Criança conta como é viver com diabetes: "O 1º passo é aceitar"

Em geral, diabetes tipo 1 é descoberta na infância e atinge 10% dos pacientes

Victoria leva uma vida normal após descobrir a diabetes
Victoria leva uma vida normal após descobrir a diabetes Arquivo Pessoal

Fraqueza, vontade de fazer xixi várias vezes e perda de peso. Os pais de Catarina viram a filha, de 10 anos, apresentar esses sintomas até ficar alguns dias internada na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Na época, eles pensaram que poderia ser alguma doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, como dengue, zika e chikungunya. Mas exames de sangue relevaram o diagnóstico de diabetes e, com ele, veio a mudança brusca na vida da paciente e de sua família, revela a mercadóloga Ana Celia Frolini, mãe da menina.

— Ela saiu do hospital com uma rotina nova, pois o controle glicêmico requer muito treinamento. O diagnóstico é multidisciplinar com diversos profissionais. Mas o que mais ajudou foi ela ter conhecido outras crianças nas mesmas condições que ela. O mais importante de tudo é se aceitar.

Segundo a mãe, Catarina aceitou bem a situação desde o início e já se aplica insulina sozinha.

— Ela tem uma cabeça muito boa e tira de letra. Ela viaja, come de tudo, joga basquete, dança jazz, faz ginástica olímpica. O diagnóstico não a limitou em nada e ela consegue ter uma vida totalmente normal, e ficou mais madura.

Madura, a menina diz que o primeiro passo para aceitar a doença é "conviver de uma forma legal com ela, não ficar se lamentando".

— Daí você já começa a fazer as coisas com prazer, como contar o carboidrato e aplicar insulina, porque vai estar cuidando da sua vida. Você vai querer viver e aproveitar tudo”.

Só muda o endereço

Assim como os pais de Catarina, os pais de Victoria, de 11 anos, também levaram um susto ao descobrir que a filha era diabética aos cinco anos de idade, revela a administradora Karina Roenick.

— Ela estava com infecção respiratória depois de um resfriado forte e começou a se sentir prostrada. Achávamos que era alguma reação alérgica ou efeito colateral do remédio. Foi muito difícil aceitar o diagnóstico até a gente conseguir administrar a insulina. Na época, eu também cuidava da minha outra filha, que estava com oito meses. Foi bem complicado, mas a Victoria levou da melhor maneira possível.

Diabetes mata 1 pessoa a cada 6 segundos; obesidade aumenta risco

Enfrentar o bullying

Apesar de ter lidado bem com a situação desde o início, Catarina foi vítima de bullying na escola. Após os frequentes episódios, ela revela ter optado por estudar em outro lugar.

— Uma menina chegava perto de mim com batata chips ou chocolate e dizia ‘Você quer, Catarina? ”. Ah, você não pode, né? Você é diabética e não pode comer nada’. Eu falava que não era legal o que ela estava fazendo e contei para a coordenadora. Tudo foi resolvido, mas decidi mudar de escola. Hoje, meus novos amigos sempre perguntam se eu estou bem, me oferecem água, me ajudam bastante e me respeitam.

Catarina lida bem com a doença desde os cinco anos de idade
Catarina lida bem com a doença desde os cinco anos de idade Arquivo Pessoal

A situação foi diferente no caso de Victoria, segundo Karina. Ela diz que não teve problemas na escola da filha porque cada criança levava seu lanche e não tinha acesso para comprar nada na cantina.

— No começo, eu ia todo dia na enfermaria da escola para ajudá-la antes das refeições, que ela fazia na enfermeira, até eu me sentir segura. 

Porém, houve uma situação constrangedora com a mãe de outro aluno, revela a administradora.

— Em uma festa da escola, uma mãe fez um cupcake diferente para a Victoria e para o filho dela que sofre com um problema na alimentação. Isso foi horrível, pois esse tipo de situação expõe a criança e a coloca como diferente das demais. Não tem problema a Victoria comer uma fatia de bolo, porque ela toma insulina. 

Mãe abandona emprego para cuidar de filha pequena com diabetes

Crianças precavidas

Catarina sempre anda com balas e água em caso de se sentir mal. A precaução é importante, já que o diabético pode sofrer tanto com o pico de insulina quanto com a hipoglicemia — queda da glicemia no sangue —, que pode levar ao coma.

