Covid-19: 40% dos pacientes graves precisam fazer hemodiálise

Até 50% das pessoas em estado crítico têm insuficiência renal por causa da doença; sobrepeso aumenta chance do problema, segundo nefrologista

A hemodialise é um procedimento que filtra o sangue por meio de uma máquina

A hemodialise é um procedimento que filtra o sangue por meio de uma máquina

Wikipedia

Cerca de 30% a 50% dos pacientes com covid-19 em estado crítico têm insuficiência renal. Desses, de 30% a 40% precisam de diálise, segundo o nefrologista Américo Cuvello, coordenador do Centro de Nefrologia e Diálise do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. A diálise é um procedimento no qual uma máquina externa substitui o papel dos rins, quando o órgão exerce menos de 10% da sua função.

Entre todos os casos de covid-19 no país, de 5% a 15% dos pacientes apresentam insuficiência renal, ainda de acordo com o médico.

Ele explica que a covid-19 afeta o rim por meio de diversos mecanismos diferentes. Segundo ele, já foi comprovado em alguns estudos que o coronavírus ataca as células do rim. Além disso, a covid-19 promove uma tempestade citoquímica, ou seja, um aumento brutal de citocinas, proteína produzida por conta de um processo inflamatório generalizado.

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“Pacientes com sobrepeso ou obesos já têm as citocinas um pouco aumentadas, é como se fosse uma leve inflamação crônica. Aí com a infecção por covid-19, isso aumenta ainda mais, por isso esses pacientes têm chance maior de ter insuficiência renal.”

A tempestade de citocina afeta os rins, pois proporciona uma cascata de substâncias tóxicas para o órgão, além disso, ela promove a dilatação dos vasos, o que acarreta a diminuição de fluxo sanguíneo. “É um efeito mecânico: diminui a perfusão de sangue e, em consequência, o rim trabalha menos, funciona menos.”

Uma outra maneira de a doença afetar os rins é por conta do acometimento do pulmão. “Nós temos algo na medicina que, quando você tem uma lesão em um órgão, um outro órgão à distância também pode sofrer por tabela. Além disso, se o paciente precisar de ventilação mecânica, isso aumenta a pressão sanguínea no tórax e diminui a perfusão para outros órgãos.”

Por último, é comum que, devido ao excesso de fadiga e cansaço, os pacientes tenham uma menor ingestão de líquido. “Os pacientes costumam chegar desidratados, o que piora ainda mais a função dos rins.”

Cuvello explica que, apesar de em outras doenças que causam o aumento de citocinas haver um acometimento dos rins, a insuficiência renal parece ser, no caso de pacientes da covid-19, uma característica da própria doença. “Na época do H1N1, por exemplo, observou-se pouco esse acometimento, mas o novo coronavírus causa um dano muito maior para o órgão [rim], o aumento das citocinas também é muito maior.”

Não é comum que os pacientes fiquem com alguma sequela, segundo o nefrologsita, mas, apesar disso, a recuperação do órgão é lenta e, normalmente, os sintomas respiratórios melhoram primeiro. “Leva de duas a quatro semanas, depois que o quadro respiratório melhorou, para os rins se recuperarem completamente.”

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Agora, para os pacientes que já tinham uma função renal debilitada antes de contrair a infecção, pode haver algumas sequelas. “Principalmente pacientes idosos, com mais de 80 anos, em alguns casos até volta para a mesma função de antes, mas estamos vendo uma piora da disfunção. Felizmente, uma parcela bem pequena precisa de diálise para o resto da vida ou transplante.”

Os pacientes que ficam com sequelas, mas não ao ponto de terem que fazer diálise, precisam fazer um plano de tratamento conservador e seguir com acompanhamento médico, de acordo com o médico. O plano consiste em consultas regulares, evitar desidratação, evitar o uso de determinados remédios, controle de diabetes e hipertensão, entre outras estratégias personalizadas para cada paciente.

Para fazer o processo de diálise, é inserido um cateter em uma veia do corpo, normalmente a jugular ou a da perna. O sangue sai, por meio desse cateter, para uma máquina que possui uma membrana que exerce o papel de filtro, devolvendo o sangue purificado para o corpo.

*Estagiária do R7 sob supervisão de Deborah Giannini

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