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Saúde Entenda caso de homem vítima da covid-19 após dois testes negativos

Entenda caso de homem vítima da covid-19 após dois testes negativos

Bruno Yanaguita, 33, morreu da doença na sexta-feira (19) em Primavera do Leste (MT); especialistas explicam por que ocorre o 'falso negativo'

  • Saúde | Brenda Marques, do R7

Bruno Yanaguita morreu de covid-19 na sexta-feira (19)

Bruno Yanaguita morreu de covid-19 na sexta-feira (19)

Reprodução/Facebook

Um homem de 33 anos morreu na última sexta-feira (19) de covid-19 em Primavera do Leste (MT). Bruno Yanaguita fez dois testes para a doença, mas ambos tiveram resultados negativos.

Ele deu entrada na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) da cidade uma semana antes de falecer.

O primeiro exame a que Bruno se submeteu foi um teste rápido, feito em uma clínica particular, de acordo com relato feito por sua mulher em uma rede social. Como o resultado foi negativo apesar dos sintomas, ele continuou isolado em casa.

No entanto, o homem foi levado até a UPA da cidade na quinta-feira (11), pois não apresentava melhoras em seu estado de saúde. Ainda segundo Elaine, lá fizeram apenas exames de raio-x e hemograma. "Disseram que ele estava ótimo e nos mandaram para casa", conta.

Em entrevista ao R7, especialistas já alertaram que o teste rápido pode apresentar falhas e requer cautela. Ao liberar a realização desse tipo de exame em farmácias, a própria Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirmou que ele não tem o objetivo de diagnosticar a covid-19.

Por que não serve para diagnóstico

Ele não serve para diagnóstico porque detecta a presença de anticorpos contra o novo coronavírus no sangue da pessoa. Isso significa saber se houve exposição ao vírus, e não se a pessoa está infectada no momento da testagem, de acordo com a Anvisa.

IgM e IgG são os dois tipos de anticorpos identificados pelo teste rápido. O IgM é o primeiro a ser produzido e tende a desaparecer, indica que o paciente está infectado ou teve uma infecção recente. Já o IgG demora para ser fabricado, porém é mais abundante e permanece no sangue, como uma memória de defesa.

Na teoria, seria capaz de evitar futuras infecções pelo mesmo agente invasor. Mas ainda não é possível afirmar, com base nas evidências científicas disponíveis até agora, se uma pessoa que contraiu o coronavírus uma vez está permanentemente imune.

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Resultado "falso negativo"

Na ocasião do aval para a realização de testes em farmácias, o CFM (Conselho Federal de Medicina) também emitiu nota em que manifesta preocupação sobre o tema. De acordo com a instituição, se o teste rápido for realizado no período incorreto, 75% dos resultados podem ser "falsos negativos".

"Eles apresentam deficiências, pois devem ser realizados após sete dias da apresentação dos primeiros sintomas”, afirmou o CFM.

"Antes disso, pode dar 'falso negativo' porque os anticorpos ainda não apareceram", explicou o virologista e biólogo Flávio Guimarães, do Centro de Tecnologia em Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Sete dias é o prazo necessário para que o organismo consiga produzir essa resposta do sistema imune em níveis detectáveis pelo exame - período conhecido como "janela imunológica".

No entanto, em um texto que reúne perguntas e respostas sobre os testes rápidos, a Anvisa informa que, entre os exames aprovados pela agência, os "resultados mais robustos foram obtidos a partir do décimo dia", de demosntrações de sintomas.

Controle de qualidade

A pesquisadora do ICB (Instituto de Ciências Biológicas) da USP Natália  Pasternak publicou um artigo na revista do Instituto Questão de Ciência, do qual é presidente, em que também cita as limitações desse tipo de teste.

"A sensibilidade [capacidade do teste de evitar falsos negativos] e a especificidade [capacidade de evitar falsos positivos] desses testes variam muito. Existem diversas marcas no mercado, e como não há regulamentação e validação adequadas, não há como garantir a qualidade do teste. Reino Unido e Espanha compraram lotes de testes da China que não funcionavam como prometido", destaca.

No Brasil, todos os testes precisam ser registrados pela Anvisa antes de serem comercializados. Nesse processo, o órgão exige a apresentação de informações para avaliar a confiabilidade dos resultados e a eficácia dos produtos. Os aprovados podem ser consultados aqui.

 "Os fabricantes precisam demonstrar como foram realizados os testes de desempenho e a qualificação das amostras utilizadas, bem como as evidências clínicas, tendo em vista o tipo de produto, a indicação de uso e a metodologia, conforme disposto na RDC 36/2015", informa o órgão em sua página.

A agência acrescenta que continua monitorando, junto às vigilâncias sanitárias estaduais e municipais, a qualidade dos testes após a comercialização. O controle é feito "por meio de queixas técnicas ou pela avaliação laboratorial de desempenho", detalha.

Teste padrão ouro

O teste considerado "padrão ouro" é o RT-PCR, feito com base em biologia molecular. Ele serve para diagnóstico da infecção pelo novo coronavírus porque detecta a presença de seu genoma.

"Ele identifica uma sequência do material genético do vírus. Então, consegue pegar a doença bem no início, antes do aparecimento de sintomas", explicou Alessandro dos Santos Farias, professor do Instituto de Biologia e Coordenador da Frente de Diagnóstico da Força-Tarefa de enfrentamento ao novo coronavírus da Unicamp.

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