Victoria, por exemplo, já passou mal com queda na taxa de glicemia, inclusive em sala de aula, conta Karina.

— Ela se sentiu tão fraca que desmaiou fazendo prova. Ela percebe quando se sente mal e anda com umas balinhas de glicose na bolsa, mas já aconteceu de estarmos na piscina e ela começar a falar embolado. Fiquei tão apavorada que eu peguei um sachê de açúcar e coloquei na boca dela.

O que é diabetes

A diabetes tipo 1 é uma genética e pode se manifestar em qualquer momento da vida, mas costuma se desenvolver na infância e início da adolescência. Já a tipo 2 é relacionada à obesidade e alterações nos hábitos de vida e ocorre principalmente em adultos, explica a endocrinologista do Hospital 9 de Julho Roberta Frota Villas Boas.

— A diabetes tipo 1 é súbita e, geralmente, não há vários casos na mesma família. A criança não tinha nada e a doença aparece de repente. A tipo 2 acontece mais na vida adulta, mas há casos de crianças obesas que a desenvolvem. É mais difícil, mas pode acontecer. Caso esta criança não estivesse acima do peso, ela desenvolveria a doença apenas mais tarde”.

De acordo com a especialista, aceitar a diabetes tipo 1 é mais difícil por parte dos pais, que ficam muito abalados, pois a criança ainda não tem noção da doença. Este tipo é o mais agressivo e exige mudança radical na rotina, como alteração de hábitos, tem que ir ao médico toda hora, ter disciplina.

— Nem sempre é fácil. Nos adolescentes gera mais revolta. Ele se sente diferente dos colegas, fica com vergonha de aplicar a insulina na frente dos amigos, não pode abusar da bebida e passa a sofrer uma série de restrições para o resto da vida. Por isso, toda a família precisa passar por tratamento multidisciplinar, com acompanhamento psicológico, inclusive.

Já no tipo 2, o tratamento começa com medicamentos orais e o paciente tem mais tempo para mudar seus hábitos, diz Roberta. “Ela é menos traumática. Somente nos casos mais avançados que é necessária aplicação de insulina”.

Pacientes com os dois tipos da doença podem sofrer com as mesmas complicações, explica a endocrinologista.

“O tipo 1 é mais agressivo, então se o paciente se não se cuidar ele pode começar a sentir as complicações após 20 anos com a doença, como alteração de retina que pode levar à cegueira — a diabetes é a maior causa de cegueira adquirida em adultos —, amputações de membros, problemas renais. Já no tipo 2, as complicações mais frequentes são doenças do coração, como infarto e AVC (Acidente Vascular Cerebral), por se tratar de um paciente mais velho”.

Vida normal

A Catarina usa a bomba de insulina, que libera pequenas quantidades do hormônio por meio de um cateter acoplado a seu corpo durante o dia e antes das refeições. Para saber a quantidade corre de insulina que deve tomar, a menina precisou aprender a contar o quanto de carboidrato que tem cada alimento, já que o carboidrato vai virar açúcar após a digestão, diz Ana Celia.

— Ela mesma manipula a bomba e coloca a quantidade de carboidrato do alimento. A Catarina teve de decorar essa tabelinha, então posso deixar ela sozinha. Até brincando quando vamos comer. Ela me pergunta: ‘Mãe, eu quero tanto de carboidrato, e você? ’. A doença não a limitou em nada. Agora, ela tem muita disciplina, como todo mundo deveria ter.

Exercícios físicos são recomendados para todos, ainda mais para quem tem diabetes porque ajuda no controle da glicose. Victoria cumpre bem esta tarefa com balé, tênis e handebol. Ela usa caneta para aplicar a insulina.

— Eu acho que dá para viver uma vida completamente normal, e não precisa ficar chateado. Eu mesma não passo vontade de comer nada. Como normalmente e depois tomo insulina para corrigir.

Ainda de acordo com Karina, o diabético só não pode ter a rotina de comer muito açúcar.

— A nutricionista, inclusive, diz que é melhor ela comer um chocolate normal do que um light, que tem muita gordura. Mas quem não conhece fica com medo.

Com o devido tratamento, a criança pode fazer de tudo e ter uma vida normal. E Catarina deixa um recado: “Logicamente, quando se descobre o diagnóstico você se sente mal, mas como tempo você vai ver que se fizer o tratamento vai ficar tudo bem.