Novo Coronavírus

Saúde Especialista avalia as lições do lockdown de Araraquara (SP)

Especialista avalia as lições do lockdown de Araraquara (SP)

Para pneumologista que acompanhou de perto o colapso da cidade do interior paulista, criar mais leitos de UTI não resolve o problema

  • Saúde | Hysa Conrado, do R7

Resumindo a Notícia

  • Araraquara (SP) adotou o lockdown um dia depois de as UTIs atingirem 100% de ocupação
  • Dez dias depois, município acusou a redução de 43% das infecções e 28% das internações
  • Pneumologista da linha de frente alerta que mortes são um marcador tardio da pandemia
  • Médico adverte que a criação de novos leitos não é capaz de conter a força do vírus
Isolamento da população reduziu novas internações, ajudando a desafogar o sistema de saúde

Isolamento da população reduziu novas internações, ajudando a desafogar o sistema de saúde

Denny Cesare/Folhapress

A cidade de Araraquara, no interior de São Paulo, entrou em colapso no dia 20 de fevereiro, com 100% da ocupação de leitos de UTI e de enfermaria. A variante do Amazonas, considerada mais transmissível, foi identificada em 60% dos casos diagnosticados na cidade, que, já no dia seguinte, decretou lockdown.

A medida, um bloqueio total que impede inclusive a circulação de pessoas, previa multa de até R$ 6.000 a quem desobedecesse à regra e durou 10 dias, levando à redução de 43% dos casos e 28% das internações. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde de Araraquara, atualmente a ocupação é de 80% dos leitos de enfermaria e 97% de UTI. 

Para o pneumologista Flavio Arbex, coordenador da Enfermaria Covid da Santa Casa de Araraquara, a primeira lição que a cidade ensina é que mortes são um marcador tardio da gravidade da pandemia.

Isso porque, segundo explica, após o diagnóstico de covid-19, os pacientes levam até 10 dias para apresentarem uma piora da doença e chegarem até o sistema de saúde. “As mortes são um marcador tardio. É preciso olhar o número de novos casos e de internações, porque se o número de casos aumenta hoje, as mortes só vão ocorrer daqui a 10 dias”, explica.

Nos últimos 14 dias, o Brasil vem diariamente quebrando recordes da média móvel de novos casos diários, chegando a registrar 80.508 em 24 horas no último dia 7. O número de mortes também cresceu e o país tem registrado mais de 2 mil por dia

Criar mais leitos de UTI não é a solução

A superlotação dos hospitais é uma realidade em todo o país. De acordo com um boletim divulgado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), 25 das 27 capitais brasileiras estão com mais de 80% dos leitos de UTI ocupados, sendo que na maior parte dessas cidades a ocupação passou dos 90%. 

Mas, segundo Arbex, a criação de novos leitos não soluciona o problema. Primeiramente, porque a medida exigiria mais profissionais de saúde para atender nas UTIs, mas não há trabalhadores suficientes capacitados. Outro ponto é que os profissionais que atuam na linha de frente da pandemia estão esgotados.

“Quando se fala em abrir leito, comprar monitor e respirador, é preciso ter pessoas que saibam manejar e cuidar desses pacientes. O que temos é um exército de profissionais da saúde cansados, trabalhando no limite há um ano, sofrendo com as perdas recentes de pacientes jovens, com o aumento da carga de trabalho e da pressão do sistema de saúde”, diz o médico.

Ele explica ainda que, apesar de ter registrado uma queda do número de novos casos e de internações, as UTIs da cidade permanecem com alta taxa de ocupação porque o aumento de jovens internados com covid prejudica a rotatividade dos leitos. “Diferentemente dos pacientes idosos que podem falecer mais rápido por ter mais comorbidades, os jovens ficam em média 14 dias internados”, afirma Arbex.

Na avaliação do médico, para que ocorra um real efeito em relação aos leitos de UTI, é necessário que, mesmo após o fim do decreto de lockdown, a população continue a seguir as recomendações de distanciamento social e uso de máscara. “A gente precisa respeitar o vírus, senão o sistema de saúde vai colapsar e o número de mortes vai ser maior”, afirma.

Além disso, o pneumologista também chama a atenção para os cuidados necessários após a alta do paciente da UTI, que exigem acompanhamento. “Eles saem com sequelas com difícil recuperação. É uma luta diária para recuperar esses pacientes. As coisas vão piorar e a gente precisa avisar. As pessoas têm que se conscientizar de que não dá para aglomerar”, afirma.

A covid-19 é uma tragédia familiar

Para Arbex, mais importante que dar um nome às restrições de isolamento, como chamá-las de lockdown ou fase vermelha, por exemplo, é que a população se conscientize da gravidade do coronavírus e cumpra os cuidados básicos, como manter o distanciamento social, lavar as mãos e usar máscaras; além de não aglomerar em encontros de família e em festas clandestinas.

“É importante não baixar a guarda em encontros com a família. Essa doença é uma tragédia familiar. Se antes víamos uma pessoa testando positivo para o vírus em uma casa, agora a gente vê todos. Tem gente perdendo pai, mãe e tio”, afirma.

O pneumologista chama a atenção para as novas variantes do coronavírus que têm taxas de transmissibilidade maiores, permitindo que os infectados transmitam o vírus para uma quantidade maior de pessoas durante mais tempo, facilitando sua disseminação. Um estudo britânico comprovou que a variante do Reino Unido é mais letal do que as outras. Em relação às variantes da África do Sul e do Amazonas, ainda não se sabe.

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