Covid-19: Familiares de pacientes buscam ajuda psicológica

Para lidar com incerteza dos dias seguintes ao diagnóstico de coronavírus, familiares de pacientes têm buscado apoio psicológico dos hospitais

Juntos há 40 anos, Margaret e Wilson tiveram que lidar com incertezas causadas por internação na pandemia

Juntos há 40 anos, Margaret e Wilson tiveram que lidar com incertezas causadas por internação na pandemia

Arquivo pessoal

Na última semana, a assistente financeira Margaret Manço, de 60 anos, e seu marido Wilson, 63, assistiram, juntos, ao pôr do sol colorido em São Paulo - que viralizou nas redes sociais. Juntos há 40 anos, o momento do casal foi uma maneira de celebrar o retorno de Wilson para casa, após passar cinco dias internado no Hospital São Camilo, diagnosticado com o novo coronavírus. Antes de Wilson, Margaret também havia apresentado sintomas da doença, mas não chegou fazer o teste. Durante a semana em que o marido esteve no hospital, a assistente financeira precisou de acompanhamento psicológico para lidar com a incerteza trazida pelo diagnóstico.

“Foi primordial. Sentia muita culpa e impotência. Me senti a pior pessoa do mundo só de imaginar que poderia ter transmitido a doença para ele e não podia fazer nada para ajudá-lo”. Na época, Margaret conta que chegou a experimentar sintomas de ansiedade como falta de ar e aperto no peito. “Sentia que não podia contar com ninguém.”

Segundo Cristina Borsari, psicóloga hospitalar da Beneficência Portuguesa, reações como a da assistente financeira têm se mostrado cada vez mais frequentes na pandemia, não, apenas, pela sensação de incerteza gerada diante de uma doença ainda sem respostas concretas, mas pelo distanciamento que acontece, justamente, em um momento de crise.

“Quando pensamos no covid-19, pensamos em uma doença de solidão. Como seres sociais, somos criados a ter rituais até de despedida. Privados disso, passamos por um grande sofrimento psíquico.”, explica. “Quando familiares desabafam somente entre si, podem causa uma angústia no núcleo todo. O psicólogo está lá para escutar e ser contingente ao sofrimento. Temos que confortar pelo olhar ou até pelo silêncio, mas é importante a pessoa saber que existe um apoio e acolhimento nessa situação.”

Foi o que aconteceu com o casal: após deixar o marido no hospital, Margaret conta que recebeu uma ligação, duas horas depois, com a notícia de que ele não voltaria para casa. “Ele ligou e disse que estava com uma infecção no pulmão. Quando ficou na sala de isolamento pediu uma mala com roupa. Não pude subir, deixei na portaria do hospital e levaram para ele. O que mais apavora é o medo de não poder se despedir.”

Quando pensamos no covid-19, pensamos em uma doença de solidão
Cristina Borsari

A incerteza de como serão os dias seguintes é, segundo o psicólogo Bruno Alexandre Ferreira, da Rede São Camilo, a fonte de um dos maiores sofrimentos emocionais dos familiares dos pacientes.

“Ainda não sabemos o que precisamos sobre esse vírus: como tratar de forma eficaz, qual a vacina e como se comporta em determinados indivíduos. Não saber leva a pessoa a experimentar um vazio aterrorizador, sensação de desamparo, crise de ansiedade e estado de apatia frente à situação.”

Durante a internação de Wilson, o desabafo de Margaret era ouvido por um profissional via videoconferência. A medida tem sido adotada em alguns hospitais para amenizar o sofrimento dos familiares dos pacientes de covid-19. Segundo o psicólogo Bruno Alexandre Ferreira, o serviço de atendimento também visa a contenção da crise provocada pela pandemia.

“Esse cuidado com os familiares têm, em 90% dos casos, um efeito tranquilizador  nos próprios pacientes, fazendo que ele consiga se relacionar com sua recuperação ou adoecimento de forma menos dolorosa.”