Saúde É recomendado fazer teste para confirmar a imunidade da vacina? 

É recomendado fazer teste para confirmar a imunidade da vacina? 

Especialistas acreditam que exames não mostram realidade e podem dar falsa sensação de proteção contra o vírus da covid-19

  • Saúde | Carla Canteras, do R7

Resumindo a Notícia

  • Sorologia não é uma resposta definitiva de imunização contra o vírus da covid-19
  • Exames positivos podem dar falsa sensação de proteção e ocasionar novos casos
  • Duração da imunidade após vacina ou infecção é fator que diminui confiança no testes
  • Imunizantes podem gerar proteção celular e sorologia não detecta essa imunização
Teste serva para conferir contato com vírus, mas não para verificar imunidade

Teste serva para conferir contato com vírus, mas não para verificar imunidade

Ricardo Maldonado Rozo/EFE

A evolução de vacinação contra a covid-19 no Brasil e a ideia de voltar a uma vida mais próxima do normal fazem com que muitas pessoas recorram aos testes de sorologia para confirmar a imunização das vacinas recebidas. Mas, os especialistas não indicam os exames, uma vez que eles não apresentam uma resposta definitiva sobre a proteção à doença.

A médica Monica Levi, diretora da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), ressalta que a sorologia não tem a função de checar a eficácia da vacina e os resultados podem não retratar a realidade.

"A sorologia é indicada para quem não fez o PCR e no 15º dia após os primeiros sintomas quer saber se teve covid ou não, ou para fazer exame de prevalência, porque, numa pandemia, é importante saber quantas pessoas se infectaram. O IgG total só mostra que o indivíduo tem anticorpos, mas não indica se eles são capazes de impedir uma infecção", afirma Levi.

"A pessoa faz um teste sorológico e pensa: aí que bom estou imunizada e se descuida. Não sabemos a quantidade de anticorpos efetivos e neutralizantes para refletir uma proteção verdadeira. O teste positivo não é afirmação que a pessoa está protegida", acrescenta a especialista.

Carlos Eduardo dos Santos Ferreira, presidente da SBPC/ML (Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial), ainda lembra que os exames são recentes e não foi provado a importância dele para virar diretriz das entidades médicas.

"Não há uma diretriz, porque não se sabe o que fazer com o resultado. Não sabemos o grau de proteção para imunização ou para a necessidade de aplicar outra dose de vacina. Os testes chegaram há cinco meses no mercado, o vírus ainda é muito novo. Quando tivermos conhecimento de que o teste é necessário para direcionar uma outra dose ou evitar uma doença grave pode virar uma diretriz", explica Ferreira.

A capacidade do SARS-CoV-2 de sofrer mutações rapidamente também influencia na veracidade e confiança da sorologia. A especialista alerta: "Vamos supor que o teste detecte anticorpos contra a cepa original e a pessoas se sente protegida contra covid. E se não funcionam tão bem para a variante do amazonas, que é 90% dos casos hoje no Brasil?".

Outro fator levado em consideração por médicos é que a proteção às doenças infecciosas não se mede apenas pela produção ou não de anticorpos. A imunidade celular é importante e os exames que hoje estão sendo usados não detectam a capacidade das células de destruírem as partículas infectadas. 

"Para algumas doenças virais, é mais importante a imunidade celular, do que a produção de anticorpos, por exemplo a AIDS. Mas são doenças conhecidas, estabelecidas. Ainda precisamos descobrir muitas coisas sobre a covid", ressalta Monica.

"Hoje o que médico vai falar para um paciente que fez o teste e não produziu anticorpo, não está imune, mas ela pode estar protegida. O paciente pode ter resposta celular e não de anticorpos e vice-versa", conta Ferreira.

Uma das principais respostas que os cientistas precisam descobrir sobre o SARS-CoV-2 é a duração da imunidade, após vacina ou infecção pelo vírus. "A período da proteção vai determinar a necessidade de uma terceira dose ou reforços posteriores. No caso da doença, não se sabe com precisão, mas sabemos que a imunidade é curta. E a imunidade conferida pela vacina? Se a pessoa faz hoje o teste e aparecem os anticorpos vacinais, mas em um mês pode não ter mais", observa Levi.

O presidente da SBPC/ML lembra que o foco deve estar na aplicação de doses, porque os números de mortes e novos casos no Brasil seguem crescendo. "No momento que estamos hoje o importante é vacinar, ampliar a vacinação, e não pensar em discussão de teste. Todo mundo tem que estar com pelo menos uma dose de vacina para depois pensar nesse assunto", diz Ferreira.

Monica Levi conclui: "não é porque tem uma sorologia positiva que pode sair por aí, pensando: 'a covid não é mais problema meu!' Não é nada disso."

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