Entenda a segunda onda de covid-19 e qual a situação do Brasil

Países que flexibilizaram a quarentena vivem nova onda de contágio; especialistas avaliam que isso acontecerá enquanto não houver imunização

Pequim, que vive novo surto de coronavírus, faz testes para detectar casos

Pequim, que vive novo surto de coronavírus, faz testes para detectar casos

Roman Pilipey /EFE/EPA - 17.06.2020

Após a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarar preocupação com o novo surto de coronavírus em Pequim, na China, e a cidade aumentar o nível de resposta a emergências, o chefe de epidemiologia do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China, Wu Zunyou, declarou na quinta-feira (18) que a situação estava controlada.

A Alemanha passa também por uma nova onda de contágios pelo novo coronavírus e colocou 700 moradores de um prédio na cidade de Gottingen em quarentena após confirmar cerca de 100 casos de covid-19. Já a Nova Zelândia registrou seu 3º caso nesta semana depois de ter zerado as infecções pelo vírus.

Segunda onda é possível e real

O infectologista Carlos Fortaleza, do Departamento de Doenças Tropicais da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu (SP), explica que a segunda onda de contágio "é uma possibilidade em qualquer doença epidêmica transmissível" desde que a população não esteja imunizada contra ela, como é o caso da covid-19.

"Ela é real e a gente fala muito nela com base na segunda onda de gripe espanhola [outubro de 1918], que foi a mais mortífera", afirma.

Aline Dayrell, professora-adjunta do departamento de medicina preventiva e social e coordenadora do curso de epidemiologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), concorda com Fortaleza.

"A covid-19 tende a durar porque, em princípio, todos estão suscetíveis à doença e para diminuir [os casos] deve haver imunidade de rebanho ou vacina", explica.

Imunidade de rebanho é a proteção que se alcança quando a maior parte das pessoas já teve contato com o vírus e, por isso, se tornou imune a ele. Segundo Aline, é preciso que 70% da população fique imune para alcançar essa condição. 

Mas a professora pondera que isso depende de um grande número de infectados, o que também representa um maior número de pessoas morrendo. "Essa ideia, inclusive, foi criticada pela OMS. Então, o que precisa nesse momento para evitar contágio é evitar aglomerações", enfatiza.

Na terça-feira (18), o chefe do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, Carlos Carvalho, também admitiu a possibilidade de uma segunda onda da covid-19 em meio ao processo de abertura econômica do Estado.

Particularidades do Brasil

Fortaleza ressalta, no entanto, que o Brasil como um todo sequer superou a primera onda. Nesse contexto, é necessário discutir se a flexibilização da quarentena adotada por alguns Estados e municípios vai acelerar o número de casos.

De acordo com Aline, após a primeira onda de infecções, outras serão inevitáveis no Brasil diante da flexibilização das medidas de isolamento.

"É preciso ter ciência de que a dinâmica da epidemia no Brasil é diferente, dada a extensão territorial e a demografia do país. Outras ondas virão. Vai ter uma terceira e uma quarta e temos que nos preparar para isso", ressalta.

Ela acrescenta que não é possível replicar aqui experiências vividas por outros países em relação à pandemia. "Há desigualdade social e questões como viabilidade para adotar medidas de prevenção, nível de instrução das pessoas. Existem diversos desafios", pondera.

Os especialistas também afirmam que todo plano de flexibilização das medidas para conter o novo coronavírus devem ter a possibilidade de ser reverssíveis. "Caso contrário, esse plano está errado", diz Fortaleza.

Medidas de controle e teste em massa

"Ao flexibilizar, novos casos vão surgir e vamos ter que recuar de novo, fazer isolamento intermitente", reitera Aline. "É preciso aprender a conviver com o vírus e adotar medidas de controle", completa.

A professora ressalta que essas medidas é que vão possibilitar uma melhor maneira de lidar com as ondas de contágio que estão por vir. A principal delas é a testagem em massa da população, que permite conhecer a dinâmica da epidemia em cada região e definir estratégias específicas para conter o vírus.

"A gente tem que levar em consideração que a dinâmica depende muito do perfil demográfico e social de cada região", analisa. "A epidemia começou nas classes mais abastadas, mas agora ela atinge populações mais vulneráveis, o que torna a dinâmica no Brasil muito mais complexa", completa.

Fortaleza, por sua vez, destaca que um "sistema sensível de vigilância" é necessário para identificar, isolar novos casos e, assim, conter novos surtos ou epidemias.