É comum vacina para crianças ter diferença na dose de antígenos

Vacina russa terá versão pediátrica; adaptações de imunizantes costumam ser feitas na fase 4 de testes, quando a vacina já está em circulação

A vacina russa é para adultos entre 18 e 60 anos, mas terá uma versão pediátrica

A vacina russa é para adultos entre 18 e 60 anos, mas terá uma versão pediátrica

RDIF/via Reuters - 06.08.2020

É comum que vacinas tenham versões específicas para crianças com quantidade de doses e de antígenos por dose diferentes para determinadas faixas etárias, segundo o pediatra Juarez Cunha, da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações).

“Algumas possuem metade da quantidade de antígenos, outras são feitas em mais doses. Depende da faixa etária”, explica. A vacina da gripe, por exemplo, para menores de 3 anos, são divididas em duas doses - cada dose tem metade do antígeno da vacina para adulto.

“Normalmente, a criança com mais de três anos já teve contato com o influenza naturalmente, por isso aplicamos só uma dose.”

O Centro Nacional de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya, em Moscou, que desenvolve a vacina russa chamada Sputinik V, anunciou nesta terça-feira (8) que o imunizante terá uma versão para crianças, segundo informações da agência de notícias russa Sputinik News. 

O professor Aleksandr Butenko, do Centro Gamalyea disse à Rádio Sputnik que a vacina para as crianças será mais leve e menos reatogênica, ou seja, que provoca menos reações adversas.

Cunha explica que existem vários fatores que podem acarretar na necessidade de fazer uma versão específica para cada faixa etária. "São precisos estudos específicos para cada faixa, mas também para imunodeprimidos, grávidas, diabéticos e pessoas com comorbidades.”

Um dos fatores está relacionado ao peso de crianças, bem inferior ao de adultos. Por esse motivo, a quantidade de antígenos deve ser menor também, na maior parte dos casos. “Depende muito da vacina. A tríplice bacteriana [difteria, coqueluche e tétano] por exemplo, possui o mesmo volume, mas a composição para crianças é DTC e a de adultos é dTc, ou seja, a quantidade de antígenos para os adultos é menor.”

A vacina tríplice bacteriana faz parte da pentavalente, considerada bastante reatogênica, pois a parte que combate a coqueluche utiliza células inteiras, um componente com grandes chances de causar reações. As reações adversas vão desde dor local até a síndrome hipotônica- hiporresponsiva, caracterizada por palidez, perda de tônus muscular e de consciência.

Cunha afirma que já existe uma tecnologia menos reatogênica, chamada de acelular, em que são utilizados apenas pedaços da célula. Essa tecnologia ainda não é viável financeiramente para todas as pessoas no sistema público de saúde, mas crianças que tiverem reações mais fortes, podem solicitar o tipo acelular nos centros de imunização.

No caso da vacina de HPV, foi demonstrada a mesma eficácia com apenas duas doses para menores de 15 anos; já pessoas acima dessa idade tomam três doses.

“As vacinas aplicadas no primeiro ano de vida normalmente precisam de mais doses, porque, além de a criança não ter o sistema imune completamente formado, existe muita interferência dos anticorpos da mãe, que são passados pela amamentação.”

O médico explica que em relação à vacinação da criança também é levada em conta a interação que pode haver entre os imunizantes previstos pelo Calendário Nacional de Vacinação, que pode levar à redução da eficácia de alguma delas. Por exemplo, a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) e a da febre amarela, ambas feitas com vírus atenuado. Elas não podem ser tomadas na mesma ocasião, devido à interferência na resposta imune, sendo necessário o intervalo de um mês entre elas.

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Em situações normais de pesquisa de vacina, os estudos que ampliam os grupos aptos e fazem possíveis adaptações para cada grupo acontece na fase 4, quando a vacina já está em circulação para o grupo testado inicialmente. Porém, diante da gravidade da pandemia de covid-19, algumas pesquisas já estão realizando testes em grupos mais específicos.

“A vacina de Oxford está fazendo testes em idosos e imunodeprimidos. A russa, pelo que sabemos, está sendo testada em 40 mil, mas não temos a informação se já vão incluir outras pessoas além dos adultos saudáveis ou se estão esperando algum resultado preliminar da fase 3.”

Cunha afirma que atualmente os grupos prioritários para receber a vacina contra a covid-19 são os profissionais de saúde e os idosos, mas que vacinar crianças pode ser uma estratégia interessante. “Sabemos que elas têm chance menor de terem quadros mais graves, mas são importantes quanto à transmissão.”

As vacinas para covid-19 só poderão ser utilizadas em crianças após esse grupo passar por testes clínicos para verificar se serão necessários fazer ajustes, finaliza.

*Estagiária do R7 sob supervisão de Deborah Giannini