Coronavírus Pico da pandemia liga alerta em casas de repouso para idosos

Pico da pandemia liga alerta em casas de repouso para idosos

Abrigos do país têm cerca de 110 mil internos. Proximidade, contato frequente e dificuldade de isolamento aumentam os riscos de contágio em alta escala

  • Coronavírus | Eduardo Marini, do R7

Ideia é fazer esforço para que casos não explodam como na Itália e EUA

Ideia é fazer esforço para que casos não explodam como na Itália e EUA

PIxabay

A chegada da fase de pico da pandemia de coronavírus aumentou a preocupação e os cuidados com uma das parcelas mais vulneráveis à doença: a dos idosos recolhidos em abrigo e casas de repouso. O sinal de alerta foi ligado entre dirigentes, médicos e autoridades após os primeiros registros de contaminação em números preocupantes em unidades do país. A ideia é fazer um esforço conjunto para evitar que a situação nesses abrigos se torne grave como na Itália e, em seguida, nos Estados Unidos.

O Brasil tem cerca de 110 mil idosos em abrigos e casas de repouso, estimam pesquisadores. Um levantamento feito anos atrás pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) registrou 86 mil. Dos 45.268 abrigados no Estado de São Paulo, 13.807 estão em casas da capital.

A uniformidade no combate à pandemia é dificultada pela diferença de estrutura e recursos existente entre essas casas. Setenta por cento delas são públicas, mistas (bancadas com dinheiro público e complementos privados) ou sustentadas com colaborações.

Apenas três em cada dez (30%) são completamente privadas, financiadas com mensalidades pagas pelas famílias, muitas delas acima dos R$ 5 mil mensais. Essa fatia “de elite” sofre menos os efeitos da falta ou atraso de verbas. Como era de se esperar, enfrentam menor dificuldade para aplicar os procedimentos de combate e já começam a colher melhores resultados do que a média.

“Os abrigos possuem a estrutura de casas com diferentes padrões, o que, no caso dos particulares, influencia diretamente no preço cobrado. Os idosos se reúnem frequentemente, fazem refeições juntos, ficam perto uns dos outros por muito tempo por conta das terapias de convivência. Mesmo com a proibição de visita, se havia gente contaminada antes, o cenário para a disseminação continua montado”, afirma ao R7 o patologista e pesquisador Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

O distanciamento de proteção de dois metros, definido no início da pandemia, não pode mais ser considerado seguro em casas de repouso, acredita o patologista. “Um espirro ou tossida forte pode deixar no ar partículas submicrométricas, com tamanho abaixo de um milésimo de milímetro e alto poder de contágio. Elas flutuam e ficam às vezes horas no ar, dependendo das condições de ventilação, umidade e temperatura. Podem contaminar alguém que entra num cômodo tempo depois da saída de quem as deixou por lá”.

Saldiva desconfia que a maior parte dos casos iniciais de contaminação em níveis preocupantes se estabeleceram dessa forma. Os primeiros indícios levam a crer que o vírus foi levado a essas casas por parentes, antes da suspensão de visitas, e por funcionários. “Grande parte dessas casas abriga de dois a quatro idosos por quarto. Algumas até cinco ou mais, o que foge do padrão autorizado. Como o vírus tem um período relativamente longo de incubação - dez, até 12 dias -, os assintomáticos contaminam outros sem saber que estão infectados”, explica.

A conjunção de fatores descrita por Saldiva foi determinante para provocar a primeira leva de contaminação e óbito registrada em asilos da Baixada Santista e do interior do Estado de São Paulo. O abrigo mais castigado pela pandemia até agora é o Lar Betel, de Piracicaba, instituição sem fins lucrativos que atende 90 idosos em Piracicaba.

O Betel registrou nove mortes de idosos, 34 contágios entre os abrigados e 25 funcionários com exame positivo até agora. Com o rápido agravamento da situação, restou à diretoria e à prefeitura promover o isolamento inverso, ou seja, a remoção dos idosos que testaram negativo, para um hotel. “Com tantos contaminados, surgiu a obrigação adicional de preservar quem não possui o vírus no organismo”, detalha o patologista.

Quarentena antecipada e rigor garantiram 'zero covid' nas casas da DG Sênior

Quarentena antecipada e rigor garantiram 'zero covid' nas casas da DG Sênior

Divulgação

O Ministério Público do município de São Paulo criou uma lista de procedimentos para os abrigos e casas de repouso neste período. Os dirigentes devem buscar condições para testar todos os internos o mais rápido possível e passar relatórios frequentes sobre a situação. “Os administradores das casas públicas e privadas se comprometeram a passar informações para a definição de estratégias de controle”, informa Cláudia Beré, promotora de Justiça de Direitos Humanos responsável pelos idosos em São Paulo.

A criação de ambientes para os funcionários se cuidarem, de espaço de isolamento para idosos contaminados e o incentivo à montagem de estruturas virtuais para comunicação com os parentes têm mobilizado os esforços da promotora. “A Agência Nacional de Vigilância Sanitária permite até quatro idosos por quarto, um número aceitável em situação normal, mas arriscado nesse momento. Por isso, pedimos ao município que forneça equipamentos necessários aos profissionais e crie condições para a retirada de idosos contaminados e doentes quando for o caso”, detalha a promotora. Além disso, foi feito um acordo com a ONG Médicos Sem Fronteiras para apoiar os abrigos.

O Estado de São Paulo contabilizou 16 óbitos em casas de repouso até quinta-feira (14). Uma notícia triste, mas que pode servir de alerta para que administradores de todo o país adotem procedimentos semelhantes aos tomados, por exemplo, nas três casas DG Sênior. O grupo privado abriga 60 idosos em Santo André, na região metropolitana de São Paulo, com ‘zero coronavírus’ até agora.

No início de março, nove dias antes da adoção da quarentena estadual, o DG Sênior comunicou aos familiares a suspensão das visitas. Funcionários foram colocados para gerir o contato dos idosos com parentes por computador e celular. Todos os empregados passaram a usar exclusivamente a entrada de serviço, onde foi montado um espaço para troca de roupa, higienização e conferência de temperatura corporal.

“Além dessas medidas, ajuda muito o fato de a quase totalidade de nossos colaboradores trabalharem apenas conosco, o que reduz a necessidade de movimentação e os riscos de contaminação”, diz com orgulho a administradora das casas, a enfermeira Marcella dos Santos.

Marcella tem consciência do tamanho do desafio para manter o ‘índice zero’, mas não foge da luta. “Esse vírus tem mostrado capacidade de resistência às estratégias e ações de combate bem maior do que imaginávamos. Não há outra saída a não ser manter, e até aumentar, a rigidez nos procedimentos”, admite ela.

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