MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio)", lembra. Elas foram causadas por outros tipos de coronavírus, em 2003 e 2012, respectivamente.

Em 2003, um médico chinês infectado com SARS que estava hospedado no Metropole Hotel, na cidade de Guangzhou, na China, infectou outros hóspedes que voltaram ao Vietnã, Hong Kong, Cingapura e Canadá.

Somente em Cingapura, 94 casos de SARS foram detectados, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

Doze anos depois, houve cinco casos de supercontágio pela MERS em hospitais na Coréia do Sul. Dentre estes, um único paciente chegou a espalhar a infecção para 82 pessoas.

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Por que existem pacientes "supercontagiantes"?

De acordo com a especialista, casos de vítimas "supercontagiantes" podem ser explicados por dois fatores: o sistema imune do paciente infectado está fraco ou a adoção de medidas preventivas foi demorada.

"Alguém com o sistema imune debilitado tem a tendência de possuir maior número de partículas virais no corpo, pois o vírus vai conseguir se multiplicar com mais rapidez, logo, o risco de transmissão é maior", explica.

A lentidão no diagnóstico também pode ser um fator determinante. "Demoram para identificar que a pessoa tem o vírus e deixam ela circular livremente no ambiente", analisa a médica.

"Nesse caso da China me parece que foi isso, as medidas de prevenção não foram usadas adequadamente", opina.

O prefeito de Wuhan,  Zhou Xianwang, admitiu em pronunciamento que o paciente não tinha sido identificado como caso suspeito antes de ser internado para passar por cirurgia, mas após o procedimento apresentou febre. Ele não informou a data exata em que isso aconteceu.

Segundo a especialista, a idade é um aspecto relevante na transmissão de vírus que causam outras doenças respiratórias, como o influenza (gripe).

"Nesse caso, as crianças transmitem com muito mais eficácia que os idosos, porque elas têm um tempo maior de excreção viral. Mas quando se trata de coronavírus, isso não está demonstrado", ressalta.

Richtmann também destaca que, segundo pesquisas em andamento, um indivíduo infectado com coronavírus pode contaminar de 1,4 até 2,6 pessoas.

"Em comparações com outros vírus, a transmissibilidade é baixa. Nós estamos tendo um número baixo de profissionais de saúde infectados" afirma, mas pondera que as análises ainda são incipientes por se tratar de uma epidemia recente.

O novo coronavírus surgido em Wuhan já infectou cerca de 10 mil pessoas e provocou em torno de 200 mortes. 99% dos casos estão concentrados na China, assim como todos os óbitos.