Coronavírus Acha que teve covid-19 sem doença ou teste? Pode ser thinkihadititis

Acha que teve covid-19 sem doença ou teste? Pode ser thinkihadititis

'Doença do desejo' atinge pessoas que, sem prova, apostam que o vírus já passou por seus corpos e deixou resistência para enfrentar os picos atuais

  • Coronavírus | Eduardo Marini, do R7

O Soprano Imperioli acredita ter se contaminado no início de fevereiro

O Soprano Imperioli acredita ter se contaminado no início de fevereiro

Divulgação

Thinkihadititis é o mais novo “desejo de inconsciente coletivo” da sociedade americana relacionado à pandemia do covid-19. E, pelo que se percebe, o fenômeno, tal qual o vírus, está em escalada plena de contaminação também entre os brasileiros.

O termo batiza uma onda curiosa: o número impressionante, e cada vez maior, de pessoas nos Estados Unidos que, mesmo sem fazer qualquer teste, acreditam piamente terem se contaminado anteriormente com o coronavírus. E, obviamente, terem também se imunizado sem qualquer sofrimento, no caso dos assintomáticos, ou no máximo com efeitos consideráveis mas que foram suportados e neutralizados pelo organismo, promovendo defesa neste momento de pico.

A thinkihadititis acaba de ser detalhada por veículos de comunicação americanos, entre eles o jornal The Washington Post. Trata-se, antes de tudo, de mais um daqueles casos de viés de confirmação, isto é, de algo em que se deseja acreditar acima de tudo, ainda que sem provas ou evidências confiáveis, para sentir maior conforto e brigar menos com os temores.

Acontece algo curioso com os convencidos da nova onda thinkihadititis: todos acreditam bem mais nas chances de já terem entrado em contato com o vírus do que na de vir a encontrá-lo futuramente. Caso típico de desejo transformado em crença.

“Recebi e-mails de milhares de pessoas dizendo: ‘estou convencido de que fui contaminado’”, declarou a Maura Judkis, do Post, o médico e professor associado de doenças infecciosas Eran Bendavid, pesquisador do covid-19 na universidade americana de Stanford.

“Tenho 99% de certeza de que tive", reforça Janet Truchard, 58 anos. Ela disse ter acordado em 15 de janeiro em sua casa, em Las Vegas, “doente como um cão”. Tinha febre, tosse seca, enxaqueca e dor no peito. Visitou vários médicos, foi diagnosticada com sinusite e alergia e tomou os antibióticos receitados. A tosse persistiu por dez dias, mas as radiografias depois mostraram pulmões totalmente sãos e limpos.

Janet é outra convencida de ter entrado em contato com o vírus em janeiro, uma possibilidade muito remota de acordo com os especialistas. Mesmo diante da informação de que o primeiro caso, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, ocorreu dias antes dos tidos como inaugurais nos dois dois países e em outros do mundo.

Joanna Fischer, 63 anos, é outra certa de o covid-19 visitou seu organismo bem antes do que podem admitir. Ela diz ter perdido o olfato e sofrido por três meses com tosse e dor no peito, o que a levou a usar oxigênio suplementar. O marido e o gato da casa, no noroeste da Pensilvânia, também tiveram doenças respiratórias.

Há, no entanto, um detalhe importante em sua história: seus três meses de sofrimento foram entre setembro e novembro de 2019. “É de zero a probabilidade de o coronavírus ter circulado em transmissão comunitária nos Estados Unidos no mês de novembro (de 2019) ou antes”, declarou ao Post, por Twitter, o biólogo Trevor Bedford, que estuda o código genético e a disseminação do vírus no Fred Hutchinson Cancer Research Center, de Seattle, nos Estados Unidos.

Patti crê no contágio em janeiro

Patti crê no contágio em janeiro

Divulgação/Flickr

Mesmo assim, o thinkihadititis segue conquistando adeptos, muitos deles ilustres. Michael Imperioli, da série Os Sopranos, acredita ter sido contaminado logo no início de fevereiro. A empresária e estrela de reality show Patti Stanger sentiu febre, cansaço e náusea em janeiro, após ter viajado de máscara para passar férias em Miami.

“Não levantei por três semanas. Vivia de caldos e biscoitos”, conta ela. “Mais tarde, quando surgiram notícias de que o coronavírus chegou aos Estados Unidos mais cedo do que imaginávamos, pensei: eu poderia ser uma dessas pessoas. E comecei a ouvir muitos amigos dizerem: ‘eu tive isso, eu tive isso’”.

Fenômenos como o do thinkihadititis tomam corpo nas sociedades pela combinação de medo com fatores relacionados, sobretudo, ao desconhecimento gerado pelo ineditismo da situação.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) não garante mais a imunidade a quem teve contato assintomático ficou se curou das doenças. Ao contrário: orienta todos a manterem as mesmas precauções. Ainda assim, é extremamente mais confortável acreditar (e as experiências até aqui confirmam) na melhor recuperação no segundo contato com vírus, pela ação dos anticorpos.

Além disso, a quantidade incalculável de infectados assintomáticos não identificados em todo o mundo, aliada à imprecisão da suprema maioria dos testes de acesso para a população, inclusive a dos Estados Unidos atualmente, gera fantasias e desejos na cabeça das pessoas neste momento duro e sofrido por que passa a humanidade.

Tudo isso somando leva milhões de americanos, brasileiros e cidadãos do mundo a brigar com as evidências científicas. Como Joanna Fischer. “Fica difícil acreditar que o vírus chegou aos Estados Unidos há tão pouco tempo diante da propagação que vemos dessa pandemia”, insiste ela. “Vou procurar um teste. Se der negativo, será o caso de fazer outro”.

Entre ter se encontrado com o covid-19 anteriormente e reunir neste momento, no olho do furacão, riscos bem maiores de baixar em um num hospital, Joanna prefere a primeira opção. Nada mais humano. “Estamos preparados para antecipar resultados positivos”, analisa Tali Sharot, professora de neurociência cognitiva do University College, de Londres. “Quando queremos crer em algo, somos muito bons em interpretar as evidências de maneira que elas apoiem nossa crença”.

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