Novo Coronavírus

Saúde Covid-19 no Centro-Oeste cresce 3 vezes mais que média nacional

Covid-19 no Centro-Oeste cresce 3 vezes mais que média nacional

Há dois meses, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal somavam 10.273 infectados; agora, número chega próximo de 200 mil

  • Saúde | Fernando Mellis, do R7

Movimento em região comercial em Goiânia

Movimento em região comercial em Goiânia

Marcello Dantas/Futura Press/Estadão Conteúdo - 30.6.2020

Uma das regiões brasileiras inicialmente menos afetada pela pandemia da covid-19, o Centro-Oeste começou a ser atingido com mais força nas últimas semanas.

Os três estados — Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás — e o Distrito Federal somavam 10.273 casos confirmados da doença há exatos dois meses. Nesta quinta-feira, o número de infectados chegou a 192.746, segundo dados dos governos locais.

Nos últimos dois meses, o número de novos casos de covid-19 em todo o Brasil cresceu 573%, enquanto na região Centro-Oeste subiu 1.776%: praticamente três vezes mais do que a média nacional.

As mortes em decorrência da infecção pelo novo coronavírus nos estados do Centro-Oeste saltaram de 236 em 22 de maio para 4.079 nesta quarta-feira (22), um incremento de 1.628%. No país inteiro, a alta foi de 293%.

Paralelamente, mais pessoas necessitaram de internação em terapia intensiva, pressionando a taxa de ocupação desse tipo de leito em alguns estados.

Em Mato Grosso, havia 52 pacientes em UTI com covid-19 no dia 21 de maio. Em 21 de julho, eram 346, o que elevou a ocupação dos leitos de 10,9% para 88,8%.

Mato Grosso do Sul tem hoje uma situação um pouco mais confortável do que os vizinhos, com 58% dos leitos de UTI destinados a pacientes com covid-19 ocupados. Mas há um mês, esse índice era de 26%.

Distrito Federal tem quase 80% das UTIs ocupadas

Distrito Federal tem quase 80% das UTIs ocupadas

Pedro Ladeira/Folhapres - 29.6.2020

Goiás — estado mais populoso da região, com 7 milhões de habitantes — tinha há um mês 74% das vagas de terapia intensiva ocupadas, quando havia 118 pessoas internadas.

De lá para cá, houve ampliação do número de leitos exclusivos para covid-19, mas a taxa de ocupação foi para 87%, com 600 pacientes internados com diagnóstico confirmado ou suspeita.

No Distrito Federal, o cenário é parecido. Há 78,8% de ocupação dos leitos de UTI para covid-19. O governo do DF não informou os dados dos outros meses.

Existem algumas explicações possíveis para a alta significativa de infectados no Centro-Oeste.

Uma das hipóteses aventadas por Christovam Barcellos, pesquisador titular do Laboratório de Informação em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz, é a precipitação das medidas de isolamento social nestes estados.

"O Brasil todo entrou em isolamento simultaneamente em meados de março. Quase todo começou a relaxar no começo de julho. Alguns estados até poderiam tomar algumas medidas de relaxamento [em julho], outros não", explica.

Segundo ele, a falsa impressão de que o vírus estava concentrado na porção leste do país pode ter causado um efeito "psicossocial" de que ele não chegaria ao interior. 

"É compreensível que as pessoas que passaram meses em uma cidade grande ou média no Centro-Oeste e com pouquíssimos casos podem ter pensado 'esse vírus não vai chegar aqui', e aí houve um relaxamento".

A segunda provável causa tem relação com a maior transmissibilidade de vírus respiratórios no Centro-Oeste nesta época do ano, o que é observado há anos pela Fiocruz. O mesmo ocorre no Sul, onde também há aumento de infectados pelo coronavírus.

"O inverno no Centro-Oeste não é muito frio, mas é seco, o que favorece a dispersão do vírus no ambiente. Tem um pouco de frio também, principalmente à noite", observa o pesquisador.

Para o infectologista e professor Carlos Fortaleza, da Unesp (Universidade Estadual Paulista) em Botucatu, ressalta também a interconectividade de regiões do interior de São Paulo, que também passam por um momento de alta de casos de covid-19, com estados vizinhos.

"Em relação às grandes cidades do interior de Minas, às capitais do Centro-Oeste, com exceção do Distrito Federal, percebemos um momento crítico agora. E não por coincidência, bate com o momento crítico de Campinas, São José do Rio Preto... essas cidades grandes do interior de São Paulo têm uma dinâmica parecida com as capitais do Centro-Oeste em termos de relevância regional, conectividade, etc."

Cidades pequenas

Os municípios menores da região têm uma vantagem, na avaliação do pesquisador da Fiocruz: podem fazer medidas de contenção do vírus com mais facilidade do que os grandes centros urbanos.

Por outro lado, são cidades tradicionalmente dependentes da rede hospitalar das capitais ou de municípios de médio porte, que podem já estar sobrecarregados.

"Nós calculamos o tempo necessário para chegar em uma emergência. Na maior parte das cidades do Centro-Oeste, Sudeste e Sul, as pessoas conseguem chegar em até quatro horas, mais ou menos. O norte do Mato Grosso e o norte de Goiás são bastante preocupantes porque não têm estrada ou porque não têm hospital por perto. Isso é bastante preocupante porque a evolução da doença em alguns casos é muito rápida."

O risco de haver surtos significativos em cidades menores também deve ser considerado, segundo Barcellos.

"Os surtos nas cidades menores são explosivos. Você tem uma cidade de 5.000 habitantes, por exemplo. Em uma semana, pode produzir 100 casos e não tem hospital. E em uma região já sobrecarregada."

A sugestão para conter a velocidade de avanço do vírus no interior do país é uma restrição maior ao trânsito de pessoas entre cidades.

Medidas como a limitação do trânsito de ônibus intermunicipais, exceto em caso de emergência, são importantes para que cidades sem infraestrutura hospitalar não sofram uma explosão de casos, na visão do especialista.

Ele também alerta para o perigo do vírus em comunidades vulneráveis, como quilombolas e indígenas.

"Aldeia indígena, cidade pequena, comunidade rural... deveriam reforçar o que a gente chama de atenção primária em saúde. É o cuidado permanente, visita domiciliar, posto de saúde funcionando permanentemente. Eles que vão dizer se o caso pode ou não ser tratado em casa. É uma maneira também de poupar a estrutura hospitalar, evitar que o hospital fique sobrecarregado. Essa é uma tradição do SUS que precisa ser retomada."

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