Coronavírus em alimentos representa risco à saúde? 

China informou na quinta-feira ter detectado amostras do vírus em carregamento de carne de frango produzido em frigorífico de Santa Catarina

Não há evidências de covid contraída por alimentos

Não há evidências de covid contraída por alimentos

EFE/ Wu Hong/Arquivo

A notícia de que autoridades chinesas detectaram o novo coronavírus em uma carga de frango importado do Brasil reacendeu questionamentos e preocupações sobre a segurança de alimentos em meio à pandemia.

A ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), rapidamente, emitiu um comunicado em que afirma que traços do vírus foram encontrados na embalagem das aves, e não na carne.

O que muita gente se pergunta nestas horas é: há risco em manusear ou, eventualmente, consumir alimentos que estejam contaminados pelo vírus causador da covid-19?

Primeiramente, é preciso entender alguns pontos importantes. Um deles é que o coronavírus SARS-CoV-2 entra em seres humanos pela via respiratória, onde há receptores em que ele se "acopla".

"Mesmo que você coma, vamos supor, uma maça que você não lavou. Você pode comer e ingerir o coronavírus, mas ele não vai te infectar porque você comeu, mas, provavelmente, a sua mão [que encostou no vírus] pode encostar nas mucosas do nariz", explica a infectologista Lina Paola, infectologista da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Daí a necessidade de lavar as mãos constantemente ou utilizar álcool em gel como medida de prevenção.  

No caso do SARS-CoV-2, a transmissão é muito mais fácil por meio do contato humano ou das mãos que encostam em locais infectados do que por alimentos e objetos, explicam especialistas.

Para o virologista e professor Maurício Nogueira, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, em São Paulo, o vírus deve ter chegado ao carregamento por meio de "alguém [infectado] que colocou [as aves] na caixa ou por alguém que [as] tirou da caixa".

"Alguém na manipulação disso estava contaminado. Está havendo muitos casos [de covid-19] em frigoríficos. Agora, isso não significa nada, vai ser apenas utilizado [por países] como barreira sanitária."

Pesquisadores também acham pouco provável que o vírus tenha chegado ao continente asiático com capacidade infecciosa. Isto porque o teste molecular que o detectou verifica apenas que há partículas virais, mas não a viabilidade dele para contaminar alguém.

Santa Catarina, estado de onde partiu o carregamento de frango para a China, já registrou mais de 3.000 funcionários de frigoríficos com covid-19, segundo um levantamento do Ministério Público do Trabalho.

Outra questão que precisa ser levada em conta é a carga viral. A quantidade de vírus em determinada superfície é capaz de infectar alguém?

A infectologista da BP explica que fatores externos enfraquecem e inativam o poder do coronavírus.

"O vírus tem que aguentar o calor, os raios UV [ultravioleta], a temperatura do local, estar em uma superfície inanimada e tem que ser uma quantidade enorme de vírus para você ser contaminado. A gente sabe que o contato com as pessoas — o beijo, aperto de mão, espirro, tosse... —[transmite] mais do que qualquer superfície contaminada. O inóculo, a quantidade de vírus, é maior de pessoa a pessoa."

O diretor-executivo da OMS (Organização Mundial da Saúde), Michael Ryan, também foi questionado a respeito do assunto, em entrevista coletiva na quinta-feira (13), e ressaltou que não existe qualquer indício de que o SARS-CoV-2 possa infectar alguém por meio de alimentos.

O principal cuidado, acrescenta Lina, deve ser com a manipulação. Mas não apenas por causa do coronavírus. Produtos comprados em supermercados podem conter uma série de vírus, bactérias e fungos nocivos à saúde.

Higienizar o que chega da rua ajuda a prevenir contra covid-19 e até mesmo de infecções alimentares.

O cozimento adequado dos alimentos também é fundamental. Micro-organismos como o coronavírus não sobrevivem a altas temperaturas.

"Você pode lavar tudo, porque não sabe se quem manipulou aquele alimento estava doente, desta doença [covid-19] ou de outras, que podem incluir diarreia. Mas não precisa fazer nada além do que a gente já sabe", observa a infectologista.